Você gosta de peixe?
- Célio Juvenal Costa

- há 20 horas
- 3 min de leitura
Há algum tempo assisti a um vídeo bem curto no qual o Rabino Abraham Twerski faz uma reflexão muito interessante sobre o amor nas relações humanas em geral e amorosas em particular. O Rabino, em um dado momento de sua reflexão, usa de uma metáfora tão inusitada quanto apropriada: ele diz que as pessoas afirmam gostar de peixe, mas, se de fato gostassem DO peixe, não iriam querer comer a carne do peixe; na verdade, continuava ele, as pessoas que dizem que gostam de peixe gostam é da carne do peixe, elas se alimentam daquilo que dizem gostar e, portanto, as pessoas gostam é delas mesmas ao querer se satisfazer com a deliciosa carne do peixe. Nós gostamos das pessoas ou do que as pessoas podem nos oferecer? Ou, nós gostamos das pessoas na exata medida do que elas podem nos oferecer?

A questão aqui, obviamente, não gira em torno de uma dieta vegetariana ou mesmo vegana. A questão é sobre os relacionamentos humanos. Mais especificamente sobre as relações amorosas em que um se “apropria” da vida do outro e, de certa forma, passa a viver a vida do outro. Me parece que estamos vivendo (ou sempre vivemos) uma epidemia desses casos, que mostra seu lado mais cruel quando um dos dois, geralmente o homem, não admite viver sem a “carne” da outra pessoa para lhe alimentar e a mata. Sim, estamos falando de feminicídio, que, infeliz e desgraçadamente, parece só aumentar de número ultimamente. O feminicídio tem um componente a mais nesse enredo que é a prepotência masculina, respaldada em uma cultura patriarcal, machista e misógina. No entanto, aquilo que as pessoas chamam de amor por outra pessoa, parece ser, na verdade, um amor exacerbado por si mesmo, e a outra pessoa é amada exatamente no sentido em que ela serve de alimento para o amante.
Uma certa tradição romântica, alimentada por filmes, novelas, séries, poesias e músicas, propala que o amor é um encontro entre duas pessoas que passam a gostar da companhia uma da outra, a se encontrar sempre, a trocar intimidades, até que resolvem misturar suas vidas em uma vida em comum, morando no mesmo lugar. É claro que há outras coisas que fazem parte de uma relação, mas a síntese apresentada é para mostrar que as pessoas agem movidas por um sentimento que elas chamam de amor. Claro que esse sentimento, o amor, pode se apresentar de forma mais livre e, assim, mover duas pessoas a querer partilhar esse sentimento. Mas, o que encontramos muitas vezes é a posse que recebe o nome de amor; nessa forma de relação um ama o outro na medida em que se alimenta do outro, ama na medida em que a presença do outro o satisfaz, ama na medida em que a submissão do outro o satisfaz. O que a outra pessoa pensa, deseja, projeta para sua vida, na verdade pouco importa; o que está em jogo não são os sentimentos e o desejo da outra pessoa, mas os seus sentimentos e os seus desejos que são satisfeitos pela outra pessoa.
Se perguntássemos para o peixe se o desejo dele é que sua carne satisfaça o apetite e o gozo de quem o comer, o que ele diria? Se alguém perguntar se gostamos de peixe, talvez a nossa resposta deveria ser: sim, gostamos da carne do peixe, gostamos da satisfação que temos ao comê-lo, gostamos dele exatamente na medida em que ele me deixa mais feliz. Se desenvolvermos uma afeição por um peixe, assim como desenvolvemos por outros pets, dificilmente desejaríamos nos alimentar de sua carne.
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