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VAIDADE E (IM)PRODUTIVISMO


Célio Juvenal Costa, professor da UEM

 

(Conto livremente inspirado em Machado de Assis)

 

Recentemente foi encontrado um manuscrito antigo, de autoria desconhecida, que relata a vida em uma sociedade bem diferente desta nossa em que vivemos. Pelo manuscrito não se sabe que época é retratada nem exatamente o local, mas sabe-se que eram seres humanos vivendo de forma organizada e, em princípio, racionalmente. Provavelmente em alguma ilha razoavelmente grande de algum imenso oceano. Perto da ilha de Utopia? Quem sabe... restam apenas especulações, até porque esta sociedade, ao que tudo indica, deixou de existir há muito tempo... Bem, vamos a uma síntese do que está no pergaminho.

 

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Aquela sociedade se organizava em torno da luta, ou melhor dizendo, da pugna, com regras bem claras, e, com o passar do tempo, cada vez mais regrada. No começo as pessoas lutavam porque gostavam, porque diziam que era saudável para o corpo e para o espírito e, especialmente, porque poderiam passar as técnicas de luta para pessoas mais jovens. Assim, criaram uma espécie de programas de treinamento para passar as técnicas, tanto práticas como teóricas, para aqueles que passaram a ser os alunos. E, como aferição dos resultados, os alunos teriam que desenvolver novas técnicas e formas de lutas e apresentarem perante um comitê. Como aquela sociedade, pelo que se pode apreender do pergaminho, era razoavelmente grande, dividida em distritos, uns mais centrais e ricos e outros mais periféricos e pobres, logo começou a existir uma forma de ranking entre os programas de treinamento. E, por uma decorrência que só afeta os seres humanos em toda a sua longa história, a vaidade começou a tomar conta de algumas pessoas. Aqueles que estavam no topo do ranking se sentiam como que aristocratas da sabedoria e aqueles que não estavam no cume faziam de tudo para lá fincar seus "pés".

 

A partir de então, como vaidade que se presta não pode ser para todos, aquela sociedade passou a expandir suas regras, tanto horizontalmente como verticalmente, ou seja, mais regras para os alunos e seus tutores e mais regras para os programas. O curioso, pelo menos para nós que não cultivamos essas coisas, é que as regras passaram a restringir o acesso de programas e, consequentemente, de professores e seus alunos, aos estágios mais destacados. Quanto mais programas coletivos conseguiam atender as regras, no ano seguinte se elevavam os patamares a serem atingidos. No começo da organização das pugnas bastava aprender as técnicas e apresentá-las em festivais de lutas; os professores também faziam suas apresentações; existia festivais o ano todo em todos os recantos daquela sociedade. No entanto, as novas regras que foram surgindo disciplinavam os eventos; estabeleceu-se, também, um ranking dos festivais de 1 a 10, sendo 1 o mais qualificado e 10 o menos. Eventos categorias 1, 2 e 3 eram bem poucos e, portanto, concorridos, e para conseguir ser aceito para lutar neles era algo para poucos, somente os considerados lutadores/aristocratas na verdade; os outros, especialmente os de categorias 8 a 10 eram mais e mais acessíveis, porém, contavam bem pouco.

 

O manuscrito relata que poucas pessoas questionavam as regras estabelecidas, pois criou-se toda uma racionalidade lógica para provar que as categorias e, por consequência, os rankings eram impassíveis de crítica; "só se estabelecia quem tinha qualidade", era o que afirmavam; e isto tornou-se uma espécie de dogma. E assim, desta forma, passou-se vários anos... No entanto, continua o manuscrito, as (poucas) pessoas que faziam críticas àquela racionalidade, diziam que as lutas tinham perdido o sentido de pugnas; um número cada vez menor de pessoas ia assistir as lutas; os alunos não estavam mais sendo preparados com tempo suficiente para treinar bem suas técnicas, pois tinham que lutar o mais cedo possível e na maior quantidade possível; os programas estavam demitindo gente que não lutava o suficiente em prol do seu programa... enfim, aquele modelo adotado não era unânime, mas era hegemônico. O manuscrito termina relatando tentativas dos descontentes de criarem uma espécie de liga separada e autônoma, mas que não tiveram muito sucesso. A organização original seguiu produzindo cada vez mais festivais, cada vez mais lutas e... cada vez mais vaidades...

 

É preciso ser justo com meus leitores e informar que existe uma pequena possibilidade do manuscrito ser forjado. Se esta hipótese for verdadeira, resta perguntar quem inventou isso tudo e por que motivos? Eu, de minha parte, acredito que o manuscrito é verdadeiro... ah, e como é!! 

 

Meu Instagram: @costajuvenalcelio

 

Obs: Esta é uma versão revisada e atualizada de um texto originalmente publicado no blog: devaneioseoutrasreflexões.blogspot.com.

1 comentário


Convidado:
19 de set.

Você descreveu o programa de avaliação da CAPES, o infame Sucupira. Quando aprendemos as regras de preenchimento, eles mudam elas.

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