Utopias do passado
- Célio Juvenal Costa

- 23 de abr.
- 3 min de leitura
Em algum momento de nossa vida é bem possível que olhemos para nosso passado com uma espécie de lente que mostrará uma realidade aprazível, sem problemas, em que fomos felizes, e talvez não sabíamos. Isto pode até corresponder à realidade de fato, mas, por vezes, me arrisco a afirmar que na maioria das vezes, o que fazemos é uma idealização do nosso próprio passado, criamos uma espécie de utopia pessoal de algo já vivido. Também fazemos isso em um contexto maior, da sociedade mais ampla, nos seus aspectos morais, econômicos, sociais e políticos; nos voltamos ao passado de forma idealizada como uma utopia que não soubemos aproveitar ou que, por algum motivo, deixamos escapar por entre nossos dedos.

É normal que das coisas do passado nós retenhamos a memória do prazer e desprezemos a memória da dor. Aquilo que nos fez sofrer, ou pessoas que nos fizeram sofrer, são relegados a um canto da memória que não gostamos de acessar. O sofrimento deve ficar no passado, caso depois tenhamos conseguido superar de fato a situação desprazerosa. A memória do sofrimento parece ter um poder de atualizar as dores e, por isso, a evitamos. A memória do prazer, por sua vez, nos leva a momentos do passado em que fomos felizes e que, a depender da situação presente, gostaríamos de viver novamente, atualizando, assim, o prazer vivivo. É normal, por exemplo, que as pessoas reencontrem seus primeiros amores, depois de 20, 30, 40 anos e, pelo mecanismo de atualização da memória do prazer, queiram reviver aquela relação.
Eu penso que o problema nesse tipo de situação se encontra quando a memória do prazer vem, de certa forma, envolvida em uma idealização do passado ao se negar os seus aspectos negativos ou não tão prazerosos. Quando isso acontece vemos no passado uma espécie de utopia em que vivíamos e não nos dávamos conta. Portanto, tal utopia é, na verdade, um produto de nossa mente na atualidade; é uma aspiração, é um desejo, é um querer resolver as coisas do presente por devaneios que se dirigem à uma releitura do passado. A utopia não está no passado vivido, pois ele, o passado, sempre vai estar envolto em coisas boas e coisas não tão boas, em momentos de prazer e momentos de dor, de sofrimento. Cada um, ao voltar-se, sem idealizações, ao seu passado vai encontrar, com certeza, mais ou menos momentos a serem lembrados com carinho e mais ou menos momentos a serem esquecidos. Viver com o sonho de uma utopia não realizada, no fundo talvez seja evitar viver o presente, pois, muitas vezes, no presente está o imponderável, está o inapreensível, está o indeterminado, está a insegurança.
Voltar ao passado, idealizá-lo como uma utopia não realizada, serve, também, para negarmos no presente exatamente o que não queremos nele. Há pessoas que idealizam o período da ditatura militar no Brasil, como sendo um momento de pujança econômica e que a família tradicional brasileira estava resguardada. Tal idealização, que se mostra com a construção de uma utopia do passado, tem o interesse de negar o presente exatamente naquilo que mais se afasta dos desejos e das aspirações das pessoas que se definem como conservadores e de extrema-direita. Refugiar-se no passado é negar o presente e, em última instância, é negar o próprio passado na complexidade em que foi construído, seja em nível pessoal seja em nível social. O nosso presente é, quase certo, imperfeito; o nosso passado foi, igualmente, imperfeito; mas é exatamente nas nossas imperfeições que somos humanos, que sentidos e nos lembramos de dores e sofrimentos, mas também sentimos e nos lembramos de momentos de prazer e, por que não dizer, de plena felicidade!!
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