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Trump captura Maduro e deixa Venezuela sem rumo, sem prumo e sem presidente

Por Marcio Nolasco - Analista de Políticas Públicas - ENAP


Marcio Nolasco - Portal Bisbilhoteiro.com.br
Marcio Nolasco - Portal Bisbilhoteiro.com.br

Meses de pressão crescente do governo dos Estados Unidos sobre a Venezuela culminaram na madrugada deste sábado com uma ação sem precedentes que aturdiu a comunidade internacional. Em meio ao bombardeio de diversos alvos venezuelanos, forças americanas entraram no palácio presidencial e capturaram o presidente Nicolás Maduro, de 63 anos, e sua esposa, Cilia Flores. Em pronunciamento no início da tarde, o presidente Donald Trump afirmou que os Estados Unidos iriam “administrar a Venezuela” até uma transição de regime, mas, pelo menos até o momento, não há qualquer sinal de que Washington tem algum controle sobre o país caribenho. Indagado sobre quem governaria, Trump respondeu “as pessoas bem atrás de mim”, apontando, entre outros, para os secretários de Estado, Marco Rubio, e de Defesa, Pete Hegseth.


De acordo com o governo dos EUA, Maduro e a esposa foram levados para um navio que os levou até a Flórida, de onde foram transferidos para Nova York de avião. O presidente venezuelano, que passou a noite em um centro de detenção, foi indiciado em 2020, durante o primeiro governo Trump, em um processo aberto cinco anos antes sobre tráfico internacional de drogas. Logo após a captura de Maduro, a procuradora-geral (equivalente nos EUA a ministra da Justiça), Pam Bondi, apresentou um novo indiciamento no mesmo caso (íntegra), com previsão de uma primeira audiência na segunda-feira.



A operação para prender Maduro começou em agosto, quando uma equipe da CIA se infiltrou em Caracas e passou a mapear toda a rotina do presidente, com a ajuda de drones camuflados e de um informante no Palácio Miraflores. O resultado foi uma ação rápida e precisa da Força Delta, uma das mais bem-treinadas tropas de elite do Exército dos EUA. Paralelamente, mísseis foram lançados contra áreas de Caracas e outras cidades do país, deixando, segundo autoridades venezuelanas, 40 mortos, entre civis e militares.


Em Caracas, a Suprema Corte determinou que a vice-presidente Delcy Rodríguez assuma o comando do país, embora ela enfatize que Maduro é o “único presidente” do país — a televisão estatal continuou a creditá-la como vice. Rodríguez fez um pronunciamento ladeada pelos principais líderes militares, afirmando que os EUA realizaram uma “agressão sem precedentes” a seu país. Segundo ela, “a máscara [dos Estados Unidos] caiu” e o objetivo de uma mudança de regime na Venezuela seria somente tomar o controle dos recursos naturais do país. “De uma coisa o povo venezuelano pode estar certo: jamais seremos novamente colônia de qualquer império”, disse Rodríguez.


Já a principal líder da oposição, María Corina Machado, celebrou nas redes a deposição de Maduro dizendo que “a hora da liberdade chegou” e que o presidente deposto “vai responder na Justiça internacional por seus crimes contra venezuelanos e estrangeiros”. Ela também exigiu a posse imediata de Edmundo González, candidato derrotado por Maduro nas eleições de 2024, consideradas fraudulentas por praticamente toda a comunidade internacional. González está exilado na Espanha, e Machado, que fugiu da Venezuela em dezembro para receber na Noruega o Nobel da Paz, não informa em que país está refugiada.


A prisão de Maduro provocou manifestações de ambos os lados. Em cidades, como Nova York, Boston, Washington e principalmente Miami, que concentra uma grande população de migrantes venezuelanos contrários ao chavismo, grupos foram às ruas celebrar a notícia. Ao mesmo tempo, houve protestos contra a ação em diversos pontos dos EUA, com manifestantes levando cartazes com a frase “nada de guerra por óleo”.


No início da tarde, Trump publicou em sua rede Truth Social uma foto de Maduro preso a bordo do navio de guerra americano Iwo Jima. Na imagem, o venezuelano aparece de pé algemado, com uma viseira preta e abafadores de som, sendo levado por um oficial da Agência de Repressão a Drogas (DEA na sigla em inglês) dos EUA. Segundo analistas, o objetivo era impedir que ele ouvisse o que se falava a sua volta. Outra foto que chamou a atenção foi do próprio Trump e do secretário de Defesa acompanhando a prisão de Maduro ao mesmo tempo em que conferiam a repercussão no X.


Confira uma galeria de imagens com os principais eventos desde a captura de Maduro. (CNN)


Embora tenha feito referências ao tráfico de drogas e a uma suposta “exportação de criminosos” da Venezuela para os EUA, Trump não escondeu um dos principais objetivos da ação contra Maduro: controlar a indústria petrolífera venezuelana. “Nossas grandes empresas de petróleo vão entrar [na Venezuela], gastar bilhões de dólares para consertar a infraestrutura petrolífera e começar a fazer dinheiro para o país”, afirmou. Segundo ele, o custo da eventual ocupação americana será coberto por “dinheiro vindo do solo”, em mais uma referência às reservas petrolíferas venezuelanas, as maiores do mundo, estimadas em 300 bilhões de barris. (Guardian)


Os planos de Trump para que as empresas petrolíferas dos EUA controlem a produção de petróleo na Venezuela e paguem ao governo dos EUA esbarram em um precedente histórico: o Iraque. Após a invasão americana de 2003 e a deposição de Saddam Hussein, as companhias de petróleo pretendiam fazer o mesmo e chegaram a gastar bilhões de dólares, mas o projeto foi inviabilizado em grande parte pela instabilidade política que se seguiu.


Mas o discurso de Trump não se ateve ao petróleo. Com fartura de adjetivos como poder militar “esmagador” e ataque “espetacular”, ele procurou enfatizar sua imagem como “homem forte”, dizendo que governos anteriores permitiram que o poderio dos EUA sobre a região se deteriorasse. Trump mencionou ainda a Doutrina Monroe, criada no início do século 19 para combater a presença colonial europeia nas Américas e transformada em base para o intervencionismo de Washington no continente. Citou ainda a presença de tropas federais para “garantir a ordem” em grandes cidades americanas. (BBC)


O já dividido Congresso americano ficou ainda mais cindido com a operação militar de Trump na Venezuela, não comunicada previamente ao Legislativo. A maioria republicana — especialmente a linha-dura, os chamados “gaviões” — cerrou fileiras com o presidente, endossando que Nicolás Maduro é um “narcoterrorista” que ameaça o país. Já os democratas apelidaram a ação de “Iraque 2.0”, numa referência à invasão do país árabe em 2003 com base em informações falsas sobre armas de destruição em massa que desestabilizou toda a região. O senador democrata Tim Kaine, da Virgínia, prometeu apresentar nesta semana uma resolução proibindo novas operações na Venezuela sem aprovação explícita do Congresso, mas é improvável que consiga atrair republicanos para a causa.



Para ler com calma. A operação dos Estados Unidos encerrou mais de 12 anos de controle exercido por Nicolás Maduro sobre a Venezuela. Escolhido por Hugo Chávez como vice, o ex-motorista de ônibus subiu ao poder com a morte do líder bolivariano, em março de 2013. Desde então, o país vive um endurecimento no regime e uma constante deterioração na economia. Quase 8 milhões de venezuelanos deixaram o país e, segundo dados de 2024 da ONU, 82% da população vive na pobreza.


A América Latina se dividiu na reação à operação de Donald Trump. Os países cujos líderes estão mais alinhados a ele ideologicamente celebraram o ataque. Javier Milei, presidente da Argentina, publicou vídeos, mensagens e uma nota oficial comemorando a captura de Nicolás Maduro, classificado como “o maior inimigo da liberdade no continente”.


José Antonio Kast, presidente eleito do Chile, disse em suas redes que a prisão de Maduro é uma “vitória para a região” e que ele estava no poder sustentado por um “narco-regime ilegítimo”. O presidente do Equador, Daniel Noboa, declarou que “todos os narcochavistas criminosos terão sua hora” e manifestou apoio à oposição venezuelana. O governo do Paraguai divulgou um comunicado oficial em que classificou Nicolás Maduro como líder de uma organização criminosa formalmente declarada terrorista pelas autoridades paraguaias.


Outros líderes da região reagiram em linha com a posição brasileira. Citado nominalmente por Trump, o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, disse que “observa com profunda preocupação os relatos de explosões e atividades aéreas incomuns registradas nas últimas horas na República Bolivariana da Venezuela, bem como a consequente escalada da tensão na região”. O cubano Miguel Díaz-Canel, por sua vez, exigiu uma resposta “urgente” da comunidade internacional contra o que considerou um “ataque criminoso” dos EUA contra a Venezuela. “Terrorismo de Estado contra o bravo povo venezuelano e contra a nossa América”, escreveu Díaz-Canel. Gabriel Boric, atual presidente chileno, afirmou que “a crise venezuelana deve ser resolvida por meio do diálogo e do apoio do multilateralismo, não por meio da violência ou da interferência estrangeira”. Já a mexicana Claudia Sheinbaum citou o Artigo 2 da Carta das Nações Unidas e afirmou que “os membros da Organização devem abster-se, em suas relações internacionais, da ameaça ou do uso da força contra a integridade territorial ou a independência política de qualquer Estado, ou de qualquer outra maneira incompatível com os propósitos das Nações Unidas”.



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