Tirar de um para dar vantagem ao outro? A polêmica sobre um possível Auxílio Saúde para secretários em Cianorte
- Marcio Nolasco

- há 1 hora
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Por Marcio Nolasco – Analista de Políticas Públicas - ENAP
Uma pergunta simples pode revelar uma discussão muito maior sobre gestão pública:
É correto reduzir despesas retirando direitos ou vantagens de servidores públicos enquanto se discute a criação de novos benefícios exclusivos para integrantes do primeiro escalão do governo?
Essa é uma questão que merece ser respondida não com paixão política, mas com base na Constituição, na legislação e nos princípios que regem a Administração Pública.

A conversa que despertou o debate
Recentemente, recebi em meu escritório a visita da Secretária Municipal de Administração de Cianorte, Daniele Lima.
Durante a conversa foram abordados diversos assuntos relacionados às denúncias
que vêm chegando ao Portal Bisbilhoteiro, apresentadas tanto por servidores municipais quanto pela população.
Entre os temas, chamou atenção na ocasião a afirmação de que a Prefeitura estaria realizando um processo de redução de despesas com pessoal, buscando economia na máquina pública.
Até aí, trata-se de uma medida que pode ser legítima, desde que respeite a legislação.
O problema surge quando essa narrativa passa a ser confrontada com relatos recebidos por nossa redação nesta semana.
Segundo diversos servidores, estariam ocorrendo:
cortes de benefícios;
revisão ou supressão de adicionais;
retirada de insalubridade em determinados setores;
redução de vantagens remuneratórias.
Ao mesmo tempo, informações vindas dos bastidores políticos indicam que a Secretaria de Administração teria procurado vereadores para discutir a possibilidade de encaminhamento de um projeto criando Auxílio Saúde destinado exclusivamente aos secretários municipais (PRIMEIRO ESCALÃO).
Caso essa informação venha a ser confirmada oficialmente, surge uma pergunta inevitável.
Qual é a lógica desta gestão?
Se o discurso é contenção de despesas...
Por que criar uma nova despesa para apenas uma pequena parcela da administração?
Mais ainda.
Por que justamente para os cargos mais altos da Prefeitura?
A discussão deixa de ser financeira.
Ela passa a ser ética.

A Constituição fala em igualdade?
A Constituição Federal determina, no artigo 37, que toda Administração Pública deve observar os princípios da:
legalidade;
impessoalidade;
moralidade;
publicidade;
eficiência.
Esses princípios impedem que benefícios públicos sejam criados apenas para privilegiar determinadas pessoas sem justificativa objetiva.
A questão jurídica, portanto, não é simplesmente saber se um auxílio-saúde pode existir.
A verdadeira pergunta é:
Existe interesse público suficiente para justificar um benefício exclusivo aos secretários municipais justamente em um momento de contenção de gastos?
Auxílio Saúde é ilegal?
Não necessariamente.
O ordenamento jurídico brasileiro admite benefícios de natureza indenizatória para agentes políticos em determinadas hipóteses.
Entretanto, a criação desse tipo de vantagem depende de diversos requisitos, entre eles:
previsão em lei específica;
respeito à Lei de Responsabilidade Fiscal;
existência de dotação orçamentária;
demonstração do interesse público;
observância dos princípios constitucionais da moralidade, impessoalidade e transparência. O próprio Tribunal de Contas do Estado do Paraná tem entendimento de que vantagens dessa natureza para agentes políticos exigem disciplina legal própria e não podem ser simplesmente reproduzidas por analogia ao regime dos servidores.
Ou seja.
Não basta aprovar uma lei.
A lei precisa sobreviver ao controle de constitucionalidade e ao controle dos órgãos de fiscalização.
A pergunta que ninguém respondeu
Suponhamos que a Prefeitura realmente esteja retirando adicionais, revendo insalubridade e reduzindo benefícios de servidores.
Ao mesmo tempo, cria um auxílio exclusivo para secretários.
A população certamente perguntará:
A crise financeira existe para todos ou apenas para alguns?
Porque, se falta dinheiro para quem trabalha diretamente na saúde, educação, obras e serviços públicos...
Como aparece dinheiro para novos benefícios do alto escalão?
O problema da moralidade administrativa
Mesmo quando determinado ato possui previsão legal, ele pode ser questionado sob o aspecto da moralidade administrativa.
O Supremo Tribunal Federal e os Tribunais de Contas vêm afirmando repetidamente que a Administração Pública não deve apenas agir dentro da lei.
Ela deve agir conforme o interesse coletivo.
Criar um benefício para poucos enquanto centenas de servidores enfrentam cortes pode gerar um desgaste político enorme, ainda que a medida encontre respaldo formal em lei.
O que diz o Tribunal de Contas
Em decisões recentes, o Tribunal de Contas do Paraná esclareceu que benefícios como auxílio-saúde para agentes políticos somente podem existir mediante lei específica, observância da responsabilidade fiscal e respeito aos princípios constitucionais. Também destacou que agentes políticos possuem regime jurídico distinto dos servidores públicos.
Isso significa que eventual benefício não é automaticamente ilegal.
Mas também está longe de ser automático.
Cada caso depende da análise da finalidade pública, da justificativa, do impacto financeiro e da forma como foi instituído.
As perguntas que a Prefeitura precisa responder
Se realmente houver encaminhamento desse projeto, algumas perguntas tornam-se inevitáveis:
Existe estudo de impacto financeiro?
Quantos secretários seriam beneficiados?
Qual será o custo anual?
Quem elaborou a proposta?
Qual o fundamento jurídico?
Enquanto isso, quantos servidores perderam benefícios?
Houve negociação com os sindicatos?
A prioridade do município hoje é ampliar benefícios do primeiro escalão?
Transparência é o melhor caminho
É importante destacar que, até o momento, o Portal Bisbilhoteiro relata informações recebidas sobre uma possível proposta em discussão nos bastidores políticos. Caso um projeto venha a ser protocolado, seu conteúdo deverá ser analisado com base no texto oficial.
Se a informação não se confirmar, a própria Prefeitura poderá esclarecê-la.
Se confirmar, caberá ao Executivo apresentar à sociedade as justificativas técnicas, jurídicas e financeiras para a medida.
A população tem o direito de conhecer não apenas quanto custará um eventual auxílio-saúde aos secretários, mas também como essa decisão se compatibiliza com o discurso de contenção de despesas e com os princípios da Administração Pública.
Porque, no fim das contas, permanece a pergunta que resume toda a discussão:
É aceitável retirar vantagens de quem presta o serviço público diariamente para criar um novo benefício destinado apenas ao alto escalão da administração?
Essa resposta não pertence ao Portal Bisbilhoteiro.
Pertence à Prefeitura de Cianorte — e, sobretudo, aos cidadãos que financiam a máquina pública com seus impostos.
O que alega a Secretária de Administração Municipal:
Entramos em contato com a Sra. Daneile Lima e estamos aguardando seu pronunciamento para publicar na integra assim que recebermos...



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Arrocha o servidor, tirando beneficios, sucateando veiculos, so pra beneficiar cargos comissionados, amigos de infancia, virou literalmente cabide de emprego, que a cada dia aumenta mais.