Sobre a série ADOLESCÊNCIA
Por Célio Juvenal Costa, professor da UEM
Poucos dias atrás eu e a Sofia, minha filha, assistimos a tão comentada série Adolescência da Netflix. Assistimos os quatro episódios de forma seguida e, confesso, foi uma das séries mais inquietantes que já assisti. Os episódios são de tirar o fôlego, até porque, para além da história, os episódios, de uma hora cada um, são filmados em um take só, sem cortes, como se estivéssemos assistindo uma peça de teatro, e isso sem perder o movimento e a mudança de cenários e dos inúmeros personagens. De início é preciso reconhecer que, do ponto de vista técnico, a série é sensacional: atores, adultos e adolescentes, atrizes, adultas e adolescentes, direção, filmagem, arte, enfim, nota dez para toda a produção. Mas, vamos ao conteúdo, e me desculpem alguns spoilers.

A história começa indicando tratar-se de uma narrativa policial. Um adolescente de 13 anos é preso, em Londres, acusado de homicídio. Nos é apresentado todo um protocolo, muito interessante, diga-se de passagem, da prisão do menino, dos exames de corpo de delito, da apresentação do advogado de defesa e do interrogatório, onde são apresentadas as provas contra ele. A acusação é de assassinato de uma também adolescente, e também de 13 anos, que era colega de turma do acusado. As provas são muito contundentes, com registros fotográficos e de vídeo, que indicam que realmente o crime existiu e foi cometido pelo adolescente acusado.
O segundo episódio praticamente inteiro se passa na escola, onde os detetives responsáveis pelo caso foram para conversar com colegas dos dois adolescentes e professores para conseguir descobrir mais alguma coisa, especialmente sobre uma faca, a arma do crime. O terceiro episódio é, no todo, o mais perturbador, pois é a conversa do adolescente acusado com uma psicóloga, a qual, em meio a um clima tenso, por meio de perguntas, consegue adentrar na mente do menino para descobrir os motivos que o levaram a cometer o crime. O último episódio é talvez o mais sensível, pois é todo dedicado à família do acusado; seu pai (o ator é o autor da série), sua mãe e sua irmã de 17 anos são mostrados, 13 meses após a prisão, no dia do aniversário do pai; o término do episódio e, consequentemente, da série, é de enternecer o nosso coração, pois não é difícil se imaginar na situação deles naquele contexto.
O pano de fundo da história é uma realidade brutal que está presente e gritando aos nossos ouvidos hoje em dia. O menino que assassinou sua colega fazia parte de uma comunidade virtual denominada INCEL, termo em inglês que significa “involuntary celibates”, cuja tradução pode ser “celibatários involuntários”; note-se bem que são INvoluntários, e não voluntários. Tal comunidade é formada, majoritariamente, por pessoas do sexo masculino heterossexuais, que se definem como incapazes de, apesar de quererem, conseguir algum relacionamento com mulheres, culpando-as por serem rejeitados. A ideia da série surgiu justamente para discutir esta questão, pois na Inglaterra foram registrados, nos últimos anos, vários casos de assassinatos de meninas adolescentes cometidos por meninos adolescentes. Os incels se tornaram grupos de meninos raivosos e misóginos, que passaram a praticar atos violentos contra as mulheres. No segundo episódio o filho do detetive responsável pelo caso, que estuda na mesma escola, explica que seu pai estava entendendo errado os emojis encontrados nas publicações do adolescente acusado de assassinato, e mostrou que se tratava de representações utilizadas pelos incels ou que a eles se fazia referência. No terceiro episódio o menino acaba por falar de sua raiva das mulheres pela sua incapacidade de conseguir que a menina assassinada lhe dedicasse atenção e satisfizesse seus desejos sexuais. Na última temporada um atendente de uma grande loja reconhece o pai do menino e fala para ele que o menino estava certo e que se o pai quisesse contratar um advogado melhor, a “comunidade” o ajudaria. Enfim, ao longo da série vai ficando claro a real motivação do crime e a dimensão do problema.
Mas, a questão que fica da série é, a meu ver, a seguinte: os pais podem afirmar que realmente conhecem seus filhos nos dias de hoje? Os pais na série jamais imaginaram que o filho, de apenas 13 anos, pudesse cometer tal atrocidade e, é claro, passam a se culpar por isso. Tempos atrás, antes da popularização dos computadores e internet, os pais também não conheciam muito bem seus filhos adolescentes, mas o problema para os pais era o que filhos faziam fora de casa, pois, por mais tímido que se fosse, ele só tinha uma alternativa de sociabilidade que era fora de casa, e a casa era uma espécie de porto seguro onde era possível se proteger dos perigos de fora; o problema para os pais era procurar saber as companhias com as quais seu filho estava saindo. O problema hoje é muito diferente e, em certos aspectos, bem pior, pois não se trata apenas de o filho não sair mais de casa, mas do que ele faz em casa na internet. O fato de ficar em casa pode ser aparentemente tranquilizador para os pais, pois não tem que se preocupar onde e com quem o filho está; mas, de fato, mesmo em casa ele está em algum lugar e está com alguém. É nesse ambiente da internet que se formam as comunidades, ou grupos, que agregam um sem número de pessoas, especialmente, do sexo masculino. O tipo de comunidade como os Incels, não se forma à toa; são várias as comunidades ou grupos que existem e se formaram com uma base de radicalismo e de ódio, seja contra as mulheres, seja contra imigrantes, ou contra negros, ou contra homossexuais, travestis e transsexuais. Tais grupos canalizam as frustrações, os medos, as inibições, a timidez, para um sentimento de ódio, para a construção de um inimigo que é tido como o responsável e que, portanto, deve ser achincalhado, violentado, destruído; configurado e odiado o inimigo, há a sensação de justificativa de que os problemas não são seus e, sim, dos outros.
Assim como escrevi à época, em outro meio de comunicação, a série 13 Razões, também veiculada pela Netflix, de 2017 a 2020, que se baseia em um diário de um suicídio de uma adolescente americana, deveria ser assistida por todos os pais, como uma espécie de guia de como compreender seus filhos, a série Adolescência também deveria ser assistida por todos os pais, especialmente por aqueles que tomam como algo tranquilizador os filhos ficarem horas a fio trancados em seus quartos sem saírem de casa. A tranquilidade pode esconder um criadouro de verdadeiros monstros!!!
A série possibilita inúmeras outras discussões, como a forma como os filhos são educados, a forma como os pais se relacionam, a escola que não cumpre seu papel de um meio civilizador para as crianças e adolescentes, a forma como os adolescentes e os jovens se comunicam, a cultura machista que teima em permanecer em nossa sociedade, enfim, são vários temas muito ricos e urgentes, mas que, aqui neste texto, extrapolaria o que, a meu ver, é o mais inquietante na série.
Quem ainda não assistiu, recomento muito, como também recomendo uma rápida pesquisa sobre o que muitas pessoas, com mais competência que eu, escreveram ou falaram sobre a série.
Meu Instagram: @costajuvenalcelio

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