Seríamos nós os últimos homens de Nietzsche?
Crônica de Bruno Oliveira
Toda manhã eu divido o elevador com um senhor muito educado. Ele diz bom-dia, comenta o calor e desce no térreo antes de eu terminar de responder. Nunca soube o nome dele. Semana passada, lendo Nietzsche antes de dormir, descobri que talvez conheça o sobrenome: último homem. E fiquei com a desconfortável impressão de que ele diria o mesmo de mim.

Nietzsche apresentou o sujeito em 1883, em Assim falou Zaratustra. O último homem não tem nada de vilão, e é justamente por isso que passa despercebido. Ele quer conforto e organizou a vida inteira em torno disso. Na passagem mais famosa, os últimos homens anunciam que inventaram a felicidade e piscam, satisfeitos, como quem encerra a conversa. A felicidade deles consiste em não sentir dor. Uma vida sem susto na terça-feira.
Reconheci o tipo na hora, porque ele mora em mim também. Tem semanas em que trabalho o suficiente para a planilha fechar e leio o suficiente para comentar no almoço. Vou dosando tudo com cuidado de farmacêutico, para não correr o risco de um entusiasmo que me tire da cadeira. A psiquiatria tem um nome para quem perde a capacidade de sentir, embotamento emocional, e é coisa séria, que se trata em consultório. O que Nietzsche descreve é outra coisa, talvez mais grave por ser escolhida. É um embotamento voluntário. A gente sente, mas aprende a sentir pouco, porque sentir muito obriga a fazer alguma coisa depois.
O curioso é que o Brasil conheceu esse homem antes da Alemanha. Em 1881, dois anos antes do Zaratustra, Machado de Assis publicou a “Teoria do Medalhão”. No conto, um pai espera o filho completar vinte e um anos para lhe dar o conselho da vida: seja medalhão. Evite ideias próprias, que elas atrapalham a carreira. Decore frases feitas e fuja da ironia, que é coisa de gente desconfiada. Seguindo o método com paciência, o rapaz chegaria à maturidade respeitado por todos sem nunca ter pensado nada. Machado tratou aquilo como um ofício, com plano de carreira. Passados mais de cento e quarenta anos, o conselho continua em vigor, e há carreiras inteiras construídas exatamente assim.
O último homem também tem um jeito próprio de olhar para quem destoa. Acha exagerado quem se apaixona pelo próprio trabalho e chama de amargo quem aponta o problema. Conheço muita gente que ele chamaria de ingênua, a começar por um amigo que largou o emprego seguro para abrir uma confecção na garagem, com duas máquinas usadas e uma dívida no banco. O último homem teria desaconselhado, e o medalhão teria sorrido com educação. Ainda bem que ninguém perguntou a opinião de nenhum dos dois.
Por isso ele não tem inimigos. Não é que todo mundo goste dele. Ele simplesmente não defende nada com força suficiente para irritar alguém. Nietzsche via nisso uma tragédia sem barulho, dessas que não saem no jornal. A pessoa não sofre, se distrai. E vai se apagando aos poucos, convencida de que está em paz.
Esse é o detalhe que mais me pega. O último homem se acha saudável. Acredita que amadureceu e que finalmente entendeu como a vida funciona. Eu já disse essas mesmas palavras sobre mim em mais de um aniversário. O que eu chamava de maturidade, Nietzsche talvez chamasse de cansaço bem vestido.
Se eu tivesse que dar um diagnóstico, diria que falta elã ao último homem. A palavra vem do francês e quer dizer impulso, aquele arranque que faz a gente levantar da cadeira antes de pensar se vale a pena. Os gregos tinham um nome mais antigo para isso: thymós. Em Homero, é o ardor que ferve no peito do guerreiro antes da batalha. Platão o colocou entre a razão e os desejos, como a parte da alma onde moram a coragem e a indignação diante do injusto. No Fedro, comparou a alma a uma biga puxada por dois cavalos, e o cavalo nobre, aquele que obedece ao cocheiro e avança, é o thymós. O último homem tem boa cabeça e bom apetite, mas deixou o cavalo nobre morrer no pasto. Talvez por isso ande sempre tão calmo.
O contrário dele não precisa ser um herói de filme. Pode ser o mecânico que perde a hora do almoço porque um motor teimoso virou questão de honra, ou a costureira que aos quarenta e tantos resolveu desenhar a própria coleção. Gente que ainda quer alguma coisa de verdade e aceita pagar o preço. Zaratustra deixou a frase que resume o assunto: é preciso ter ainda caos dentro de si para dar à luz uma estrela dançante.
Hoje de manhã o senhor do elevador estava lá, com o bom-dia de sempre. Não sei nada da vida dele, e talvez ele tenha atravessado desertos que eu nem imagino antes de merecer essa calma. Não me cabe julgar. Eu é que ensaiei uma pergunta de verdade entre o quinto andar e o térreo e, na hora, comentei o calor. A porta abriu, ele desceu, eu desci atrás.
Pisquei.
Amanhã tem elevador de novo.
Bruno Oliveira

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