Sandro Alex, o candidato dos comissionados do Paraná
Com apoio de aproximadamente 300 prefeitos, candidatura governista levanta debate sobre a força política exercida sobre administrações municipais e o risco de transformar servidores comissionados em cabos eleitorais
Por Marcio Nolasco - Analista de Políticas Públicas - ENAP

A candidatura de Sandro Alex ao Governo do Paraná chega às eleições de 2026 com uma demonstração de força política que chama a atenção: aproximadamente 300 dos 399 municípios paranaenses estão representados na ampla aliança que sustenta sua candidatura.
Em agosto, a coligação governista anunciava apoio de 299 prefeitos, o equivalente a cerca de 75% dos municípios do Estado. Já em 9 de setembro, o próprio site da campanha divulgou um encontro que reuniu 300 prefeitos em apoio ao projeto político de Sandro Alex e Ratinho Junior.
O número impressiona. Mas, mais do que uma demonstração de força eleitoral, ele abre uma discussão que precisa ser feita: até onde vai o apoio político de um prefeito e onde começa a pressão sobre a estrutura administrativa de um município?
É justamente nesse ponto que surge a expressão que começa a ganhar força no debate político: “Sandro Alex, o candidato dos comissionados do Paraná”.
Quando o apoio político pode virar pressão?
Prefeitos possuem liberdade política para apoiar candidatos. Isso faz parte do processo democrático.
O problema aparece quando a estrutura política construída entre Estado, prefeitura e grupos partidários cria um ambiente no qual servidores ocupantes de cargos comissionados passam a sentir que precisam demonstrar apoio eleitoral para preservar seus cargos.
Um comissionado, diferentemente de um servidor efetivo, normalmente ocupa uma função de livre nomeação e exoneração. Essa característica pode criar uma relação de dependência política particularmente sensível durante uma eleição.
Por isso, uma pergunta precisa ser feita:
Um funcionário público está participando voluntariamente de uma campanha ou está participando porque teme perder o emprego?
São situações completamente diferentes.
Participar de uma campanha eleitoral como cidadão é legítimo. Pedir votos, fazer campanha e declarar preferência política também são direitos individuais.
O que não pode existir é coação, ameaça, perseguição ou utilização da estrutura pública para obrigar alguém a trabalhar eleitoralmente para determinado candidato.
Até o momento, não há comprovação pública de que os cerca de 300 prefeitos que apoiam Sandro Alex estejam obrigando seus comissionados a fazer campanha. Mesmo porque não houve denúncia...
Essa distinção é fundamental.
Mas a concentração de poder político é suficientemente grande para justificar o debate.
300 prefeitos: uma máquina política de proporções estaduais
O Paraná possui 399 municípios.
Se aproximadamente 300 prefeitos estão alinhados com o candidato governista, estamos falando de uma rede política que alcança cerca de três em cada quatro cidades do Estado.
Na prática eleitoral, isso representa uma enorme capilaridade.
São prefeitos, vice-prefeitos, vereadores, secretários, lideranças locais, dirigentes partidários e grupos políticos espalhados por praticamente todas as regiões.
E existe ainda uma camada abaixo dessa estrutura: os milhares de servidores ocupantes de cargos comissionados.
É justamente aí que está o ponto mais delicado.
O medo de perder o cargo
Imagine um funcionário comissionado que trabalha em uma prefeitura cujo prefeito declarou apoio a Sandro Alex.
Esse funcionário pode querer votar em outro candidato.
Pode ser eleitor de Sergio Moro, Requião Filho ou de qualquer outro nome.
Pode simplesmente não querer participar de campanha alguma.
A pergunta é: ele se sentirá verdadeiramente livre para dizer não se receber um convite para participar de uma carreata, uma reunião política, uma caminhada ou para pedir votos?
Se a resposta for sim, a democracia está funcionando.
Se a resposta for não, existe um problema.
Porque o cargo público não pode ser transformado em instrumento de pressão eleitoral.
O “chicote” político
É nesse sentido que a metáfora do “chicote” aparece no debate.
Não necessariamente um chicote literal, mas uma estrutura de dependência política na qual alguém pode pensar:
“Se eu não participar, será que continuarei no meu cargo?”
Essa é uma das formas mais perigosas de pressão política porque nem sempre precisa existir uma ordem expressa.
Às vezes, basta o funcionário acreditar que sua permanência depende de sua demonstração de lealdade política.
E uma democracia saudável não pode funcionar baseada no medo.
O candidato dos prefeitos ou dos comissionados?
Sandro Alex tem o direito de apresentar o apoio dos prefeitos como demonstração de confiança em seu projeto.
Sua própria campanha destaca a dimensão dessa aliança e afirma que ela representa um projeto construído com os municípios.
Mas a sociedade também tem o direito de fazer outra pergunta:
Esse apoio representa exclusivamente a vontade dos prefeitos ou também representa a vontade dos milhares de trabalhadores que ocupam cargos de confiança nas prefeituras?
São coisas diferentes.
Um prefeito pode declarar apoio.
Um servidor deve decidir livremente seu voto.
Essa diferença precisa ser preservada.
A eleição precisa ser livre também dentro das prefeituras.
O verdadeiro teste da democracia não acontece apenas nas urnas.
Acontece também dentro das repartições públicas.
Um prefeito que apoia determinado candidato deve poder fazer campanha.
Um secretário municipal deve poder escolher seu candidato.
Um servidor comissionado deve poder votar em quem quiser.
E ninguém deveria precisar provar sua fidelidade política para manter seu trabalho.
Por isso, a discussão sobre os cerca de 300 prefeitos alinhados à candidatura de Sandro Alex não deve ser apenas sobre números.
Deve ser sobre liberdade política.
A força de uma candidatura não deveria ser medida pela quantidade de pessoas que tem medo de contrariá-la, mas pela quantidade de pessoas que a apoiam espontaneamente.
A pergunta que fica:
Sandro Alex chega à eleição respaldado por uma das maiores alianças municipais já apresentadas em uma disputa pelo Governo do Paraná.
São cerca de 300 prefeitos, aproximadamente 75% dos municípios paranaenses, dentro da base política que sustenta sua candidatura.
Isso é força política!
Mas força política também exige responsabilidade.
E a pergunta que precisa ser feita aos prefeitos, secretários e servidores comissionados de todo o Paraná é simples:
O apoio é espontâneo ou existe medo de contrariar quem controla o cargo?
Se for espontâneo, que cada cidadão faça sua escolha livremente.
Se houver pressão, é preciso denunciar.
Porque prefeitura não é comitê eleitoral.
Cargo público não é moeda de troca.
E servidor público não pode ser tratado como cabo eleitoral de ninguém.
Sandro Alex pode ter o apoio de centenas de prefeitos. Mas nenhum candidato deve ser dono do voto ou da consciência de nenhum servidor.




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