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SANDRO ALEX E O RISCO DE UMA CAMPANHA QUE AINDA NÃO ENCONTROU SUA PRÓPRIA VOZ

Opinião Política | Marcio Nolasco - Analista de Políticas Públicas - ENAP - Portal Bisbilhoteiro


Há momentos em uma campanha eleitoral em que o problema não está apenas nos números das pesquisas, mas na capacidade de o candidato transformar sua presença política em uma mensagem própria. E é justamente aí que, na minha leitura, Sandro Alex enfrenta seu maior desafio na disputa pelo Governo do Paraná.


Não se trata de decretar antecipadamente quem chegará ao segundo turno — eleição não é matemática e pesquisa não é resultado eleitoral. Mas os números mais recentes mostram um cenário que deveria acender o sinal amarelo dentro da campanha do candidato do PSD.


Levantamento RealTime Big Data divulgado em 18 de agosto coloca Sergio Moro com 37%, Sandro Alex com 22% e Requião Filho com 20% no primeiro turno. A diferença entre Sandro e Requião está dentro da margem de erro, enquanto Moro aparece à frente.


Ou seja: Sandro está vivo na disputa, mas ainda não consolidou uma posição confortável.


E é justamente por isso que considero preocupante a estratégia que vem sendo apresentada.



O candidato ou o sucessor?


Sandro Alex parece estar tentando vender duas coisas ao eleitor ao mesmo tempo: sua própria candidatura e a continuidade do governo Ratinho Junior.


O problema é que uma campanha de sucessão não pode viver eternamente da imagem do sucessor.


Ratinho Junior pode ser um importante cabo eleitoral, uma liderança política relevante e um ativo eleitoral. Mas Sandro Alex precisa deixar de ser apresentado apenas como “o candidato de Ratinho” e passar a ser reconhecido como Sandro Alex, candidato a governador.


A imprensa já registrou que sua candidatura nasceu diretamente da escolha de Ratinho Junior e que sua trajetória recente esteve fortemente vinculada à Secretaria de Infraestrutura e Logística.


Isso pode ser uma força — mas também pode se transformar em uma armadilha.


Se a pergunta do eleitor for simplesmente “você aprova Ratinho Junior?”, a campanha está falando sobre o governador.


Mas a pergunta decisiva será outra:


“O que Sandro Alex fará quando for governador?”


E essa resposta precisa estar muito mais clara.


Obras de Ratinho não podem substituir o programa de Sandro


Um dos erros estratégicos que vejo na campanha é insistir demasiadamente na propaganda das realizações do atual governo sem transformar essas realizações em uma plataforma de futuro.


Mostrar obras é importante.


Mostrar resultados também.


Reconhecer aquilo que funcionou faz parte de qualquer campanha responsável.


Mas uma eleição para governador não deveria ser apenas um plebiscito sobre o governo que termina.


O eleitor precisa saber o que Sandro Alex pretende fazer nos próximos quatro anos.


Qual será sua política para saúde?


Como pretende enfrentar os problemas da segurança?


Que modelo deseja para educação?


Qual será sua política de infraestrutura?


Como tratará os municípios?


Qual será sua estratégia para desenvolvimento econômico, geração de empregos, agricultura, tecnologia e inovação?


O que pretende fazer com as empresas públicas?


Que Estado pretende entregar ao cidadão?


Na sabatina Folha/UOL, Sandro apresentou algumas posições próprias, incluindo defesa da privatização da Copel e da Celepar, além de propostas e posicionamentos sobre segurança e outros temas.


Portanto, existe conteúdo.


O problema é transformar esse conteúdo em identidade eleitoral.


A campanha precisa fazer o eleitor enxergar Sandro Alex antes de enxergar Ratinho Junior.


E existe outro problema: Moro


Aqui está, talvez, o ponto mais delicado.


Sandro Alex não pode terceirizar para Ratinho Junior o enfrentamento político com Sergio Moro.


O governador pode participar da disputa política, defender seu legado e responder aos ataques.


Mas quem pretende ocupar o Palácio Iguaçu precisa assumir pessoalmente o protagonismo da própria campanha.


Moro já ocupa o espaço de principal adversário.


E uma campanha que pretende chegar ao segundo turno precisa disputar esse espaço.


Não significa transformar a eleição em uma guerra permanente de ataques.


Significa mostrar ao eleitor por que Sandro Alex é a alternativa que deve enfrentar Moro no segundo turno.


Até porque o próprio Sandro já começou a fazer críticas diretas ao senador. Em sabatina recente, classificou Moro como um “político ruim”, embora tenha reconhecido sua atuação anterior como juiz.


Então por que não transformar esse confronto em uma discussão programática?


Moro apresenta uma proposta.


Sandro responde.


Moro critica o governo.


Sandro defende o legado quando entender que deve fazê-lo — e apresenta o que pretende mudar.


Moro fala de segurança.


Sandro apresenta sua política de segurança.


Moro fala de economia.


Sandro apresenta sua política econômica.


É assim que se constrói uma candidatura própria.


O perigo da “eleição do segundo turno”


Existe outro aspecto que merece atenção.


Uma campanha não pode começar a viver emocionalmente de um segundo turno que ainda não existe.


É compreensível que aliados trabalhem com cenários de segundo turno. Faz parte da estratégia eleitoral.


Mas existe uma diferença entre planejar o segundo turno e fazer campanha como se o segundo turno estivesse garantido.


Hoje, os dados disponíveis não autorizam essa tranquilidade.


O levantamento mais recente coloca Sandro numericamente à frente de Requião Filho, mas em situação de empate técnico, enquanto Moro lidera com 37%. No cenário de segundo turno entre Moro e Sandro, a pesquisa aponta 45% para Moro e 30% para Sandro.


Isso não significa que Sandro esteja fora da disputa.


Muito pelo contrário.


Significa que a disputa pelo segundo lugar está aberta.


E é justamente por estar aberta que a campanha precisa acelerar.


Sandro precisa deixar de ser coadjuvante


Na minha leitura, Sandro Alex precisa tomar uma decisão política clara:


quer ser o candidato de Ratinho Junior ou quer ser o próximo governador do Paraná?


As duas coisas podem coexistir.


Mas, eleitoralmente, uma não pode apagar a outra.


O eleitor precisa enxergar personalidade, projeto e capacidade de liderança.


Sandro tem uma trajetória política consolidada, quatro mandatos como deputado federal e experiência como secretário estadual de Infraestrutura e Logística.


Isso lhe dá elementos para construir uma candidatura própria.


Mas experiência administrativa não se transforma automaticamente em liderança eleitoral.


É preciso comunicação.


É preciso narrativa.


É preciso confronto.


É preciso programa.


E, principalmente, é preciso ocupar o centro da própria campanha.


A eleição ainda está longe de estar decidida


Também seria um erro transformar uma pesquisa em sentença definitiva.


A campanha começou oficialmente em 16 de agosto e o eleitor ainda terá semanas para mudar de opinião, conhecer propostas e avaliar candidatos. A própria pesquisa RealTime mostra que 53% dos entrevistados não citaram espontaneamente nenhum nome, indicador de que existe espaço relevante para movimentação eleitoral.


Portanto, dizer que Sandro está condenado a ficar fora do segundo turno seria tão precipitado quanto afirmar que sua presença no segundo turno está garantida.


Nenhuma das duas coisas está decidida.


Mas existe uma questão política que não pode ser ignorada:


Sandro precisa começar a disputar a eleição de Sandro Alex.


Não apenas a eleição de Ratinho Junior.


Não apenas a sucessão do governo atual.


E muito menos uma hipotética eleição de segundo turno.


Ele precisa disputar o eleitor agora.


Com seu nome.


Com suas ideias.


Com seu programa.


Com seus erros e acertos.


Com sua capacidade de enfrentar adversários.


Porque governador não é simplesmente aquele que continua uma obra.


Governador é aquele que apresenta um projeto de Estado e convence o eleitor de que é capaz de executá-lo.


E talvez esse seja o maior desafio de Sandro Alex neste momento: deixar de ser apresentado como o sucessor de Ratinho Junior e começar a se apresentar como o candidato que pretende escrever o próximo capítulo da história política do Paraná.


Essa é uma opinião editorial. As referências eleitorais citadas acima são informações opinativas e não representam uma avaliação, ranking ou recomendação desta publicação sobre candidatos.

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