top of page
572954291_18300745243267772_2025636869234957554_n.jpg

REPORTAGEM ESPECIAL: Racismo no futebol brasileiro: números recentes, avanços legais e uma ferida que ainda não fechou

Atualizado: há 22 horas

Por Marcio Nolasco


Um torcedor detido em pleno Campeonato Gaúcho. Um árbitro que abandona o campo após ser chamado de “macaco” em um jogo sub-15 no interior de São Paulo. Um atacante que aponta, ao vivo, para quem o ofende nas arquibancadas de um estádio europeu. As cenas mudam de lugar, de categoria e de protagonista, mas o enredo se repete com uma frequência que expõe uma das contradições mais duras do futebol brasileiro: o esporte que se orgulha de ter sido erguido por craques negros continua sendo, também, palco recorrente de racismo.


Em 2026, mais de um século depois de o Vasco da Gama enfrentar a recusa de sua filiação a uma liga paulista-carioca por incluir jogadores negros e operários em seu time campeão — episódio de 1924 considerado um marco fundador da resistência antirracista no esporte nacional —, o debate segue tão atual quanto histórico.


O que dizem os números


O principal termômetro do problema é o Observatório da Discriminação Racial no Futebol, parceiro da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) desde 2014. Os relatórios anuais da entidade mostram uma trajetória de dentes de serra nos últimos anos: em 2023, os casos de racismo saltaram quase 40% em relação a 2022, passando de 98 para 136 episódios, o maior número desde o início da série histórica. Já em 2024 houve recuo de quase 20%, com 109 casos monitorados. Dados preliminares de 2025, no entanto, indicam nova alta, com cerca de 120 ocorrências.


A maior parte dos episódios acontece dentro dos próprios estádios, seguida de perto pelos ataques nas redes sociais — um ambiente que, segundo especialistas ouvidos pela imprensa, tem crescido como palco de ofensas raciais justamente pela sensação de anonimato que oferece aos autores. Jogadores costumam ser o principal alvo, mas torcedores, árbitros e até dirigentes também aparecem entre as vítimas.


Vinicius Júnior, o símbolo involuntário


Nenhum nome resume tão bem o problema — e a resposta a ele — quanto o de Vinicius Júnior. O atacante do Real Madrid e da seleção brasileira se tornou o jogador brasileiro com mais registros de ataques raciais no exterior, alvo de episódios recorrentes em estádios espanhóis nos últimos anos. Ao invés de silenciar diante das ofensas, Vini Jr. passou a denunciar publicamente cada caso, apontando agressores para árbitros e câmeras, o que transformou sua trajetória pessoal em estopim de mudanças institucionais.


O caso mais recente ocorreu em fevereiro de 2026, em partida do Real Madrid contra o Benfica, quando o jogador afirmou ter sido ofendido racialmente por um adversário que cobriu o rosto com a própria camisa para dificultar sua identificação. O episódio parou o jogo e reacendeu uma discussão que já vinha ganhando corpo: como punir quem esconde o próprio comportamento discriminatório em campo?

]


A “Lei Vini Jr.” e o novo protocolo mundial


A resposta a essa pergunta ganhou nome próprio. Em homenagem ao atacante, o Rio de Janeiro se tornou, em 2023, o primeiro estado brasileiro a aprovar uma legislação específica de combate ao racismo em estádios e arenas esportivas, a chamada Política Estadual Vini Jr. A iniciativa da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) inspirou leis semelhantes em outros estados e instituiu o dia 7 de abril — data da recusa histórica sofrida pelo Vasco em 1924 — como o Dia da Resposta Histórica Contra o Racismo no Futebol.


O nome também passou a identificar uma mudança nas regras internacionais do jogo. Depois da repercussão dos ataques sofridos por Vinícius Júnior — incluindo um episódio envolvendo o jogador argentino Gianluca Prestianni —, a International Football Association Board (Ifab) aprovou uma alteração que pune atletas flagrados cobrindo a boca durante discussões em campo, gesto historicamente usado para dificultar a identificação de ofensas discriminatórias. A regra estreou de forma prática na Copa do Mundo de 2026 e já gerou duas expulsões no torneio: a do paraguaio Miguel Almirón, contra a Turquia, e a do equatoriano Piero Hincapié, na derrota para o México.


Mesmo com o protocolo em vigor, o Mundial não ficou livre de casos. Segundo a Fifa, cerca de 11% das mensagens ofensivas monitoradas nas redes sociais durante a competição tinham conteúdo racista — jogadores da seleção holandesa, por exemplo, foram atacados após desperdiçarem pênaltis diante do Marrocos.


O que diz a legislação brasileira


No Brasil, o racismo no esporte é enquadrado pela Lei nº 7.716/1989, conhecida como Lei Caó, atualizada pela Lei nº 14.532/2023, que equiparou a injúria racial ao crime de racismo. Quando o ato ocorre em atividades esportivas abertas ao público, a pena prevista é de reclusão de dois a cinco anos, além da proibição de frequentar estádios e locais de prática esportiva por três anos. Paralelamente às sanções penais, a Justiça Desportiva e a CBF podem aplicar multas de até R$ 500 mil aos clubes, além de perda de mando de campo, jogos com portões fechados e até perda de pontos.


Casos recentes mostram que o problema segue no dia a dia


Longe das câmeras da Europa, o racismo também aparece com frequência nas categorias de base e nas divisões inferiores do futebol brasileiro. Em agosto de 2026, um árbitro precisou interromper uma partida sub-15 do Campeonato Paulista, em Votorantim (SP), após denunciar que o pai de um jogador o chamou de “macaco” durante o jogo — o protocolo antirracista da Fifa foi acionado e o caso foi parar na Justiça. Em maio, um atacante do Juventude relatou ter sido alvo de ofensas raciais vindas da arquibancada durante um jogo da Série B contra o Sport, episódio que levou à interrupção momentânea da partida e ao registro de ocorrência policial contra o torcedor identificado. Casos semelhantes já pararam disputas do Campeonato Gaúcho, como o jogo entre Caxias e São José, interrompido por 13 minutos após gestos racistas dirigidos a um jogador reserva.


Avanço ou maior atenção?


Um ponto observado por dirigentes e pesquisadores é que o aumento no número de casos registrados não significa, necessariamente, mais racismo — pode refletir também uma sociedade mais atenta e disposta a denunciar. Ednaldo Rodrigues, primeiro presidente negro da CBF, já defendeu publicamente essa leitura, afirmando que o crescimento das denúncias é sinal de que o país está mais aberto para reconhecer e nomear o problema.


Ainda assim, especialistas em direito desportivo cobram mais rigor na aplicação das penas e maior celeridade dos processos, tanto na esfera criminal quanto na disciplinar. A distância entre a gravidade das leis no papel e a efetividade das punições na prática segue sendo o principal ponto de tensão do debate.


Um problema que atravessa gerações


Do impedimento imposto ao Vasco da Gama em 1924 aos protocolos digitais de monitoramento usados na Copa do Mundo de 2026, a linha do tempo do racismo no futebol brasileiro é também a linha do tempo da resistência a ele. Jogadores que hoje decidem apontar, filmar e denunciar em tempo real seguem um caminho aberto por gerações anteriores — mas o fato de a discussão permanecer tão urgente um século depois é, em si, a prova mais contundente de que a luta está longe de terminar.


Se você presenciar ou for vítima de um caso de racismo em evento esportivo, é possível denunciar pelo 190, pelo 181 (Disque Denúncia) ou pelo canal 100, da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos.

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação

Acompanhe nossas notícias no Google News

images (3).png
Canal 2.png

Nota do editor: os textos, fotos, vídeos, tabelas e outros materiais iconográficos publicados nos espaços “colunas” não refletem necessariamente o pensamento do bisbilhoteiro.com.br, sendo de total responsabilidade do(s) autor(es) as informações, juízos de valor e conceitos divulgados.

* As matérias e artigos aqui postados não refletem necessariamente a opinião deste veículo de notícias. Sendo de responsabilidade exclusiva de seus autores. 

Portal Bisbilhoteiro Cianorte
Selo qualidade portal bisbilhoteiro

Receba nossas atualizações

Obrigado pelo envio!

Bisbi Notícias: Rua Constituição 318, Zona 1 - Cianorte PR - (44) 99721 1092

© 2020 - 2026 por bisbinoticias.com.br - Todos os direitos reservados. Site afiliado do Portal Universo Online UOL

 Este Site de é protegido por Direitos Autorais, sendo vedada a reprodução, distribuição ou comercialização de qualquer material ou conteúdo dele obtido, sem a prévia e expressa autorização de seus  criadores e ou colunistas.

bottom of page