REPORTAGEM ESPECIAL | CIANORTE A CIDADE DOS BURACOS
- Marcio Nolasco

- há 1 dia
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Os documentos oficiais revelam que Cianorte recapou apenas 2,7 quilômetros de vias em um ano enquanto promete recuperar mais de 85 trechos que ainda aguardam sair do papel
Por Marcio Nolasco - Analista de Politicas Públicas - ENAP

Enquanto motoristas desviam diariamente de buracos, motociclistas enfrentam riscos constantes de acidentes e moradores convivem com remendos que se desfazem após poucas semanas, documentos oficiais obtidos pelo Portal Bisbilhoteiro revelam um cenário que ajuda a explicar por que a malha viária de Cianorte chegou ao atual estágio de deterioração.
A investigação cruzou requerimentos apresentados na Câmara Municipal, respostas oficiais da Prefeitura e o cronograma de obras prometido pelo Executivo.
O resultado revela uma diferença significativa entre aquilo que foi executado e aquilo que foi anunciado.
Mais do que uma reclamação popular, o estado do asfalto tornou-se um problema documentado pelo próprio Poder Público.
A pergunta que revelou o tamanho do problema
Em janeiro de 2026, o vereador Beto Nabhan protocolou o Requerimento nº 012/2026 perguntando algo simples:
Quanto de recapeamento asfáltico foi realizado em Cianorte durante o ano de 2025?
A resposta da Secretaria Municipal de Obras chegou em março.
Segundo o documento oficial, foram executados 17.557,38 metros quadrados de recapeamento durante todo o ano de 2025, contemplando apenas:
Rua XV de Novembro;
Rua José Bonifácio;
Rua Marechal Deodoro;
Avenida Paraíba (trecho entre as avenidas Amazonas e Mato Grosso).
Convertendo essa área em extensão linear — considerando uma largura média de aproximadamente 6,5 metros para uma pista urbana — o resultado corresponde a cerca de 2,7 quilômetros de recapeamento.
Para uma cidade do porte de Cianorte, esse número representa uma intervenção extremamente reduzida diante da quantidade de ruas que apresentam desgaste avançado.
A cidade inteira reclama. Os documentos confirmam.
Quem percorre bairros antigos, regiões centrais e diversos loteamentos percebe rapidamente um padrão repetitivo:
pavimento desgastado;
sucessivos tapa-buracos;
pedras soltas;
remendos desnivelados;
afundamentos do asfalto.
Não se trata apenas de desconforto.
É um problema que aumenta:
acidentes com motociclistas;
danos em suspensão, pneus e rodas;
custos de manutenção dos veículos;
dificuldade para ambulâncias;
prejuízo ao transporte coletivo;
redução da segurança viária.
O curioso é que essa realidade também aparece nas justificativas apresentadas pelos próprios vereadores nos requerimentos enviados ao Executivo.
No Requerimento nº 008/2026, por exemplo, o parlamentar destaca que as chuvas deterioram rapidamente o pavimento e afirma que o recape é essencial para evitar acidentes e problemas maiores.
Ou seja:
A necessidade das obras nunca foi desconhecida pela administração municipal.

A promessa de recuperar mais de 85 trechos
No mesmo mês de março, outro documento ampliou a expectativa da população.
Respondendo ao Requerimento nº 008/2026, a Prefeitura informou oficialmente que havia previsão de recapeamento para 2026 através de parceria com o Governo do Estado.
Mais do que isso.
Encaminhou uma extensa relação das vias que seriam contempladas.
O documento lista mais de 85 trechos, distribuídos entre:
bairros centrais;
Zona 2;
Zona 3;
Jardim Atlântico;
Conjunto Marselha;
áreas próximas ao Centro;
São Lourenço;
Distrito de Vidigal.
Entre as vias aparecem, por exemplo:
Avenida Brasília;
Avenida Mato Grosso;
Avenida Ceará;
Avenida Maranhão;
Avenida Industrial;
Rua Curitiba;
Rua Florianópolis;
Rua Guararapes;
Rua Uberaba;
Rua Pernambuco;
diversas vias do Jardim Atlântico;
ruas dos distritos.
A lista ocupa cinco páginas do documento oficial enviado à Câmara.

Veja documentos oficiais:
Julho chegou. Onde estão as máquinas? Ou agora é só tempo de festa, pão e circo?
O problema é que o calendário avança.
Março passou.
Abril passou.
Maio passou.
Junho passou.
Julho chegou.
E a população continua perguntando:
Onde está o cronograma anunciado?
A reportagem percorreu diversos bairros citados na relação encaminhada oficialmente pelo Executivo.
Moradores continuam relatando buracos antigos, remendos sucessivos e ausência de um programa amplo de recuperação da pavimentação.
Naturalmente, intervenções pontuais podem ocorrer ao longo do ano. No entanto, até o momento, não se observa um programa de recape em escala compatível com a dimensão da lista apresentada pela própria Prefeitura nos documentos enviados ao Legislativo.
A expectativa aumenta porque restam apenas seis meses para o encerramento de 2026.
Um número que ajuda a entender o caos
Os documentos revelam uma contradição difícil de ignorar.
Em 2025:
aproximadamente 2,7 quilômetros de recape executados.
Para 2026:
promessa de recuperação de mais de 85 trechos espalhados pela cidade e distritos.
A distância entre esses dois números explica parte da desconfiança dos moradores.
Se um ano inteiro resultou em apenas quatro vias contempladas, será possível executar dezenas de trechos restantes até dezembro?
Essa é uma pergunta que, até agora, permanece sem resposta prática nas ruas.

O custo invisível da deterioração
Quando uma cidade deixa de realizar recape preventivo, o prejuízo vai muito além da estética urbana.
Especialistas em engenharia viária costumam apontar que a manutenção preventiva possui custo significativamente menor do que a reconstrução completa do pavimento quando a base estrutural já foi comprometida.
Na prática, o atraso nas intervenções pode significar:
aumento do custo futuro para o próprio município;
maior gasto público com reconstruções;
crescimento das despesas dos motoristas;
aumento dos riscos de acidentes.
É um problema que recai sobre toda a população.
A população espera mais do que promessas
Os documentos oficiais analisados pelo Portal Bisbilhoteiro demonstram que a Prefeitura reconhece quais ruas precisam de recape e afirma possuir um levantamento técnico detalhado das vias prioritárias.
O diagnóstico, portanto, parece existir.
O que ainda falta é transformar o planejamento em obras efetivamente executadas.
Enquanto isso, milhares de motoristas continuam enfrentando diariamente buracos, remendos e pavimentos deteriorados, aguardando que as promessas registradas nos documentos oficiais deixem de existir apenas no papel e passem a ser percebidas no asfalto.
A cidade continua esperando não apenas um cronograma, mas máquinas nas ruas, obras concluídas e vias que ofereçam segurança, mobilidade e respeito aos contribuintes que financiam a manutenção da infraestrutura urbana por meio dos impostos que pagam todos os dias.



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