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RATÃO, RATINHO JR. E O BANCO MASTER: QUANDO O PODER E O NEGÓCIO FAMILIAR SE ENCONTRAM

NÃO ESCAPA NINGUÉM! R$ 1,68 milhão, quatro parcelas e uma pergunta incômoda: até onde vai a fronteira entre a vida empresarial de uma família poderosa e a responsabilidade de quem ocupa o Palácio Iguaçu?


Por Marcio Nolasco - Analista de Políticas Públicas - ENAP

Reportagem investigativa - Fonte - Folha de São Paulo / UOL



Há histórias que não precisam de uma acusação formal para merecer explicações.

Basta colocar os personagens lado a lado.


De um lado, Ratinho, um dos mais conhecidos apresentadores de televisão do país e dono de um gigantesco grupo de comunicação.


Do outro, Ratinho Junior, governador do Paraná e filho do apresentador.


No meio da história, aparece o Banco Master, instituição controlada por Daniel Vorcaro e atualmente no centro de uma investigação que vem revelando uma complexa rede de relações financeiras e empresariais.


E então surge um número:


R$ 1,68 milhão.


Foi esse o valor recebido pela Massa & Massa, empresa que tem entre seus sócios Ratinho e o governador Ratinho Junior, além de outros integrantes da família, em pagamentos realizados pelo Banco Master.


Foram quatro parcelas de R$ 420 mil.


A informação foi confirmada pelo próprio Grupo Massa à Folha de S.Paulo.


Não há, até aqui, demonstração de que esses pagamentos sejam ilícitos.


E é justamente por isso que a questão mais importante não é afirmar aquilo que os documentos não afirmam.


A questão é outra:


por que uma empresa da qual o governador do Paraná é sócio recebeu R$ 1,68 milhão de uma instituição financeira que posteriormente se tornaria alvo de uma investigação de enormes proporções?


O detalhe que muda o peso político da história


A Massa & Massa não é simplesmente uma empresa qualquer.


Segundo as informações divulgadas, ela foi constituída para explorar comercialmente a imagem de Ratinho e reúne no quadro societário o apresentador, sua esposa e filhos, entre eles Ratinho Junior.


Isso significa que, pela primeira vez, aparece de maneira direta o nome de Ratinho Junior como sócio de uma empresa da família que manteve negócios com o Banco Master.


E essa é a parte politicamente sensível.


Ratinho Junior não é apenas um empresário.


É governador de um dos estados mais importantes do Brasil.


É uma figura política nacional.


É um dos nomes frequentemente colocados no tabuleiro das eleições presidenciais.


Portanto, qualquer relação empresarial envolvendo uma empresa da qual ele é sócio passa a ter inevitavelmente uma dimensão pública.


Não porque ser empresário seja crime.


Não porque receber por publicidade seja crime.


Mas porque ocupantes de cargos públicos precisam conviver permanentemente com a pergunta sobre conflitos de interesse, transparência e aparência de independência.


E havia uma parcela atrasada


O caso ganha outro elemento quando os documentos da Polícia Federal entram na história.


Uma planilha enviada pela tesouraria do Banco Master a Daniel Vorcaro, em julho de 2025, listava empresas que aguardavam pagamentos.


Entre elas estava a Massa & Massa.


O valor indicado como pendente era de R$ 420 mil.


A planilha fazia parte de documentos analisados pela Polícia Federal e divulgados no contexto da investigação envolvendo o Banco Master.


É importante fazer uma distinção que não pode ser ignorada:


estar em uma lista de pagamentos atrasados não significa, por si só, participar de qualquer irregularidade.


A própria natureza do documento é de contas a pagar.


Mas existe uma pergunta jornalística legítima:


o que exatamente estava sendo contratado, quando foi contratado, quais serviços foram efetivamente prestados e em que condições financeiras?


A explicação do Grupo Massa


O Grupo Massa afirma que a relação era estritamente comercial.


Segundo a empresa, o dinheiro correspondia a um contrato de publicidade para utilização da imagem de Ratinho na promoção do CredCesta, produto de crédito consignado do Banco Master.


A relação teria sido encerrada posteriormente por meio de distrato, motivado por atrasos nos pagamentos e por divergências entre os serviços prestados e os pagamentos realizados.


O grupo também sustenta que, quando o contrato foi celebrado, o Banco Master operava normalmente e não havia questionamentos públicos sobre sua idoneidade que desaconselhassem uma relação comercial daquela natureza.


É uma explicação plausível para uma relação publicitária.


Mas jornalismo não existe para aceitar explicações automaticamente.


Existe para fazer novas perguntas.


O problema não é apenas o dinheiro. É a proximidade.


O Brasil conhece bem a velha promiscuidade entre poder econômico e poder político.


Durante décadas, famílias empresariais, grupos de comunicação, governos, bancos e partidos construíram relações que, muitas vezes, desafiam a compreensão do cidadão comum.


O problema não está necessariamente em um contrato.


Está na concentração de relações.


Quando uma família possui um enorme grupo de comunicação, mantém negócios privados com uma instituição financeira e, simultaneamente, um dos integrantes dessa família ocupa o governo de um estado, a sociedade tem o direito de exigir transparência absoluta.


Não é perseguição.


É democracia.


Não é acusação.


É fiscalização.


O silêncio do governo também comunica


O governo do Paraná informou que não comentaria o caso.


É uma escolha possível.


Mas politicamente é uma escolha ruim.


Porque o governador não está sendo questionado sobre a programação de televisão do pai.


Está sendo questionado porque seu próprio nome aparece no quadro societário de uma empresa que recebeu R$ 1,68 milhão do Banco Master.


A resposta mais adequada não deveria ser simplesmente:


“não vamos comentar”.


Deveria ser apresentar documentos.


Contrato.


Datas.


Notas fiscais.


Serviços realizados.


Valores.


Comprovantes.


Distrato.


Tudo aquilo que permita ao cidadão separar o fato da especulação.


Porque quanto maior o cargo público, menor deveria ser a tolerância com zonas cinzentas.


E há uma pergunta ainda maior


O Banco Master não é mais apenas uma empresa que contratou publicidade.

Hoje, suas relações empresariais estão sendo escrutinadas por órgãos de investigação e aparecem em documentos da Polícia Federal.


Isso transforma contratos antigos em objetos de interesse público.


Não significa que todos os fornecedores do banco tenham cometido irregularidades.


Significa que todos os negócios relevantes da instituição passaram a merecer uma lupa muito maior.


E, quando no meio dessa documentação aparece uma empresa cujo quadro societário inclui o governador de um estado, a lupa naturalmente se aproxima.


O Paraná merece respostas — não versões


Ratinho Junior pode perfeitamente dizer:


“Era um contrato privado. Foi publicidade. O serviço foi prestado. O dinheiro foi pago. Não houve qualquer irregularidade.”


Se é isso, ótimo.


Então que os documentos mostrem isso.


É simples.


A transparência elimina suspeitas muito mais rapidamente do que notas oficiais.


E é exatamente por isso que o caso merece ser tratado com seriedade.


Não se trata de condenar Ratinho.


Não se trata de condenar Ratinho Junior.


Não se trata de transformar um contrato publicitário em prova de crime.


Trata-se de cobrar transparência sobre uma relação financeira que envolve uma empresa da qual o governador é sócio e um banco atualmente submetido a uma investigação de grande repercussão nacional.


Essa diferença é fundamental.


Porque poder exige distância — inclusive distância aparente

O cidadão comum não tem um conglomerado de comunicação.


Não tem milhões em contratos publicitários.


Não tem acesso a banqueiros poderosos.


E, principalmente, não ocupa o Palácio Iguaçu.


Quem ocupa o poder precisa compreender que a régua é outra.


Pode ser legal.


Pode ser privado.


Pode ser um contrato absolutamente normal.


Mas, quando dinheiro, família, mídia, grandes empresas e governo aparecem na mesma fotografia, a transparência deixa de ser uma gentileza e passa a ser uma obrigação política.


A pergunta que fica não é se os R$ 1,68 milhão são, por si só, ilegais.


Os documentos disponíveis não permitem afirmar isso.


A pergunta é muito mais incômoda:


quantas relações entre o poder político e o poder econômico o cidadão ainda precisa descobrir pelos documentos de uma investigação policial para começar a exigir que os governantes expliquem, antes que alguém pergunte?


Porque democracia não deveria funcionar assim.


O eleitor não deveria descobrir as relações do poder pelas planilhas apreendidas pela Polícia Federal.


Deveria descobrir tudo pela transparência de quem governa.


E quando essa transparência não vem espontaneamente, o jornalismo tem uma obrigação:


perguntar.


Perguntar de novo.


E continuar perguntando.


Porque, no fim, não é o contrato que está em julgamento. É a confiança pública.


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