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R$ 1,2 bilhão em shows: o que os dados do TCE-PR realmente escancaram

Nós aqui já falamos sobre prioridades como saúde e educação e por outro lado gastos com show de 840 mil reais por 01:20hr de musica... Agora o TCE-PR escangara a farra das prefeitiras no estado do Paraná!


Por Marcio Nolasco - Analista de Políticas Públicas - ENAP


Nesta semana, o Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TCE-PR) fez algo que deveria se tornar rotina em toda a administração pública brasileira: transformou uma pilha de empenhos contábeis em um painel público, navegável, comparável e de fácil acesso a qualquer cidadão. O resultado é revelador. Entre janeiro de 2021 e o primeiro semestre de 2026, as prefeituras paranaenses gastaram cerca de R$ 1,2 bilhão com shows, festividades e contratações artísticas — R$ 403,5 milhões só em 2025, o pico da série histórica. Praticamente todos os 399 municípios do estado, com exceção de seis, aparecem na lista. São José dos Pinhais lidera o ranking, com aproximadamente R$ 41,7 milhões investidos em atrações musicais no período.


@Prefeitura de Cianorte
@Prefeitura de Cianorte

Antes de qualquer indignação automática, é preciso reconhecer o mérito do próprio Tribunal. Divulgar esse tipo de informação de forma organizada, com filtros por município, ano, artista e fonte de recursos, é controle social na prática — não o controle abstrato que aparece em relatórios técnicos ilegíveis, mas aquele que qualquer morador pode consultar no celular antes de decidir seu voto. Isso importa, e importa mais do que a cifra em si.


Cianorte


Cianorte no noroeste de 2021 até o final do primeiro semestre de 2026 de acortdo ao TCE PR gastou dos cofres públicos a bacatela de R$ 12.794.831,08 milhões. Com excecão do Vereador Cel. Elias (PP) que abriu essa pauta na Casa de Leis e deu alerta, aluns vereadores vão dizer, nossa, tudo isso! E onde ficou a fiscalização?


O problema não é a festa. É de onde saiu o dinheiro


Nenhuma cidade brasileira deveria se envergonhar de promover uma festa junina, um aniversário de emancipação ou um evento cultural de fim de ano. Festividades geram renda para ambulantes, hospedagem, alimentação e prestadores de serviço locais; fortalecem identidade comunitária; e, em muitos municípios do interior, são o único momento do ano em que a cidade "acontece" para além da rotina. Tratar cultura e lazer como desperdício por definição é um erro tão grosseiro quanto ignorar o problema real.


E o problema real, segundo o próprio TCE-PR, não é a existência das festas — é a origem de parte do dinheiro que as financia. O Tribunal identificou indícios de uso irregular de verbas carimbadas para saúde, educação básica, o Fundo do Idoso, o fundo de reequipamento do corpo de bombeiros (Funrebom) e iluminação pública, desviadas para custear shows. Ainda que o volume vindo de emendas parlamentares destinadas a esse fim tenha sido pequeno relativamente ao total (cerca de R$ 4,3 milhões, 0,35% do montante), o fato de recursos com destinação legal específica — para remédios, merenda escolar, atendimento a idosos — aparecerem financiando contratações artísticas é, no mínimo, um sinal de gestão fiscal descuidada, quando não de fraude deliberada.


É aqui que a discussão precisa ser afiada com precisão, e não com indignação genérica contra "gastança". O debate público correto não é "prefeitura gastou com show, que absurdo", mas sim: essa prefeitura, específica, gastou com show usando verba de saúde, num município que talvez tenha filas de espera para consultas ou UPAs sucateadas? Essa é a pergunta que o painel do TCE-PR agora permite que qualquer eleitor faça, com nome, valor e ano.


Transparência é ferramenta, não veredito


Há um risco real de que esse tipo de dado seja usado de forma oportunista — por adversários políticos, por manchetes fáceis — para transformar qualquer prefeito que contratou uma banda regional em vilão do erário, independentemente de como o evento foi financiado. Isso seria um mau uso da informação. O próprio TCE-PR faz questão de frisar que os dados são autodeclarados pelas prefeituras e que a responsabilidade pela exatidão é dos gestores que os enviaram — ou seja, o painel é ponto de partida para investigação, não sentença.


Também vale registrar uma tensão que o levantamento não resolve sozinho: nem toda festa financiada com recursos "livres" do orçamento municipal é irracional. Prefeituras pequenas dependem de eventos para atrair visitantes e movimentar comércio local em períodos de baixa atividade econômica; cortar integralmente essa despesa, em nome de um purismo fiscal abstrato, pode ser tão equivocado quanto o desvio que o Tribunal aponta. A pergunta legítima não é "gastar zero com cultura", mas "gastar dentro da fonte certa, com transparência e proporcionalidade ao porte do município".


Dito isso, os números de maior gasto por prefeitura merecem escrutínio proporcional. Quando um único município ultrapassa R$ 40 milhões em seis anos e meio com contratações artísticas — mais do que muitas cidades pequenas arrecadam de ICMS num ano inteiro — a pergunta sobre prioridades orçamentárias deixa de ser retórica e passa a ser urgente. Comparar esse valor com o que a mesma prefeitura investiu, no mesmo período, em atenção básica de saúde ou em reforma de escolas é exatamente o tipo de cruzamento que o painel do TCE-PR promete permitir, e que a imprensa e os vereadores locais deveriam fazer, cidade por cidade, em vez de tratar o Paraná como bloco único.


O que vem depois da manchete


O anúncio do TCE-PR de que vai instaurar procedimentos de fiscalização nos casos com indícios de irregularidade é o teste real da utilidade desse painel. Um instrumento de transparência que não deságua em responsabilização — devolução de recursos, multas, ou, quando cabível, ações junto ao Ministério Público — vira apenas um exercício de visualização de dados bonito e inconsequente. O valor político do painel não está em constranger prefeitos publicamente por uma semana de noticiário, mas em criar um histórico public, auditável e permanente, que sirva de base para eleições futuras, para o trabalho de câmaras municipais e para a atuação do próprio Tribunal.


Fica também uma lição para outros tribunais de contas do país: dado bruto trancado em portais de difícil navegação não é transparência, é cumprimento formal de lei de acesso à informação. O que o TCE-PR fez — cruzar, categorizar e visualizar a informação de forma acessível — é o padrão mínimo que deveria ser exigido de qualquer órgão de controle no Brasil, em qualquer área de gasto público, não apenas em shows.


No fim, o R$ 1,2 bilhão gasto com festas em seis anos e meio não é, isoladamente, prova de escândalo. É prova de que os cidadãos paranaenses agora têm, pela primeira vez, os meios de perguntar, prefeitura por prefeitura, se aquele dinheiro veio de onde deveria vir e foi gasto na proporção certa. Essa pergunta, feita com dados na mão, vale mais do que qualquer indignação de manchete.


Artigo de opinião baseado em levantamento do Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TCE-PR), divulgado em agosto de 2026, disponível no Painel de Gastos com Eventos Municipais do Portal Informação para Todos (PIT).

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