top of page
572954291_18300745243267772_2025636869234957554_n.jpg

Quem paga a conta quando a banca fecha

há 5 horas
19 min de leitura

Crônica e análise econômica da proibição das bets no Brasil

Por Bruno Guilherme de Castro Oliveira · 02 de outubro de 2026


Em 30 segundos

•      Em pouco mais de três anos, o dinheiro enviado às apostas passou de R$ 4 bilhões para mais de R$ 30 bilhões por mês. A perda líquida é bem menor, perto de R$ 3 bilhões mensais, e se concentra em quem joga demais.

•      A MP 1.394 fechou esse mercado a nove dias da eleição. O problema é real, e o momento da decisão também conta.

•      A União perde perto de R$ 800 milhões por mês em impostos. Os clubes da Série A perdem cerca de R$ 1,1 bilhão por ano em patrocínio, e a TV perde seu anunciante mais agressivo.

•      O maior risco é o apostador migrar para sites ilegais, que já ficam com quatro de cada dez apostas.

•      O Congresso tem até 120 dias para decidir. Em 2004, uma MP parecida caiu no Senado por um voto.



Prólogo: façam suas apostas


Na noite de 30 de abril de 1946, o diretor do cassino do Copacabana Palace girou a roleta pela última vez. Com a voz embargada, avisou aos presentes que aquela era a rodada final do jogo no Brasil. Deu preto 31. Na manhã seguinte, crupiês, garçons, costureiras e cantores de orquestra acordaram sem emprego por causa de um decreto que ninguém viu chegar. Eram cerca de 55 mil pessoas, num país de 41 milhões de habitantes.


Oitenta anos depois, a roleta cabe no bolso e a última rodada tem hora marcada.


O apostador pode sacar o saldo até as 23h59 de 5 de outubro, um dia depois do primeiro turno.


Dostoiévski conhecia esse mundo melhor do que qualquer ministro. Escreveu O Jogador em vinte e poucos dias, ditando o texto a uma jovem estenógrafa, para cumprir um contrato e pagar dívidas que as mesas de jogo alemãs ajudaram a cavar. Seu narrador sabe que vai perder e volta à mesa assim mesmo, convencido de que a próxima rodada vai consertar todas as anteriores. Um século depois, Kahneman e Tversky deram nome técnico ao que o russo tinha contado como tragédia.


Borges foi mais longe. Em "A Loteria na Babilônia", um sorteio começa como passatempo de rua e é absorvido por uma Companhia misteriosa que passa a governar cada detalhe da vida dos cidadãos. No fim, ninguém sabe mais onde termina o acaso e começa o poder. O Brasil ensaiou sua própria versão do conto. Em 2023, o Estado regulamentou as bets e passou a cobrar outorga e impostos das operadoras. A Companhia éramos nós. Na sexta-feira, 25 de setembro, a Companhia resolveu que a loteria tinha acabado.


Nelson Rodrigues teria transformado o resto da história em tragédia de arquibancada. Quem chamou a seleção de pátria em chuteiras entenderia o drama de um presidente corintiano que, com a própria caneta, tira do seu clube um patrocínio de R$ 150 milhões por ano. O torcedor não leu a MP, mas vai sentir o efeito no elenco do ano que vem.


O jogo do bicho, que Dutra tentou enterrar em 1946, continua firme nas esquinas. Proibir sempre foi mais fácil do que fazer a proibição funcionar. As páginas a seguir tentam medir, com números públicos, quanto essa nova rodada vai custar e a quem.


A análise dos números


Na sexta-feira, 25 de setembro, o governo publicou a Medida Provisória nº 1.394/2026 e proibiu em todo o país as apostas de quota fixa, tanto as esportivas quanto as de cassino on-line. Os depósitos pararam no mesmo dia, e a partir de 6 de outubro os sites começam a sair do ar.


Nas redes, a medida virou placar. Há quem chame a decisão de desespero eleitoral e há quem ria do influenciador de bet que só agora descobre que perder dinheiro dói. As duas leituras cabem numa tela de celular, e esse é justamente o problema.


Uma medida que mexe ao mesmo tempo com o orçamento das famílias, a arrecadação federal, o caixa dos clubes, a grade da televisão e a saúde mental de milhões de pessoas não se explica com meme nem com torcida. Os efeitos mais fundos costumam aparecer bem depois da manchete, na fatura do cartão e na fila do CAPS, quando ninguém mais está olhando. É para eles que este texto tenta olhar.


Nada disso impediu que o tema virasse palco. Candidatos a deputado de todas as cores passaram o fim de semana publicando cards e vídeos sobre as bets, alguns chamando a MP de desespero, outros de coragem, e quase nenhum com um número verificado ou uma consequência pensada até o fim. É um oportunismo miúdo, de quem disputa curtida, e costuma repetir o mesmo vício que diz denunciar no adversário. A sete dias da eleição, um assunto que mexe com a renda de milhões de famílias merecia mais do que isso. Merecia, no mínimo, que alguém fizesse as contas antes de postar.


A decisão tem apoio popular raro: 75% dos entrevistados pela Atlas/Bloomberg concordam com ela. Pesquisa de opinião, porém, mostra o que as pessoas querem e diz pouco sobre o que acontece depois. Para isso servem os números. Entre economistas vale uma regra antiga, segundo a qual toda decisão tem um preço e quase nunca é quem assina que paga. Vamos a ele.


Sete vezes em três anos


Em janeiro de 2023, segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC), os brasileiros enviavam cerca de R$ 4 bilhões por mês às plataformas de apostas. Em dezembro de 2025 eram R$ 29 bilhões, e em março de 2026 o valor passou de R$ 30 bilhões. Para ter ideia da escala, basta um exemplo. Em agosto de 2024, quando o Banco Central já registrava R$ 20,8 bilhões mensais em Pix para as bets, o Bolsa Família inteiro pagou R$ 14,1 bilhões a 20,7 milhões de famílias. O país movimentava em apostas, todo mês, bem mais do que no seu maior programa social. Nenhuma renda cresce sete vezes em três anos, e por isso alguma outra despesa ficou para trás.


Fonte: CNC (2025 e 2026) e Banco Central (nota técnica, set. 2024)


As fontes medem coisas diferentes, já que a CNC estima o gasto total e o Banco Central enxerga apenas o Pix, mas as duas apontam na mesma direção. E quem tinha o bolso mais apertado apostou junto. A nota técnica do BC mostrou que, só em agosto de 2024, cerca de 5 milhões de beneficiários do Bolsa Família enviaram R$ 3 bilhões às plataformas, o equivalente a 21% do que o programa pagou no mês. Até agosto de 2026, dados da Fazenda indicavam 43,8 milhões de brasileiros que já tinham apostado, perto de 27% dos adultos.


Um cuidado com esses números: dinheiro enviado não é dinheiro perdido, porque boa parte volta como prêmio. Em 2025, os brasileiros depositaram R$ 220,6 bilhões nas plataformas autorizadas, R$ 183,7 bilhões retornaram em prêmios e bônus, e as operadoras ficaram com R$ 36,9 bilhões. Em média, de cada R$ 100 apostados, R$ 17 ficaram com a casa.


Fonte: Economic News Brasil, com dados das plataformas autorizadas, 2025


A perda líquida dos apostadores no mercado legal gira, portanto, em torno de R$ 3 bilhões por mês. É muito dinheiro, mas bem menos do que a manchete de R$ 30 bilhões sugere. Um estudo da LCA Consultores estimou que as apostas consomem 0,46% do orçamento das famílias, cerca de metade do que vai para o streaming de vídeo. O problema é que essa média esconde quem perde muito, e é sobre essa minoria que pesam a dívida e o adoecimento.


Dinheiro enviado não é dinheiro perdido. O problema mora em quem perde muito.


O Estado também estava sentado à mesa


A regulamentação de 2023 transformou o governo em sócio silencioso do negócio. Cada empresa pagou R$ 30 milhões de outorga para operar por cinco anos, e 85 chegaram a ter licença. Em 2025, primeiro ano completo do mercado regulado, a Receita Federal recolheu quase R$ 10 bilhões das operadoras. Entre janeiro e agosto de 2026 vieram mais R$ 6,3 bilhões, algo perto de R$ 800 milhões por mês. Esse dinheiro deixa de entrar a partir de agora, e o Orçamento vai precisar encontrar outra fonte.


Fonte: Receita Federal e Ministério da Fazenda, 2025 e 2026


O ministro da Fazenda já avisou que as outorgas não serão devolvidas, e as empresas prometem ir à Justiça. Há ainda um custo que não aparece em planilha, o da confiança. Ele é difícil de medir, mas fácil de entender. O investidor que vê uma licença de cinco anos durar menos de dois vai cobrar mais caro para entrar na próxima concessão do país, seja de energia, seja de saneamento.


Para onde vai o dinheiro


Se o dinheiro sai das bets, para onde ele vai? A primeira resposta anima o comércio. A CNC, que fala em nome do varejo e tem interesse direto no tema, calcula que as apostas tiraram R$ 103 bilhões das lojas só em 2024 e R$ 143,8 bilhões entre 2023 e 2025, o equivalente a dois Natais inteiros. Pelas contas da entidade, cada R$ 1 bilhão que vai para a aposta reduz em cerca de 0,7% o faturamento do comércio. Na vida real, isso aparece como o crediário da loja de móveis que atrasa e o tênis do filho que fica para o mês seguinte. O setor de apostas contesta a metodologia. Ainda assim, a direção do efeito é intuitiva: parte do dinheiro que ia para a tela do celular tende a voltar ao balcão e à parcela em atraso.


A segunda resposta é menos confortável e passa pelo futebol. Os patrocínios de bets saltaram de R$ 523 milhões em 2024 para cerca de R$ 1,1 bilhão em 2026. Dos 20 clubes da Série A, 14 têm uma casa de apostas como patrocinadora máster, e esse dinheiro representa em média 7% das receitas dos clubes da elite.


Fonte: O Globo e Sports Value, setembro de 2026


No Flamengo, o contrato com a Betano corresponde a 12,85% da receita bruta de 2025. O presidente do clube estimou uma perda de R$ 2,5 bilhões para o futebol brasileiro no próximo ano. É estimativa de parte interessada e deve ser lida assim, mas o ponto econômico se sustenta: contratos inflados por um setor em plena expansão não se repõem em trinta dias. Clube que perde patrocínio corta folha, e quem sente primeiro costuma ser a base e os esportes olímpicos.


O intervalo comercial ficou vazio


Poucos setores cresceram tão depressa na publicidade brasileira. Em 2024, segundo a Kantar Ibope Media, o investimento em mídia no país chegou a R$ 88 bilhões, e a categoria de jogos e apostas avançou 47%, uma das maiores altas do ano. No ranking dos 300 maiores anunciantes de 2025, 15 eram casas de apostas, com mais de R$ 2,9 bilhões em compra de mídia. De janeiro de 2024 a agosto de 2026, as empresas do mercado regulado investiram R$ 23,6 bilhões em mídia, segundo o Ibope e a Tunad. Vale um cuidado de leitura: esses levantamentos costumam partir de preços de tabela, antes dos descontos negociados, e por isso mostram a escala mais do que o valor exato pago.


Fonte: Ibope e Tunad, via Times Brasil/Folha de S.Paulo, 2025


A televisão foi o meio mais exposto. Em 2025, 74% da verba publicitária das bets foi para a TV, contra 54% na média do mercado. No sábado, 26, a Globo avisou às afiliadas que retiraria todos os anúncios de apostas da programação aberta, da fechada e dos canais digitais. Profissionais de mídia ouvidos pelo Meio & Mensagem falam em apagão de receitas para agências e veículos, e as emissoras já temem demissões se o espaço não for ocupado depressa.


O efeito chega às prateleiras da loja oficial. O Flamengo tem um lote de 100 mil camisas da Adidas com a marca da Betano que não poderá ser vendido, e perde junto os royalties dessas peças. O clube também pode ter de encerrar o contrato de placas de publicidade com a Brax, de R$ 63 milhões, porque a maior parte dos anunciantes do estádio vinha do setor. Nas redes, educadores financeiros não perderam a piada e comentaram que os influenciadores de bet finalmente estavam tendo uma experiência real com o produto que vendiam.


A lei de ferro da proibição


O economista Mark Thornton, em The Economics of Prohibition (1991), descreveu um padrão que se repete da Lei Seca americana ao combate às drogas. Quando um mercado de demanda firme é proibido, ele não desaparece. Muda de endereço, perde qualquer controle de qualidade e passa a oferecer versões mais arriscadas do produto, porque o risco jurídico premia quem vende mais em menos tempo. A literatura batizou esse fenômeno de lei de ferro da proibição.


O Brasil já conhece o tamanho desse porão. Mesmo com o mercado regulado em funcionamento, um estudo da LCA Consultores, encomendado pelo Instituto Brasileiro de Jogo Responsável, entidade ligada às operadoras, estimou que entre 38% e 44% das apostas on-line do primeiro semestre de 2026 aconteceram em plataformas clandestinas. Mesmo descontado o interesse de quem pagou a pesquisa, o número impressiona. No Reino Unido, onde a regulação é madura, essa fatia fica em 8%.


Fonte: LCA Consultores, Instituto Locomotiva e IBJR, agosto de 2026


O dado mais revelador vem da mesma pesquisa: 53% dos apostadores disseram ter usado, nos três meses anteriores, sites que não exigiam reconhecimento facial. Desde setembro de 2025 o mercado autorizado era obrigado a bloquear beneficiários do Bolsa Família e do BPC, cruzando CPFs no sistema federal. O clandestino não bloqueia ninguém. Se a demanda migrar para lá, o público que a proibição quis proteger ficará justamente onde o Estado perde a visão.


Por que a gente aposta mesmo sabendo que perde


Daniel Kahneman e Amos Tversky mostraram, na Teoria da Perspectiva (1979), que as pessoas superestimam probabilidades pequenas e sentem a perda com mais força do que um ganho de mesmo valor. É a combinação perfeita para quem vende o sonho do prêmio grande e cobra em apostas pequenas e repetidas. Charles Clotfelter e Philip Cook, em Selling Hope (1989), já haviam demonstrado que as loterias estatais americanas funcionam como um imposto regressivo, pesando mais no orçamento de quem ganha menos.


Fonte: Ilustração com os parâmetros de Tversky e Kahneman (1992): sensibilidade 0,88 e aversão à perda 2,25


A curva acima traduz a ideia em uma imagem. Do lado dos ganhos ela sobe devagar, e do lado das perdas despenca. É por isso que o apostador que perdeu R$ 100 sente uma urgência enorme de recuperar o prejuízo, e a próxima aposta parece sempre a solução. O narrador de Dostoiévski vivia exatamente dentro dessa curva.


Os dados de saúde dão peso a esse argumento. Segundo o Ministério da Saúde, os atendimentos no SUS ligados a jogo patológico cresceram cerca de 140% entre 2018 e 2025. O Levantamento Nacional de Álcool e Drogas estima que 10,9 milhões de brasileiros têm padrão de jogo de risco ou problemático, e mais de 1 milhão de pessoas já recorreram à ferramenta federal de autoexclusão. O Instituto de Estudos para Políticas de Saúde calcula em R$ 38,8 bilhões por ano o custo social das apostas, quase quatro vezes o que elas recolhiam em impostos. Na ponta do lápis, o Estado arrecadava bem menos do que o problema custava.


A preocupação do governo, portanto, tem fundamento econômico além do moral.


A própria pesquisa Atlas revelou que 84% dos brasileiros discordam totalmente da ideia de usar apostas para complementar renda. A pergunta que continua aberta é sobre o instrumento. Gary Becker e Kevin Murphy, na teoria do vício racional (1988), mostraram que o consumo de bens que geram dependência responde a preço e às expectativas sobre o futuro. A proibição total encarece o acesso, mas também desliga as ferramentas de controle que só funcionam quando o Estado enxerga o mercado.


O relógio da decisão


Nenhuma análise honesta dessa medida pode ignorar o calendário. A MP saiu nove dias antes do primeiro turno, e o prazo para o apostador sacar o saldo termina em 5 de outubro, um dia depois da votação. Oito dias antes, em 17 de setembro, um decreto reajustou o Bolsa Família em 15%, levando o piso de R$ 600 para R$ 691. Na mesma quinzena vieram a promessa de canetas emagrecedoras no SUS e a proposta de ampliar o limite de faturamento do MEI. Tudo isso com as pesquisas apontando empate técnico no segundo turno: a Quaest de 17 a 20 de setembro trazia Flávio Bolsonaro com 42% e Lula com 41%.


O nome técnico para esse movimento vem da economia política. Michał Kalecki intuiu o fenômeno em 1943, e William Nordhaus o formalizou em 1975, no artigo que batizou o ciclo político dos negócios. No modelo original, governos exploram a memória curta do eleitor para aquecer a economia antes da votação e deixar a inflação para depois dela. Nordhaus falava de juros e desemprego, mas a lógica se estende sem esforço a outras decisões de governo: o que é visível fica perto das urnas, e o custo é empurrado para a frente.


A teoria amadureceu desde então. Kenneth Rogoff mostrou em 1990 que esses ciclos sobrevivem mesmo com eleitores racionais, porque o governante usa medidas pré-eleitorais para sinalizar competência e atenção a um problema que o eleitor sente na pele. Adi Brender e Allan Drazen encontraram, em 2005, ciclos mais fortes em democracias jovens. No Brasil, Sakurai e Menezes-Filho mostraram que prefeitos que ampliam gastos no ano da eleição aumentam suas chances de reeleição. O governo federal, portanto, não inventou nada. Seguiu um roteiro bem documentado pela literatura.


Anthony Downs completa o quadro, mas por um caminho diferente do que costuma ser citado. A ideia do eleitor mediano é anterior a ele e vem de Duncan Black (1948). Downs a levou para a disputa entre partidos em Uma Teoria Econômica da Democracia (1957), e o conceito mais útil do livro para este caso é outro: a ignorância racional. Como informar-se custa caro e um voto isolado decide pouco, o eleitor comum escolhe a partir de sinais simples. Uma proibição cabe numa manchete. O debate sobre mercado ilegal e segurança jurídica exige uma paciência que a reta final de campanha não oferece.


Os 75% da pesquisa Atlas, porém, não autorizam a conclusão de que a medida decide a eleição. O teorema do eleitor mediano supõe preferências numa única dimensão, e ninguém vota apenas por causa das bets. O que pesa é a saliência do tema para a fatia pequena de eleitores ainda indecisos. Nesse ponto o cálculo tem risco. A BTG Pactual/Nexus não detectou efeito do reajuste do Bolsa Família nas intenções de voto, e 84% dos entrevistados que citavam um candidato já diziam ter o voto decidido. Um gesto popular não se converte automaticamente em voto novo.


Resta o calendário dos custos. A perda de arrecadação começa já em outubro, perto de R$ 800 milhões por mês, mas só pesa inteira no Orçamento de 2027. O desfecho jurídico também fica para depois. Descontado o recesso parlamentar, o prazo de 120 dias da MP deve vencer por volta de março de 2027, e especialistas consideram improvável um julgamento definitivo no STF antes do segundo turno. É esse descompasso de datas que caracteriza o ciclo descrito por Nordhaus.


Fonte: Elaborado pelo autor com base no Diário Oficial da União, no cronograma do Ministério da Fazenda e no rito constitucional das medidas provisórias


Há também a questão do instrumento. Argelina Figueiredo e Fernando Limongi mostraram, em Executivo e Legislativo na nova ordem constitucional (1999), que a medida provisória é a principal ferramenta de agenda do presidente brasileiro. Ela produz efeito imediato e obriga o Congresso a reagir diante de um fato consumado. No caso das bets o efeito é literal: quando deputados e senadores votarem, os sites já estarão fora do ar e os contratos, rompidos.


Chamar isso de oportunismo é a leitura da oposição. O governador Tarcísio de Freitas usou exatamente essa palavra e perguntou por que a urgência só apareceu às vésperas da eleição. A pergunta é legítima, mas conta apenas metade da história, porque o problema que a MP ataca é real e grave. A inadimplência no crédito livre das pessoas físicas chegou a 7,8%, recorde da série do Banco Central iniciada em 2011, e a Serasa contou 84 milhões de brasileiros com o nome negativado em agosto, o equivalente a 51% da população adulta. As bets não explicam sozinhas esse quadro, já que juros acima de 14% e o crédito caro também pesam, mas fazem parte dele.


Fonte: Serasa Experian, Mapa da Inadimplência (mar. e ago. 2026)


Mancur Olson ajuda a entender a outra metade. Em A Lógica da Ação Coletiva (1965), ele mostrou que grupos pequenos e com interesses concentrados se organizam muito melhor do que maiorias difusas. George Stigler completou o raciocínio em 1971 com a teoria da captura regulatória, segundo a qual o setor regulado tende a moldar as regras a seu favor. Algo parecido se viu em 2023, quando a Câmara incluiu os cassinos on-line no projeto que regulamentava as apostas esportivas. A proibição por MP admite, portanto, duas leituras que não se excluem: cálculo eleitoral e tentativa de desfazer uma regulação moldada pelo próprio setor.


Um dado do Monitor do Debate Público resume a ambiguidade. Mesmo eleitores conservadores e indecisos enxergam oportunismo na medida, mas concordam com ela. Para Flávio Bolsonaro isso vira armadilha, porque a própria base dele apoia a proibição. Daí a opção por uma posição intermediária, a favor das apostas esportivas controladas e contra os cassinos on-line.


A história já jogou essa partida


O Brasil já proibiu o jogo outras vezes, e os precedentes ajudam a antecipar o que vem pela frente.


O decreto de Dutra que encerrou a noite do Copacabana Palace foi assinado cem dias depois da posse, sem que o tema tivesse aparecido na campanha. Onze dias mais tarde, um segundo decreto afastou a regra da CLT que obrigava o governo a indenizar trabalhadores de atividades extintas por ato oficial. A semelhança com a MP atual, que também nega indenização às empresas, salta aos olhos. A proibição completou oitenta anos em vigor sem nunca ter acabado com o jogo, apenas com a parte dele que o Estado conseguia enxergar.


Em 2004 foi a vez do próprio Lula. Sete dias depois de estourar o escândalo Waldomiro Diniz, o governo editou a MP 168 e proibiu bingos e caça-níqueis em todo o país. A Câmara aprovou, mas o Senado derrubou a medida em 5 de maio por 32 votos a 31. Os bingos ficaram num vazio legal, funcionando por liminares até serem fechados nos anos seguintes. É o precedente mais incômodo para o governo, porque reúne a mesma ferramenta, o mesmo presidente e um Congresso que já mostrou disposição para dizer não.


Fora do Brasil, a comparação mais citada é a Itália. O Decreto Dignità, de 2018, não proibiu o jogo, mas vetou toda publicidade e todo patrocínio esportivo de apostas. Estima-se que o mercado de patrocínios da Serie A tenha encolhido cerca de 12%, e a regra passou a ser contornada por marcas travestidas de sites de notícias. Hoje a própria federação italiana de futebol pressiona pela revisão.


Nos Estados Unidos, a lei federal que bloqueou pagamentos a sites de apostas on-line, a UIGEA, foi aprovada em 2006 pendurada numa lei de segurança portuária, poucas semanas antes das eleições de meio de mandato. O mercado não sumiu. Parte dele migrou para operadores estrangeiros, e o país passou a década seguinte legalizando, estado por estado, aquilo que tentara banir.


Caso

Instrumento

Contexto

Desfecho

Brasil, 1946

Decreto-lei de Dutra (cassinos)

100 dias de governo, sem debate público

55 mil desempregados, proibição vigente até hoje

Brasil, 2004

MP 168 (bingos e caça-níqueis)

Uma semana após escândalo no governo

Rejeitada no Senado por 32 a 31

EUA, 2006

UIGEA (pagamentos on-line)

Semanas antes das eleições de meio de mandato

Migração ao exterior e legalização estadual depois de 2018

Itália, 2018

Decreto Dignità (publicidade)

Primeiros meses de um novo governo

Patrocínios da Serie A cerca de 12% menores, regra contornada

Brasil, 2026

MP 1.394 (bets)

Nove dias antes do primeiro turno

Em aberto, com até 120 dias para o Congresso decidir

 

A lição comum desses episódios é que proibições decididas às pressas costumam deixar trabalhadores sem proteção e mercados paralelos mais fortes do que antes. Nenhum deles, porém, é cópia exata do caso atual. A Itália vetou a propaganda e os Estados Unidos, os pagamentos, sem banir o mercado inteiro, e os cassinos de Dutra eram salões físicos. Há pouca experiência internacional com o fechamento total de um mercado on-line que o próprio Estado tinha regulamentado, e isso torna a aposta brasileira ainda mais incerta.


E a loteria da Caixa?


A MP deixa uma pergunta no ar. O mesmo texto que proíbe as bets preserva, de forma expressa, as demais modalidades lotéricas autorizadas por lei, entre elas as loterias da Caixa. Se o argumento é o vício, por que o jogo do Estado continua liberado?


A pergunta é justa, e a resposta honesta tem duas partes. A primeira dá razão a quem critica. Loteria também é jogo de azar, e Clotfelter e Cook mostraram, ainda nos anos 1980, que ela funciona como um imposto regressivo, pesando mais no bolso de quem ganha menos. Há ainda um conflito evidente, porque na loteria o Estado é a própria banca. Proibir o concorrente privado e manter o próprio negócio é uma posição desconfortável para quem fala em saúde pública.


A segunda parte relativiza a crítica. O risco de vício depende menos do nome do jogo e mais do ritmo em que ele é jogado. Um sorteio semanal oferece poucas recompensas imediatas, enquanto um cassino on-line devolve resultado em segundos, a qualquer hora, direto no celular. Segundo dados citados por especialistas em saúde, 66,8% dos usuários de plataformas digitais apresentam padrão de jogo de risco ou problemático, contra 26,8% nas outras modalidades. A escala também é outra: em agosto de 2024, as bets receberam R$ 20,8 bilhões via Pix, mais de dez vezes o R$ 1,9 bilhão arrecadado pelas loterias da Caixa no mesmo mês.


Fonte: Especialistas em saúde citados pela imprensa (2025) e Banco Central (nota técnica, set. 2024)


O argumento do vício, portanto, se sustenta apenas em parte. Ele justifica tratar os jogos de forma diferente conforme o risco, com mais rigor para os de alta frequência. Não justifica, por si só, a linha que a MP traçou, que usa como critério quem explora o jogo quando o critério de saúde pública seria o grau de perigo. Uma regra coerente com o próprio argumento do governo começaria pelos cassinos on-line, que concentram o dano, e exigiria da loteria estatal as mesmas proteções cobradas do setor privado.


É, aliás, uma linha próxima da que Flávio Bolsonaro defendeu em público, com apostas esportivas sob controle e proibição dos cassinos on-line. A proposta também tem seus limites, porque as apostas esportivas feitas ao vivo, durante a partida, têm um ritmo cada vez mais parecido com o de um cassino. O mapa do risco não coincide perfeitamente com nenhuma das duas posições em disputa.


Se o problema é o vício, a régua deveria medir o risco de cada jogo.


A conta final


O eleitor vai votar com duas informações na cabeça: as bets acabaram e três em cada quatro brasileiros apoiam isso. O resto da conta não aparece na urna, e é justamente a parte mais pesada.


Fonte: IEPS via Ministério da Saúde, Receita Federal, Meio & Mensagem/Ibope, Sports Value e reportagens sobre a judicialização das outorgas (2025 e 2026)


Há um velho ditado em Brasília segundo o qual governo não faz nada de graça. Aqui ele se confirma só em parte. O Planalto ganha uma bandeira simples para a reta final. Em troca, abre mão de cerca de R$ 9,6 bilhões por ano em tributos, que o Orçamento terá de compensar com corte de gastos ou receita nova. Corre ainda o risco de perder na Justiça a disputa por mais de R$ 2,5 bilhões em outorgas e de ver a MP cair no Congresso, como em 2004. E terá de bancar uma fiscalização cara, com Polícia Federal, Banco Central, Receita e Anatel correndo atrás de um mercado que não recolhe imposto algum.


Na população, ganham as famílias que perdiam mais do que podiam, desde que não migrem para sites ilegais. Ganha também o comércio de rua, que sente cada real que volta ao bolso do cliente. Perdem os cerca de 15,5 mil trabalhadores que o setor diz empregar, as emissoras que viviam da verba das bets, os clubes e o apostador eventual, que tratava a aposta como lazer e não fazia mal a ninguém.


Perde mais do que todos quem trocar a plataforma regulada pelo porão

clandestino, onde não existe limite de perda nem bloqueio de CPF.


Do outro lado da balança está o número que justifica a medida: R$ 38,8 bilhões por ano de custo social estimado pelo IEPS, mais do que todas as perdas do gráfico somadas. Esse valor, porém, só vira ganho se o jogo problemático realmente diminuir, e não apenas mudar de endereço. O governo recebeu a sua parte no dia do anúncio. A da população vai aparecer nos próximos meses, e dois indicadores dirão se a aposta foi boa: o fluxo de Pix para plataformas não autorizadas e a inadimplência das famílias de baixa renda. Se o primeiro subir mais do que o segundo cair, a conta terá saído cara, e quem vai pagá-la é o governo eleito em outubro, qualquer que seja.


Quem já leu Dostoiévski sabe que o jogador não abandona a mesa só porque o cassino fechou. Ele procura outra. No domingo, a bolinha passa às mãos do eleitor. Borges desconfiaria do sorteio, e Dostoiévski apostaria nele sem pensar duas vezes. Ao cronista cabe o ofício mais modesto de anotar o número que sair e esperar o tempo necessário para saber se foi sorte ou cálculo.


Na economia, como no jogo, a banca raramente perde. Desta vez, a dúvida é saber quem está sentado nela.

 


Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação

Acompanhe nossas notícias no Google News

images (3).png
Canal 2.png

Nota do editor: os textos, fotos, vídeos, tabelas e outros materiais iconográficos publicados nos espaços “colunas” não refletem necessariamente o pensamento do bisbilhoteiro.com.br, sendo de total responsabilidade do(s) autor(es) as informações, juízos de valor e conceitos divulgados.

* As matérias e artigos aqui postados não refletem necessariamente a opinião deste veículo de notícias. Sendo de responsabilidade exclusiva de seus autores. 

Portal Bisbilhoteiro Cianorte
Selo qualidade portal bisbilhoteiro

Receba nossas atualizações

Obrigado pelo envio!

Bisbi Notícias: Rua Constituição 318, Zona 1 - Cianorte PR - (44) 99721 1092

​

© 2020 - 2026 por bisbinoticias.com.br - Todos os direitos reservados. Site afiliado do Portal Universo Online UOL

 Este Site de é protegido por Direitos Autorais, sendo vedada a reprodução, distribuição ou comercialização de qualquer material ou conteúdo dele obtido, sem a prévia e expressa autorização de seus  criadores e ou colunistas.

bottom of page