QUEM GOVERNA CIANORTE? QUEM MANDA E QUEM OBEDECE?
- Marcio Nolasco

- há 17 horas
- 2 min de leitura
Quando um empréstimo de R$ 20 milhões se transforma em um teste de independência entre os Poderes.
A publicação do Edital de Convocação para Sessão Legislativa Extraordinária pelo prefeito de Cianorte recoloca uma discussão muito maior do que um simples financiamento bancário. O documento convoca a Câmara Municipal para deliberar, entre outras matérias, sobre o Projeto de Lei nº 56/2026, que autoriza o Poder Executivo a contratar uma operação de crédito com o Banco do Brasil.
Até aqui, tudo pode parecer absolutamente normal. A própria Lei Orgânica prevê a convocação extraordinária em determinadas hipóteses.

O problema político, porém, está no contexto.
Não se trata apenas de votar um empréstimo. Trata-se de votar um compromisso financeiro que, segundo as estimativas apresentadas no debate público, pode ultrapassar R$ 30 milhões quando considerados juros e encargos financeiros, criando obrigações que alcançarão administrações futuras.
É justamente por isso que a Câmara havia decidido permitir que suas comissões técnicas analisassem cuidadosamente a proposta.
E é exatamente aí que nasce o conflito.
As comissões permanentes existem para impedir que projetos de grande impacto sejam votados às pressas. São elas que analisam legalidade, impacto financeiro, interesse público, planejamento e compatibilidade orçamentária. Não representam burocracia; representam um mecanismo de proteção institucional.
Quando um projeto dessa dimensão é submetido a uma convocação extraordinária em meio ao processo de análise, a mensagem política inevitavelmente gera questionamentos.
A urgência decorre de uma necessidade técnica comprovada?
Ou decorre da necessidade política de acelerar uma votação?
Essa é uma pergunta legítima.
Mais preocupante ainda é o ambiente que pode ser criado ao redor da votação.
Caso o empréstimo não seja aprovado imediatamente, existe o risco de que eventuais atrasos em obras, aquisição de equipamentos ou prestação de serviços públicos passem a ser atribuídos exclusivamente aos vereadores.
Essa narrativa simplifica um debate que é muito mais complexo.
Fiscalizar não significa impedir.
Questionar não significa ser contra.
Pedir informações não significa atrasar a cidade.
"Quando o Legislativo exige estudos, pareceres e justificativas antes de autorizar uma dívida milionária, ele está exercendo exatamente a função para a qual foi eleito." - Marcio Nolasco
Aliás, se um empréstimo dessa magnitude fosse aprovado sem análise técnica, certamente as mesmas vozes que hoje cobram rapidez seriam as primeiras a perguntar, no futuro:
"Como ninguém percebeu isso antes?"
A democracia funciona justamente porque nenhum Poder deve atuar sem controle.
O Executivo governa.
O Legislativo fiscaliza.
Um não existe para obedecer ao outro.
Existe para equilibrá-lo.
É por isso que o episódio deixa uma reflexão que vai muito além dos R$ 20 milhões.
Quando um prefeito convoca uma sessão extraordinária para acelerar uma matéria de enorme impacto financeiro enquanto as comissões ainda realizam sua análise, surge inevitavelmente uma discussão institucional.
Até onde vai a prerrogativa legítima do Executivo?
E onde começa a autonomia que pertence ao Poder Legislativo?
Essas perguntas não interessam apenas aos vereadores.
Interessam à sociedade.
Porque empréstimos passam.
Prefeitos passam.
Vereadores passam.
Mas as dívidas permanecem.
Assim como permanece um princípio essencial da República: a independência entre os Poderes.
No fim das contas, talvez a principal votação desta semana nem seja sobre um financiamento bancário.
Talvez seja sobre algo muito maior.
Quem governa Cianorte?
Quem fiscaliza Cianorte?
E, principalmente:
Quem manda e quem obedece?




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