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Quando o poder encontra o coração humano

Christina Faggion Vinholo, teóloga

Especialista em AT e NT.


O perigo de desejar o lugar que pertence somente a Cristo


“…torna-te padrão dos fiéis, na palavra, no procedimento, no amor, na fé, na pureza.”

1 Timóteo 4.12



Quando pensamos em corrupção pelo poder, nossa mente quase sempre se volta para reis, governantes, políticos, empresários ou homens que construíram impérios ao redor de si mesmos. A história humana está repleta deles.


Mas existe uma corrupção ainda mais dolorosa: aquela que acontece dentro da comunidade da fé.


É quando alguém que foi chamado para servir começa a desejar governar consciências. Quando quem deveria apontar para Cristo passa, pouco a pouco, a construir ao redor de si mesmo uma estrutura de influência, dependência e autoridade. Quando o ministério deixa de ser entendido como serviço e passa a funcionar como território pessoal.


Isso não começou em nossa geração.


Na verdade, é tão antigo quanto o coração humano caído.


O problema não está apenas no poder


Depois da queda, o pecado atingiu todas as dimensões da existência humana. Nossa razão, nossos afetos, nossos desejos e nossa vontade foram afetados por ele. Isso não significa que todos sejam tão maus quanto poderiam ser, mas significa que nenhuma área do coração humano permaneceu intocada pelo pecado.


Por isso, a Escritura nos adverte:


“Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá?”

Jeremias 17.9


O poder, portanto, nem sempre transforma uma pessoa boa em alguém corrupto. Muitas vezes, simplesmente oferece condições para que desejos antes escondidos se manifestem.


E isso também pode acontecer com pessoas religiosas.


Podemos conhecer teologia, ensinar a Bíblia, ocupar posições eclesiásticas, ser admirados por uma comunidade e, ainda assim, precisar lutar diariamente contra orgulho, vaidade, desejo de reconhecimento e sede de controle.


A graça que pregamos aos outros é a mesma graça da qual dependemos todos os dias.


A Bíblia nunca romantizou seus líderes


Uma das grandes evidências da honestidade das Escrituras é que ela não esconde os pecados de seus personagens.


Saul recebeu um reino e terminou obcecado pela preservação de seu próprio poder.


Davi, homem segundo o coração de Deus, abusou terrivelmente de sua posição no episódio envolvendo Bate-Seba e Urias (2Sm 11).


Salomão recebeu sabedoria, riquezas e influência, mas terminou permitindo que seu coração fosse desviado (1Rs 11).


E no Novo Testamento encontramos uma figura menos conhecida, porém profundamente atual: Diótrefes.


João escreve:


“Diótrefes, que gosta de exercer a primazia entre eles, não nos dá acolhida.”

3 João 9


A expressão é perturbadora.


Ele gostava da primazia.


O problema não era apenas exercer alguma liderança. O problema estava em amar o primeiro lugar.


Aqui existe uma advertência para todo aquele que serve à igreja: é possível começar desejando servir a Cristo e, se o coração não estiver constantemente submetido ao Senhor, terminar desejando ser indispensável para as pessoas.


Quando o pastor deixa de ser servo


Jesus apresentou um modelo radicalmente diferente de liderança.


Quando os discípulos discutiam posições de grandeza, Ele lhes disse que os governantes das nações exerciam domínio sobre elas, mas acrescentou:


“Não é assim entre vós; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva.”

Mateus 20.26


Não é assim entre vós.


Essas palavras deveriam permanecer sobre cada púlpito, cada gabinete pastoral e cada posição de liderança cristã.


No Reino de Deus, autoridade nunca significa licença para dominar.


O pastor não é proprietário do rebanho.


A igreja não pertence ao pregador.


As pessoas não pertencem ao líder.


Pedro ordena aos presbíteros que pastoreiem “o rebanho de Deus” e imediatamente acrescenta que não devem agir “como dominadores dos que vos foram confiados” (1Pe 5.2–3).


O rebanho é de Deus.


Essa pequena expressão coloca toda liderança cristã em seu devido lugar.


Somos mordomos, nunca donos.


Paulo não disse a Timóteo: seja poderoso


Quando Paulo escreve ao jovem Timóteo, poderia ter enfatizado sua posição, seus direitos ou sua autoridade ministerial.


Mas sua orientação segue outra direção:


“Torna-te padrão dos fiéis, na palavra, no procedimento, no amor, na fé, na pureza.”

1 Timóteo 4.12


Paulo não manda Timóteo impressionar os fiéis.


Manda que seja exemplo para eles.


Sua autoridade deveria ser confirmada pelo caráter.


Palavra.


Procedimento.


Amor.


Fé.


Pureza.


Existe algo profundamente cristão nisso: no ministério, caráter sempre deve pesar mais do que carisma.


Uma igreja pode se impressionar com eloquência. Pode admirar capacidade administrativa. Pode celebrar números, influência, alcance nas redes sociais, livros vendidos, templos cheios e grandes projetos.


Mas nenhuma dessas coisas substitui caráter.


O Novo Testamento, quando apresenta as qualificações dos presbíteros em 1 Timóteo 3 e Tito 1, dedica surpreendentemente pouco espaço ao talento e enorme atenção à vida.


Porque Deus não mede seus servos pelos mesmos critérios pelos quais o mundo mede seus líderes.


Existe uma forma religiosa de amar o poder


Talvez essa seja uma das tentações mais sutis do ministério.


O desejo de poder pode aprender vocabulário cristão.


Controle pode receber o nome de “cuidado”.


Autoritarismo pode ser chamado de “autoridade espiritual”.


Vaidade pode se esconder atrás de “excelência ministerial”.


Ambição pessoal pode ser apresentada como “visão de Deus”.


E a necessidade de ser admirado pode até parecer zelo pelo ministério.


Por isso precisamos examinar continuamente nosso coração diante das Escrituras.


Paulo advertiu os próprios presbíteros de Éfeso:


“Dentre vós mesmos, se levantarão homens falando coisas pervertidas para arrastar os discípulos atrás deles.”

Atos 20.30


Observe a expressão: “atrás deles”.


Esse é sempre um sinal perigoso.


O verdadeiro ministério cristão conduz pessoas para Cristo.


O ministério adoecido pelo poder começa a conduzir pessoas para o líder.


O contraste está em Cristo


Nenhum texto desmonta nossas pretensões de grandeza como Filipenses 2.


Cristo possuía aquilo que nenhum líder humano jamais possuirá: glória legítima.


Ainda assim, Ele “a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo” (Fp 2.7).


Nós frequentemente fazemos o caminho contrário.


Recebemos uma pequena posição e desejamos grandeza.


Recebemos alguma influência e queremos reconhecimento.


Recebemos autoridade limitada e somos tentados a torná-la absoluta.


Cristo, porém, sendo Senhor, tomou a toalha e lavou pés.


Sendo Rei, aproximou-se dos pequenos.


Sendo digno de toda glória, caminhou em direção à cruz.


Por isso, quanto mais parecido com Cristo alguém se torna, menos precisa construir um trono para si mesmo.


A igreja precisa de líderes que também tremam diante da Palavra


A solução para o abuso de poder não é uma igreja sem liderança. Cristo deu pastores e mestres à sua igreja (Ef 4.11–12), e as Escrituras ensinam que devemos reconhecer aqueles que fielmente trabalham entre nós.


O problema não é autoridade.


O problema é autoridade sem prestação de contas, sem humildade, sem limites e sem submissão à Palavra de Deus.


Nenhum pastor está acima das Escrituras.


Nenhum líder é grande demais para ser confrontado.


Nenhum ministério é importante demais para ser examinado.


Nenhum dom torna alguém imune à queda.


Por isso, líderes espirituais precisam desesperadamente daquilo que todos os cristãos precisam: Palavra, oração, comunhão, correção, arrependimento e graça.


Precisamos permanecer perto da cruz.


Porque diante dela desaparecem nossos títulos.


Ali não existem celebridades cristãs.


Existem pecadores alcançados pela graça.


Há somente um Rei


Talvez seja essa a verdade que mais protege o coração de quem lidera:


o Reino não é nosso.


A igreja não é nossa.


A glória não é nossa.


O povo não é nosso.


O trono não é nosso.


Cristo disse:


“Edificarei a minha igreja.”

Mateus 16.18


Ele edifica.


Ele sustenta.


Ele governa.


Ele preserva.


E quando o Supremo Pastor se manifestar, todos os demais pastores descobrirão definitivamente aquilo que jamais deveriam ter esquecido: éramos apenas servos cuidando temporariamente das ovelhas de Outro.


Talvez, então, uma das orações mais importantes para qualquer pessoa que tenha recebido alguma autoridade seja:


“Senhor, não permita que eu ame o lugar que deveria usar para servir. Não permita que eu confunda influência com grandeza, autoridade com domínio ou ministério com propriedade. Guarda meu coração do desejo de ser aquilo que somente Cristo pode ser para sua igreja.”


Porque o poder pode seduzir o coração humano.


A história prova isso.


A igreja também conhece dolorosamente essa realidade.


Mas o evangelho continua nos chamando para outro caminho.


Não o caminho do trono, mas da toalha.


Não o caminho da autopromoção, mas do serviço.


Não o caminho de Diótrefes, que amava a primazia, mas o caminho de Cristo, que “não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mc 10.45).


A igreja não precisa de líderes que desejem ser grandes.


Precisa de homens e mulheres tão conscientes da grandeza de Cristo que estejam satisfeitos em serem servos.


Porque somente um pode ocupar o centro da Igreja.


E esse lugar pertence, eternamente, a Jesus Cristo.


Instagram: @chrisvinholo

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