Quando o Leão reina, o Cordeiro nos dá esperança
Christina Faggion Vinholo
Teóloga | Especialista em Antigo e Novo Testamento.
“Não chores; eis que o Leão da tribo de Judá, a Raiz de Davi, venceu para abrir o livro e os seus sete selos.” (Apocalipse 5.5)
Tenho acompanhado, com tristeza, o clima de hostilidade que parece tomar conta do nosso país. As eleições, que deveriam ser uma oportunidade para o exercício responsável da cidadania, têm revelado também a profundidade das nossas divisões. Palavras se transformam em armas, amizades são abaladas, famílias se desentendem e, muitas vezes, o respeito desaparece diante da necessidade de defender uma posição.

Não escrevo estas palavras porque deixei de ter convicções. Tenho as minhas, e não considero necessário abandoná-las para demonstrar amor ao próximo. Convicções não são inimigas da graça, assim como a firmeza na verdade não precisa caminhar acompanhada da agressividade. É possível discordar profundamente sem desprezar pessoas. É possível permanecer firme sem permitir que a amargura encontre morada no coração.
Entretanto, em meio a tantas vozes, tenho sentido a necessidade de voltar os olhos para uma verdade que jamais poderá ser alterada pelas circunstâncias: o nosso Deus reina!
Reina quando os acontecimentos nos alegram e quando nos entristecem. Reina quando compreendemos os caminhos da história e quando eles parecem confusos aos nossos olhos. Reina sobre presidentes, governadores, tribunais, parlamentos e nações. Nenhuma autoridade humana existe independentemente de sua soberania, nenhum poder está acima de seu trono e nenhum acontecimento é capaz de frustrar seus eternos propósitos.
Daniel declarou que Deus muda os tempos e as estações, remove reis e estabelece reis (Daniel 2.21). Essa afirmação não é uma expressão de conformismo, mas uma declaração da absoluta soberania divina. A história não está entregue ao acaso, tampouco depende, em última instância, das mãos daqueles que ocupam posições de poder. Ela se desenvolve sob o governo daquele que conhece o fim desde o princípio.
Mas há uma cena nas Escrituras que, particularmente, enche meu coração de esperança.
Em Apocalipse 5, o apóstolo João contempla um livro selado, que ninguém no céu, na terra ou debaixo da terra era digno de abrir. Diante daquela impossibilidade, João chora muito. Então, um dos anciãos lhe diz: “Não chores; eis que o Leão da tribo de Judá, a Raiz de Davi, venceu”.
Que declaração extraordinária!
João ouve falar de um Leão, mas, quando olha, vê um Cordeiro como tendo sido morto.
Ali está uma das mais belas revelações da glória de Cristo. O Leão venceu como Cordeiro. Aquele que possui toda a autoridade conquistou a vitória por meio de sua entrega sacrificial. O Rei soberano é também o Redentor que derramou seu sangue para comprar para Deus pessoas de toda tribo, língua, povo e nação.
E é justamente esse Leão-Cordeiro quem recebe o livro das mãos daquele que está assentado no trono.
Nada poderia ser mais consolador para a Igreja!
O desenrolar da história está nas mãos de Cristo. Não nas mãos dos poderosos deste mundo, não nas mãos daqueles que parecem determinar os destinos das nações, mas nas mãos daquele que morreu, ressuscitou e vive pelos séculos dos séculos.
Essa verdade não significa que todas as decisões humanas sejam justas ou que devamos permanecer indiferentes diante do mal. A soberania de Deus jamais transforma a injustiça em justiça, nem nos dispensa de nossas responsabilidades. Somos chamados a amar a verdade, praticar a justiça, exercer a cidadania com consciência e permanecer fiéis aos princípios revelados nas Escrituras.
Mas precisamos reconhecer que nenhuma vitória política é capaz de redimir uma nação do pecado, assim como nenhuma derrota eleitoral pode destruir o Reino de Deus.
Nossa esperança não pode ser depositada em homens, por mais que concordemos com suas ideias ou reconheçamos o valor de suas propostas. Homens são limitados, falíveis e passageiros. Cristo, porém, permanece para sempre.
E aqui está algo que precisamos recordar especialmente nestes dias: antes de pertencermos a qualquer nação, somos cidadãos dos céus (Filipenses 3.20). Antes de sermos identificados por nossas posições políticas, pertencemos a Jesus Cristo. Nossa identidade mais profunda não está naquilo que defendemos nas urnas, mas naquele que nos resgatou por sua graça.
Isso não diminui nosso amor pelo Brasil. Pelo contrário, deve torná-lo mais responsável, mais consciente e mais comprometido com aquilo que é justo e verdadeiro.
Podemos amar nossa pátria sem transformá-la em ídolo. Podemos desejar governantes justos sem esperar deles aquilo que somente o Salvador pode realizar. Podemos lamentar os rumos de uma nação sem perder a paz que encontramos na providência divina.
Também precisamos vigiar o nosso próprio coração. É muito fácil identificar a intolerância nos outros e deixar de perceber quando ela começa a crescer dentro de nós. A Palavra nos ensina que a ira do homem não produz a justiça de Deus (Tiago 1.20). E essa advertência alcança a todos nós, independentemente de nossas convicções.
Não fomos chamados a negociar a verdade para preservar uma aparência de paz. Mas também não recebemos autorização para usar a verdade como instrumento de crueldade. O mesmo Senhor que nos ordena permanecer firmes na fé nos chama a falar a verdade em amor.
O Brasil precisa de justiça, de integridade, de responsabilidade e de homens e mulheres que não negociem seus princípios. Mas, acima de tudo, precisa daquilo que nenhuma estrutura política pode oferecer: a transformação que somente o Evangelho de Jesus Cristo realiza no coração humano.
A verdadeira esperança da Igreja não está na possibilidade de controlar os acontecimentos, mas na certeza de que Cristo governa sobre todos eles.
Por isso, quando o cenário parecer sombrio, lembremo-nos do trono. Quando as notícias trouxerem inquietação, lembremo-nos do Cordeiro. Quando o medo do futuro ameaçar roubar nossa paz, lembremo-nos do Leão da tribo de Judá.
Ele venceu!
Não está tentando conquistar um reino, pois toda autoridade lhe foi dada no céu e na terra. Não aguarda a permissão dos poderosos para cumprir seus propósitos. Não será surpreendido pelo resultado de uma eleição, pela decisão de um tribunal ou pela ascensão de qualquer governante.
Seu Reino é eterno. Sua justiça é perfeita. Sua Palavra permanece. E sua Igreja, sustentada pela graça, jamais será abandonada.
Continuarei exercendo minha cidadania com responsabilidade, defendendo aquilo em que creio e orando por nossa nação. Mas me recuso a entregar meu coração ao desespero, porque conheço aquele que está assentado no trono.
O Leão de Judá reina. O Cordeiro que foi morto vive. E a história caminha, inexoravelmente, para o cumprimento de todos os propósitos de Deus em Cristo.
Que, em meio a tantas disputas, não percamos de vista aquele que é digno de receber o poder, a riqueza, a sabedoria, a força, a honra, a glória e o louvor.
Nossa esperança tem nome: Jesus Cristo.
E o seu Reino jamais terá fim.
Instagram: @chrisvinholo
E-mail: chrisvinholo@gmail.com

.png)



.png)






Comentários