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QUANDO O ELEITOR DE ESQUERDA COMEÇA A OLHAR PARA FLÁVIO BOLSONARO

Por Marcio Nolasco - Analista de Políticas Públicas - ENAP


O fenômeno ainda é pequeno nas estatísticas. Mas politicamente, é grande demais para ser ignorado.


Existe uma mudança silenciosa acontecendo no eleitorado brasileiro — e ela talvez seja mais importante do que os números brutos das pesquisas conseguem revelar.


Uma parcela do eleitor que se identifica com a esquerda, mas não se considera lulista, está deixando de tratar Flávio Bolsonaro como uma opção absolutamente impossível.


Não significa que esse eleitor tenha virado bolsonarista. Não significa que tenha abandonado suas convicções ideológicas. E muito menos significa que exista uma migração em massa da esquerda para o PL.



Mas significa algo politicamente muito mais incômodo para o PT:


o voto ideológico começa a perder espaço para o voto condicionado à realidade.


Uma análise da Quaest divulgada em março mostrou que, entre os chamados “esquerdistas não lulistas”, Lula caiu de 93% para 84% em um eventual segundo turno contra Flávio Bolsonaro entre dezembro de 2025 e março de 2026. No mesmo período, Flávio passou de 3% para 7%.


A diferença está dentro da margem de erro de seis pontos percentuais para esse recorte. Portanto, seria irresponsável transformar esses números em uma suposta “onda de esquerda rumo a Flávio”.


Mas também seria um erro jornalístico tratar o movimento como irrelevante.


Porque política não é feita apenas de números estatisticamente significativos. Às vezes, a direção da mudança importa tanto quanto o tamanho dela.


O problema de Lula talvez esteja justamente onde o PT acreditava ter domínio


O eleitor de esquerda não lulista é diferente do eleitor lulista tradicional.


Segundo Guilherme Russo, diretor de Inteligência da Quaest, esse grupo tende a ter maior afinidade com partidos como PSOL, Rede, PSB e PDT, além de ser, em média, mais jovem, urbano e escolarizado.


É também um eleitor menos preso à figura de Lula.


E aí está o ponto central.


Para o lulista tradicional, Lula é uma identidade política. Para o esquerdista não lulista, Lula é uma escolha política.


E escolhas podem ser revistas.


A Quaest aponta justamente essa característica: esse segmento reage mais fortemente aos acontecimentos recentes e possui uma relação mais condicional com o governo.


Quando o assunto predominante é inclusão social, políticas trabalhistas e avanços econômicos, Lula consegue dialogar com esse eleitor.


Mas quando a agenda pública muda para segurança, corrupção e custo de vida, a equação muda.


E mudou.


Segurança, inflação e corrupção atravessam a fronteira ideológica


Durante muito tempo, a política brasileira conseguiu organizar o eleitor em grandes blocos ideológicos.


Direita de um lado.


Esquerda do outro.


Mas existe um problema nessa divisão simplista: o cidadão não paga supermercado com ideologia. Não enfrenta uma rua dominada pelo crime com discurso partidário. Não resolve a insegurança da família com hashtag.


Quando a preocupação passa a ser o preço dos alimentos, a violência, o emprego, a corrupção ou a sensação de que o Estado perdeu capacidade de entregar resultados, a identidade política pode começar a perder força.


Foi justamente essa mudança de agenda que Guilherme Russo apontou ao analisar o comportamento da esquerda não lulista.


Segundo ele, a discussão pública passou a se concentrar mais em segurança, custo de vida e corrupção, movimento que teria sido negativo para o governo e desmobilizado parte desse eleitorado.


E existe uma consequência importante:


um eleitor que não ama Bolsonaro pode, ainda assim, votar contra Lula.


Essa distinção é fundamental para entender 2026.


Não é amor por Flávio. Pode ser rejeição a Lula.


Talvez esse seja o aspecto mais desconfortável da discussão.


A pergunta correta não é necessariamente:


“Por que a esquerda está gostando de Flávio Bolsonaro?”


Pode ser outra:


“Por que uma parcela da esquerda está deixando de considerar Lula uma escolha obrigatória?”


São perguntas completamente diferentes.


Na mesma pesquisa, entre os eleitores independentes — aqueles que não se identificam nem com lulismo nem com bolsonarismo — Flávio chegou a 32% contra 27% de Lula em um eventual segundo turno.


O resultado é particularmente relevante porque demonstra que o candidato do PL não depende exclusivamente do eleitorado bolsonarista para construir competitividade.


E isso muda o jogo.


Porque uma candidatura presidencial não precisa conquistar todo mundo.


Precisa construir uma maioria.


O voto “contra” pode ser tão poderoso quanto o voto “a favor”


A história eleitoral brasileira conhece bem esse fenômeno.


Muitos eleitores não escolhem necessariamente o candidato que mais admiram.


Escolhem aquele que consideram menos ruim, mais confiável ou menos perigoso diante da alternativa disponível.


É o chamado voto negativo.


E, em uma eleição polarizada, ele pode decidir o resultado.


O eleitor de esquerda não lulista pode continuar defendendo pautas progressistas, direitos sociais, diversidade, políticas públicas e inclusão.


Pode continuar discordando profundamente de Bolsonaro e de boa parte da agenda conservadora.


Mas, diante de uma eventual escolha entre Lula e Flávio, pode concluir:


“Não gosto dele. Mas não quero mais Lula.”


É exatamente nesse espaço que uma eleição pode ser ganha.


E a economia pode ser o verdadeiro campo de batalha


Outro dado chama atenção.


A esquerda não lulista foi apontada pela Quaest como o único segmento que aumentou sua preocupação com a economia em relação ao levantamento anterior.


Isso é particularmente importante porque esse eleitorado tende a ser mais crítico e menos dependente da comunicação oficial do governo.


Não basta dizer que determinados indicadores melhoraram.


O eleitor precisa sentir a melhora.


Se o salário aumenta, mas o supermercado aumenta junto, a percepção pode ser negativa.


Se há emprego, mas o emprego é precário, a estatística pode não convencer.


Se o governo apresenta números positivos, mas a família continua apertando o orçamento no final do mês, existe uma ruptura entre o discurso oficial e a experiência cotidiana.


E eleições são decididas, em grande medida, por essa experiência.


Flávio pode estar encontrando uma porta que Bolsonaro nunca teve


Há ainda outro elemento que merece atenção.


A própria pesquisa da Quaest mediu a percepção sobre o perfil de Flávio dentro da família Bolsonaro.


Entre os eleitores de esquerda não lulista, 20% consideravam Flávio mais moderado que sua família, enquanto 69% discordavam dessa avaliação. Entre independentes, 28% o consideravam mais moderado.


Não é uma aprovação majoritária.


Mas mostra que existe espaço para uma narrativa diferente daquela construída em torno do pai.


Flávio não precisa convencer a esquerda de que virou esquerda.


Precisa convencer uma parcela do eleitorado de que é diferente o suficiente para ser uma alternativa aceitável.


Essa pode ser uma das batalhas estratégicas da campanha.


O PT deveria estar preocupado?


Sim.


Mas não porque uma pesquisa tenha provado uma “migração da esquerda para Flávio”.


Ela não provou.


O que a pesquisa revela é algo mais sutil:


a blindagem eleitoral de Lula não é absoluta.


Existe uma parcela do eleitorado que se identifica com a esquerda, mas não necessariamente com o lulismo.


Existe uma parcela que pode mudar de opinião diante da conjuntura.


Existe uma parcela que demonstra preocupação crescente com economia, segurança e corrupção.


E existe uma parcela que pode preferir um candidato de direita a Lula em um segundo turno.


Tudo isso ainda pode mudar.


E certamente mudará até outubro.


Mas a mensagem política é clara:


Lula não pode presumir que todo eleitor de esquerda estará automaticamente ao seu lado.


Os eleitores perceberam. Flávio também.


Flávio já percebeu esse espaço e tentam ocupá-lo com um discurso de rejeição à polarização.


Sua estratégia é conversar justamente com o eleitor que se identifica com pautas sociais, mas não quer Lula nem Bolsonaro.


Isso mostra que o fenômeno não pertence necessariamente à direita.


Há uma disputa pelo eleitor ideologicamente independente, mas politicamente insatisfeito.


E essa disputa pode ser uma das mais importantes de 2026.


Flávio quer capturá-lo pela direita.


Outros candidatos tentarão fazer o mesmo.


E Lula precisará convencê-lo de que ainda é a melhor alternativa.


O que está realmente acontecendo?


Talvez a melhor definição seja esta:


não estamos diante de uma esquerda que virou bolsonarista. Estamos diante de uma esquerda que começa a se permitir dizer “não” a Lula.


E essa diferença é gigantesca.


Porque durante anos o PT contou com uma premissa estratégica: em uma eleição contra a direita bolsonarista, grande parte da esquerda estaria naturalmente mobilizada em torno de Lula.


Agora surge uma pergunta incômoda:


e se parte desse eleitor decidir não votar em Lula?


Pode votar em Flávio.


Pode votar em outro candidato.


Pode votar branco ou nulo.


Pode simplesmente não comparecer.


Mas, em qualquer dessas hipóteses, o resultado é o mesmo para o PT:


Lula perde uma parte daquilo que durante muito tempo foi considerado seu território eleitoral natural.


E talvez seja justamente aí que esteja uma das maiores histórias políticas das eleições de 2026.


Não na direita que sempre votou em Bolsonaro.


Mas naquele eleitor que olha para Lula, olha para Flávio e começa a pensar:


“Eu continuo sendo de esquerda. Mas será que ainda preciso votar no Lula?”


Essa dúvida, por enquanto pequena nas estatísticas, pode se transformar em um dos maiores problemas eleitorais do PT.


Porque uma eleição não muda quando milhões de pessoas mudam de lado de uma vez. Às vezes, ela começa a mudar quando milhares simplesmente deixam de ter certeza.


Nota metodológica: a análise citada foi baseada na pesquisa Genial/Quaest realizada com 2.004 entrevistados, margem de erro geral de 2 pontos percentuais e nível de confiança de 95%. Para o recorte específico de “esquerda não lulista”, a margem de erro indicada na análise é de 6 pontos percentuais. Registro TSE BR-05809/2026.

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