QUANDO O DEBATE DESAPARECE, QUEM PERDE É O ELEITOR
Lula não foi. Flávio desistiu. Renan Santos ganhou na Justiça o direito de participar. Lula e Flávio tem medo da democracia assim como o diabo tem medo da cruz... E o brasileiro ficou sem o último grande confronto antes das urnas. Vivemos a pior eleição de todos os tempos com os piores candidatos...
Por Marcio Nolasco
Há momentos em uma eleição em que a política deixa de ser apenas disputa entre candidatos e passa a ser um teste de maturidade democrática.

O cancelamento do debate presidencial da TV Globo, marcado para esta quinta-feira, 1º de outubro, é um desses momentos.
O debate que deveria colocar frente a frente os principais nomes da corrida presidencial simplesmente não aconteceu. Lula havia comunicado que não participaria. Flávio Bolsonaro, que inicialmente estava confirmado, desistiu posteriormente. E, no meio dessa confusão, uma decisão do ministro Gilmar Mendes autorizou a participação de Renan Santos, candidato do Missão, depois de decisões anteriores da Justiça Eleitoral que haviam negado ou restringido sua presença.
O resultado?
O eleitor ficou sem debate.
E isso deveria incomodar qualquer pessoa que defenda a democracia, independentemente de esquerda, direita, centro, Lula, Bolsonaro ou qualquer outro candidato.
Debate eleitoral não é favor de candidato.
Não é presente de emissora.
Não é propriedade de partido.
Debate é instrumento de informação do eleitor.
É ali que o candidato precisa responder perguntas, confrontar adversários, defender suas propostas e explicar como pretende governar.
Quando um candidato deixa de comparecer, ele não prejudica apenas o adversário.
Ele reduz uma oportunidade do eleitor de conhecê-lo.
LULA NÃO FOI
Lula comunicou à Globo que não participaria do debate. Segundo informações publicadas na imprensa, sua campanha optou pela ausência e, no mesmo horário, o presidente participou de entrevista no Flow Podcast.
A justificativa pública não deve ser confundida com especulações sobre medo ou incapacidade.
Mas existe uma pergunta legítima que o eleitor pode fazer:
Por que um candidato à Presidência da República, disputando a reeleição, abre mão de um dos principais espaços de confronto público na reta final da eleição?
Se há propostas, apresente-as.
Se há resultados, defenda-os.
Se existem críticas, responda.
Se existem acusações, enfrente-as.
A democracia não pode funcionar apenas quando o candidato controla o ambiente, escolhe o entrevistador ou sabe previamente quais perguntas receberá.
E FLÁVIO?
A situação de Flávio Bolsonaro acrescentou outro capítulo ao episódio.
O candidato havia confirmado presença no debate, mas desistiu depois das mudanças judiciais que alteraram a composição do programa. Flávio declarou que não participaria em razão do que chamou de “censura” imposta ao evento pelo TSE.
Pouco antes, o ministro Gilmar Mendes havia determinado que Renan Santos participasse do debate, ocupando a vaga que seria destinada ao candidato ausente.
Renan, posteriormente, afirmou que Flávio teria desistido por medo de enfrentá-lo. Essa é uma acusação do próprio adversário, não um fato comprovado.
Mas a sequência dos acontecimentos permanece:
Lula não foi. Flávio desistiu. Renan conseguiu judicialmente o direito de participar. E o debate acabou cancelado.
É isso que o eleitor precisa analisar.
A DEMOCRACIA NÃO PODE VIRAR UM CARDÁPIO DE CONVENIÊNCIAS
Existe ainda outro problema grave nessa história.
O debate não foi cancelado apenas pelas ausências dos candidatos. A Globo também apontou decisões judiciais de última hora que alteraram as condições originalmente estabelecidas para o programa.
O TSE proibiu a emissora de exibir o púlpito vazio reservado a Lula. Depois, o STF determinou a participação de Renan Santos. A Globo afirmou que as mudanças produziram insegurança jurídica e contribuíram para o cancelamento.
Aqui está outro debate que o Brasil precisa fazer:
Até onde pode ir a intervenção judicial sobre a organização de um debate eleitoral promovido por uma emissora?
A Justiça Eleitoral tem papel fundamental na garantia da lisura das eleições. Mas a liberdade de imprensa e a autonomia editorial também fazem parte do ambiente democrático.
Quando decisões judiciais modificam, poucas horas antes, quem pode ou não pode estar em um debate, surge inevitavelmente uma discussão sobre os limites dessa intervenção.
E o eleitor novamente fica no meio.
O BRASILEIRO NÃO MERECIA UM PALCO VAZIO
Estamos chegando às urnas depois de uma campanha marcada por polarização, conflitos, ataques, estratégias digitais, acusações e enorme disputa narrativa.
Justamente por isso, o eleitor precisava de mais confronto de ideias.
Não menos.
Precisava perguntar:
Qual é o plano para a economia?
Como reduzir o déficit público?
Como enfrentar a violência?
Como melhorar a saúde?
Como reduzir filas e ampliar o atendimento especializado?
Como tratar educação, segurança, infraestrutura e emprego?
Qual será a relação do próximo governo com o Congresso e o Supremo Tribunal Federal?
Quais impostos serão aumentados ou reduzidos?
Como o candidato pretende financiar suas promessas?
Essas perguntas não pertencem à esquerda.
Não pertencem à direita.
Pertencem ao cidadão.
A PIOR ELEIÇÃO?
É tentador dizer que estamos diante da “pior eleição de todos os tempos”.
Mas talvez a pergunta mais importante seja outra:
O que estamos fazendo para transformar a eleição em uma escolha realmente informada?
Não cabe ao jornalismo escolher o presidente.
Não cabe à televisão escolher o presidente.
Não cabe ao Supremo escolher o presidente.
Não cabe aos partidos escolherem sozinhos.
E não cabe aos candidatos decidir quando o eleitor merece ou não ouvi-los.
Quem escolhe é o cidadão.
E para escolher, o cidadão precisa de informação.
Por isso, quando candidatos deixam de comparecer a debates, quando regras são alteradas em cima da hora e quando decisões judiciais interferem na composição de um confronto eleitoral, o problema ultrapassa nomes e partidos.
O problema passa a ser institucional.
O ELEITOR NÃO É BOBO
O brasileiro pode discordar de Lula.
Pode discordar de Flávio.
Pode apoiar Renan.
Pode apoiar Caiado, Zema, Cury ou qualquer outro candidato.
Mas existe uma coisa que deveria ser comum a todos:
o direito de assistir aos candidatos sendo confrontados publicamente.
Quem quer governar 220 milhões de brasileiros precisa estar disposto a explicar o que pretende fazer.
Precisa responder.
Precisa ouvir.
Precisa ser questionado.
Precisa enfrentar o contraditório.
Porque Presidência da República não é programa de televisão.
Não é entrevista escolhida a dedo.
Não é rede social.
Não é propaganda eleitoral.
É responsabilidade pública.
E talvez a maior lição do debate que não aconteceu seja justamente esta:
QUANDO O CANDIDATO NÃO VAI AO DEBATE, ELE PODE ATÉ EVITAR O CONFRONTO.
MAS QUEM FICA SEM A RESPOSTA É O ELEITOR.
No dia 4 de outubro, serão os brasileiros diante das urnas.
Sem púlpitos vazios.
Sem mediadores.
Sem assessores.
Sem decisões judiciais de última hora.
E diante da urna, cada eleitor terá que decidir por conta própria.
Porque democracia não é escolher o candidato que fala mais alto.
É ter informação suficiente para escolher livremente.

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