Quando e como devemos orar?
Christina Faggion Vinholo, teóloga.
Especialista em AT e NT.
A oração que Deus não transformou em fardo
“Derramai perante ele o vosso coração; Deus é o nosso refúgio.”
Salmo 62.8
De joelhos ou em pé? De olhos fechados ou abertos? Pela manhã ou antes de dormir? Por uma hora ou por cinco minutos? No quarto, na igreja, dirigindo, caminhando, cozinhando ou trabalhando?

Talvez pareça estranho precisar fazer essas perguntas. Mas, para muitos cristãos, a oração deixou de ser um lugar de comunhão e passou a ser mais uma área de culpa.
Há pessoas que não oram porque acreditam que não têm tempo suficiente para “orar direito”. Outras pensam que precisam estar de joelhos, em absoluto silêncio, em determinado horário e por determinado período. E, quando não conseguem cumprir esse modelo, concluem que sua oração não será suficientemente espiritual.
Assim, aquilo que Deus nos deu como privilégio acaba transformado em peso.
Mas quem colocou esse peso sobre nós?
A Bíblia não estabelece uma postura única para a oração
As Escrituras apresentam pessoas orando de muitas maneiras.
Salomão orou de joelhos (1 Reis 8.54). Abraão permaneceu em pé diante do Senhor (Gênesis 18.22). Davi se assentou diante de Deus e orou (2 Samuel 7.18). Jesus levantou os olhos ao céu (João 17.1). O publicano, no templo, mal ousava levantar os olhos e clamava: “Ó Deus, sê propício a mim, pecador!” (Lucas 18.13).
A Bíblia conhece joelhos dobrados, mãos levantadas, pessoas em pé, assentadas e prostradas. Conhece orações longas e também orações que cabem em uma única frase.
Quando Pedro começou a afundar nas águas, não houve tempo para procurar um lugar silencioso, ajoelhar-se e organizar suas palavras. Ele simplesmente gritou:
“Senhor, salva-me!” (Mateus 14.30).
E Jesus o ouviu.
A postura pode expressar aquilo que está acontecendo em nosso coração. Ajoelhar-se pode expressar humildade. Prostrar-se pode expressar adoração. Levantar as mãos pode expressar dependência. Fechar os olhos pode nos ajudar a afastar distrações.
Tudo isso pode ser precioso.
Mas nenhuma dessas coisas torna a oração mais aceitável diante de Deus.
O acesso a Deus não depende da nossa performance
Aqui está uma verdade fundamental do evangelho: não somos recebidos por Deus porque aprendemos a orar corretamente. Somos recebidos por Deus porque Cristo abriu o caminho.
“Cheguemo-nos, portanto, confiadamente, junto ao trono da graça.” (Hebreus 4.16)
Observe: é o trono da graça.
Não chegamos diante do Pai apresentando o número de minutos que oramos naquela semana. Não apresentamos a posição dos nossos joelhos, a beleza das nossas palavras ou nossa capacidade de concentração.
Chegamos por causa de Cristo.
Nossa confiança não está na qualidade da nossa oração, mas na perfeição do nosso Mediador.
Isso muda tudo.
Podemos orar ajoelhados ao lado da cama, mas também podemos conversar com Deus enquanto fazemos o jantar.
Podemos separar uma hora para oração, mas também podemos dizer “Senhor, dá-me sabedoria” antes de uma conversa difícil.
Podemos buscá-lo no silêncio da madrugada, mas também enquanto dirigimos para o trabalho.
Podemos falar com Ele caminhando, lavando louça, trabalhando, cuidando de uma criança, esperando em um consultório ou deitados na cama quando o sono não vem.
Não porque Deus seja comum, mas porque toda a nossa vida acontece diante dele.
“Orai sem cessar”
Paulo escreve:
“Orai sem cessar.” (1 Tessalonicenses 5.17)
Isso obviamente não significa permanecer vinte e quatro horas por dia de joelhos. Significa viver em contínua dependência de Deus.
Existe a oração intencional, quando interrompemos outras atividades para estar a sós com o Senhor — e precisamos desses momentos. O próprio Jesus retirava-se para lugares solitários a fim de orar (Lucas 5.16).
Não devemos abandonar o secreto em nome da espontaneidade.
Mas também não devemos transformar o secreto em uma prisão.
Existe uma diferença entre disciplina espiritual e legalismo espiritual.
A disciplina diz: “Quero separar tempo para estar com meu Senhor.”
O legalismo diz: “Se eu não fizer dessa maneira, durante esse tempo e nessa posição, Deus não ficará satisfeito comigo.”
Uma nos aproxima de Deus.
A outra pode fazer com que vivamos permanentemente culpados diante daquele que nos chamou para perto.
Jesus também advertiu contra o farisaísmo na oração
Em Mateus 6, Jesus confrontou aqueles que haviam transformado a oração em demonstração religiosa.
“E, quando orardes, não sereis como os hipócritas…” (Mateus 6.5)
E logo depois:
“E, orando, não useis de vãs repetições…” (Mateus 6.7)
Cristo não estava condenando a oração longa. Ele mesmo passou noites em oração. O problema nunca foi o relógio.
O problema era transformar oração em performance.
Ainda podemos fazer isso hoje.
Podemos criar métricas que Deus não criou, estabelecer padrões que as Escrituras não estabeleceram e, depois, medir a espiritualidade dos outros por esses padrões.
“Você precisa orar uma hora.”
“Você precisa acordar de madrugada.”
“Tem que estar de joelhos.”
“Precisa fazer isso todos os dias dessa maneira.”
Talvez essas práticas façam muito bem a determinadas pessoas. Alguém pode amar orar de madrugada. Outro pode passar longos períodos de joelhos diante do Senhor. Que bênção!
O problema começa quando uma prática pessoal é transformada em mandamento divino.
Não devemos colocar sobre a consciência do povo de Deus um peso que Deus não colocou.
“Mas eu só consigo orar cinco minutos…”
Então ore esses cinco minutos.
Não espere ter uma hora para oferecer cinco minutos ao Senhor.
“Mas hoje minha cabeça está confusa.”
Conte isso a Ele.
“Não consigo encontrar palavras.”
Diga isso.
“Estou cansada demais para ficar de joelhos.”
Ore deitada.
“Estou dirigindo.”
Converse com Deus enquanto dirige — de olhos bem abertos!
“Estou trabalhando.”
Ele está ali.
“Estou cuidando das crianças e não tenho silêncio.”
Fale com Ele no meio do barulho.
“Minha oração hoje foi apenas: ‘Senhor, ajuda-me’.”
Então você orou.
Não despreze uma oração sincera porque ela foi pequena.
Nosso Pai não mede oração com cronômetro.
O coração entregue
Isso não significa que o tempo dedicado à oração seja irrelevante para nós. Quanto mais conhecemos o Senhor, mais desejamos permanecer em sua presença. A comunhão amadurece, a disciplina cresce e aprendemos a silenciar diante dele.
Mas existe uma diferença enorme entre desejar permanecer mais tempo com Deus por amor e permanecer mais tempo tentando cumprir uma exigência religiosa por medo.
Deus não precisa ser convencido por nossa performance.
Ele é nosso Pai.
Cristo é nosso Mediador.
O Espírito nos auxilia até mesmo quando não sabemos como orar:
“…o Espírito nos assiste em nossa fraqueza; porque não sabemos orar como convém…” (Romanos 8.26)
Que consolo!
Até nossa fraqueza na oração está debaixo da graça.
Ore onde você estiver
Portanto, ore.
Ore de joelhos quando seus joelhos puderem dobrar-se.
Ore em pé.
Ore sentada.
Ore caminhando.
Ore dirigindo.
Ore cozinhando.
Ore trabalhando.
Ore antes de uma decisão.
Ore quando estiver feliz.
Ore quando estiver com medo.
Ore quando tiver muito a dizer.
E ore quando conseguir dizer apenas:
“Senhor, fica comigo.”
Separe momentos para estar a sós com Deus. Cultive o secreto. Leia a Palavra. Aprenda com as orações das Escrituras. Cresça em disciplina.
Mas não permita que regras humanas roubem de você aquilo que Cristo comprou tão caro: livre acesso ao Pai.
Talvez precisemos retirar um pouco do farisaísmo que, sem perceber, entrou em nossa compreensão da oração.
Deus não está esperando uma posição perfeita do nosso corpo.
Ele deseja um coração que venha até Ele.
Oração não é uma apresentação diante de um Deus distante. É a comunhão de filhos com o Pai, de servos com o seu Senhor, de um povo com o seu Rei. E, em Cristo, podemos nos aproximar sabendo que somos ouvidos não porque oramos perfeitamente, mas porque pertencemos perfeitamente àquele que intercede por nós.
Então não deixe de orar porque hoje você não consegue “orar do jeito certo”.
Venha como está. Onde está. E fale com o seu Senhor.
Porque talvez a oração mais bonita de hoje não seja aquela que durou uma hora de joelhos.
Talvez seja aquela feita no meio da cozinha, entre uma tarefa e outra:
“Senhor, eu preciso de Ti.”
E Ele já estava ali.
Oração
Senhor nosso Deus e Pai,
obrigada porque, por meio de Jesus Cristo, abriste para nós o caminho até a tua presença.
Livra-nos de transformar a comunhão contigo em peso, obrigação vazia ou performance religiosa. Ensina-nos a buscar-te no secreto, a perseverar em oração e a crescer em disciplina, mas guarda nosso coração do orgulho e do legalismo.
Que possamos falar contigo em todos os momentos da nossa vida: nas horas tranquilas e nos dias corridos, de joelhos ou em pé, no silêncio do quarto ou no meio das nossas tarefas.
Ensina-nos a derramar diante de Ti o nosso coração, certos de que nossa confiança não está na perfeição das nossas palavras, mas na perfeição de Cristo, nosso Mediador.
Que a oração deixe de ser um peso para aquele que está cansado e volte a ser aquilo que Tu desejaste que fosse: comunhão, dependência, confiança e graça.
Faz-nos permanecer em Ti.
Em nome de Jesus, amém!
Instagram: @chrisvinholo
E-mail: chrisvinholo@gmail.com




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