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QUANDO A PREFEITURA VIRA MOEDA DE TROCA

há 11 horas
5 min de leitura

REPORTAGEM ESPECIAL | NACIONAL


Brasil: O perigo dos prefeitos que entregam cargos, secretarias e decisões municipais em troca de emendas parlamentares


“EMENDA PARLAMENTAR DEVE TRAZER RECURSO PARA A CIDADE — NÃO CABRESTO PARA O PREFEITO.” - Marcio Nolasco



Existe uma pergunta que todo cidadão deveria fazer antes de aplaudir um prefeito de sua cidade por anunciar milhões em emendas parlamentares:


Quanto essa verba realmente está custando ao município?


Porque, quando uma emenda parlamentar deixa de ser instrumento republicano de fortalecimento das políticas públicas e passa a funcionar como moeda de troca por cargos, influência política ou controle de estruturas da administração municipal, o problema deixa de ser apenas político.


Pode se transformar em um problema institucional.


E o risco maior aparece quando o prefeito deixa de governar para a cidade e começa a governar condicionado aos interesses de quem controla a torneira das emendas.


O prefeito que troca autonomia por dinheiro perde muito mais do que a autonomia


Emendas parlamentares são legítimas e fazem parte do funcionamento do sistema político brasileiro. Municípios precisam de recursos e parlamentares têm papel importante na articulação de investimentos.


Mas uma coisa é um deputado destinar recursos para uma cidade.


Outra, completamente diferente, seria existir uma relação de dependência na qual recursos públicos são associados a cargos de confiança, indicações políticas, controle de secretarias ou atendimento de interesses particulares.


Se houver esse tipo de condicionamento, a pergunta deixa de ser:


“Quanto o deputado trouxe?”


E passa a ser:


“O que foi entregue em troca?”


É justamente aí que começa o perigo.


Um prefeito eleito pelo povo recebe uma responsabilidade constitucional:


Administrar o município segundo o interesse público, respeitando os princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência.


A Prefeitura não é propriedade pessoal do prefeito.


E muito menos pode ser transformada em extensão de gabinete parlamentar.


As secretarias estratégicas


Saúde, Educação, Cultura e Meio Ambiente estão entre as áreas que concentram grandes volumes de recursos públicos, contratos, programas, serviços, convênios e execução orçamentária.


Isso não significa que qualquer secretário indicado por um grupo político esteja automaticamente envolvido em irregularidades em nossas prefeituras nacionais.


Mas significa que a sociedade tem todo o direito de perguntar quem indicou, por que indicou e a quem esse agente público responde politicamente.


É uma questão de transparência.


Quem indicou determinado secretário?


Quem recomendou determinado diretor?


Quem participou da escolha?


Existe relação política com algum deputado?


O secretário possui vínculo partidário?


Quem controla as nomeações?


E, principalmente:


A secretaria está trabalhando para o cidadão ou está sendo utilizada para fortalecer determinado projeto político?


São perguntas legítimas.


O balcão de negócios que ninguém pode normalizar


O perigo começa quando a lógica republicana é substituída por uma lógica de troca:


“Eu entrego a emenda. Você entrega o espaço político.”


Nesse modelo, o dinheiro público pode até chegar ao município.


Mas a cidade pode estar pagando uma conta política muito mais cara.


Porque o prefeito passa a ficar dependente daquele parlamentar.


E dependência política produz consequências.


O deputado passa a ter influência sobre decisões municipais.


O prefeito passa a precisar do deputado.


Secretários podem se tornar representantes de grupos externos dentro da administração.


Contratos e programas públicos passam a ser observados sob uma ótica política.

E, quando chegam as eleições, aparece a cobrança.


“Agora é a hora de retribuir.”


O prefeito precisa pedir votos.


O secretário precisa pedir votos.


Os cargos de confiança precisam pedir votos.


Os cargos comissionados precisam pedir votos.


A máquina política começa a funcionar em torno de um grupo e não em torno do povo...


E aquilo que deveria ser uma relação institucional entre município e parlamentar pode se transformar em uma relação de dependência eleitoral.


E se o prefeito disser não?


Aqui está outro ponto que o cidadão precisa observar.


Se o município recebe recursos enquanto determinado grupo político é atendido, mas perde força, prioridade ou acesso a recursos quando o prefeito deixa de seguir determinadas orientações, surge uma pergunta gravíssima:


O dinheiro público está sendo destinado conforme critérios republicanos ou utilizado como instrumento de pressão política?


A resposta precisa estar nos documentos.


Nos empenhos.


Nas emendas.


Nos convênios.


Nos contratos.


Nas nomeações.


Nos diários oficiais.


Nas prestações de contas.


Não basta discurso.


É preciso rastrear o dinheiro.


O ciclo eleitoral


O problema não termina na nomeação.


Ele pode criar um ciclo.


Primeiro vêm as emendas.


Depois, as indicações.


Em seguida, o grupo político passa a ocupar espaços estratégicos.


Depois aparecem os pedidos de apoio.


E finalmente chegam as eleições.


Se o prefeito não retribuir, o grupo pode romper.


Se o grupo perder espaço, pode tentar pressionar.


Se o deputado deixar de mandar recursos, a cidade pode ser colocada no meio da disputa.


E quem paga a conta?


O cidadão.


É por isso que o eleitor precisa parar de enxergar emenda parlamentar apenas como fotografia de político entregando cheque simbólico.


É preciso perguntar:


Qual foi a origem do recurso?


Quem solicitou?


Qual foi o destino?


Quem executou?


Quanto foi pago?


Quem ganhou os contratos?


Quem ocupava os cargos responsáveis pela execução?


E quem indicou essas pessoas?


Essa é a fiscalização que realmente importa.


A Prefeitura não é QG eleitoral


Prefeito não foi eleito para montar uma estrutura política para deputado.


Secretário não deveria ocupar cargo público para defender interesses particulares.


Servidor não pode ser tratado como cabo eleitoral.


E uma secretaria municipal não pode se transformar em território de disputa entre grupos políticos.


A Constituição estabelece princípios claros para a Administração Pública.


O poder público pertence à sociedade.


O prefeito administra.


O secretário executa.


O servidor trabalha.


O deputado legisla e exerce suas atribuições parlamentares.


E o cidadão fiscaliza.


Quando essas fronteiras começam a desaparecer, a democracia municipal começa a adoecer.


ELEITOR, FAÇA UMA COISA SIMPLES


Na próxima vez que você ouvir um prefeito dizendo:


“Esse deputado trouxe milhões para nossa cidade”, não fique apenas impressionado com o número.


Pergunte:


Quem é esse deputado?


De onde ele é?


Quantos votos ele recebeu aqui?


Quais secretários municipais têm relação política com ele?


Quem indicou cada secretário?


Quem indicou os diretores e cargos estratégicos?


Quais emendas foram destinadas?


Para onde foi o dinheiro?


Quais empresas executaram os serviços?


Quanto foi pago?


E observe também uma coisa aparentemente simples, mas politicamente reveladora:


Para quem o prefeito pede voto.


Porque o discurso eleitoral pode revelar muito sobre as alianças que existem por trás da administração.


A cidade não pode pertencer a um pequeno grupo


Uma prefeitura não é propriedade do prefeito.


Não é escritório particular de deputado.


Não é comitê eleitoral.


Não é QG de partido.


Não é balcão de negócios.


É patrimônio político e administrativo da população.


E quando um prefeito entrega sua autonomia em troca de recursos, quem precisa prestar atenção não é apenas o Ministério Público, o Tribunal de Contas ou a Câmara Municipal.


É o cidadão.


Porque antes de existir uma investigação formal, existe uma pergunta.


Antes de existir uma denúncia, existe um fato que precisa ser esclarecido.


E antes de qualquer julgamento, existe algo que todo governante deveria temer:


a sociedade começar a perguntar quem realmente manda na Prefeitura.


No fim das contas, o problema não é o deputado trazer emendas.


O problema é quando a emenda deixa de ser política pública e passa a ser moeda de poder.


E, se isso estiver acontecendo, a cidade não tem um governo.


Tem um governo sob tutela.


MARCIO NOLASCO
Analista de Políticas Públicas


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