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Quando a altura devolve a luz

Christina Faggion Vinholo, teóloga.

Especialista em AT e NT.


Estive no Burj Khalifa, em Dubai.

Diante de mim, a cidade parecia menor, quase silenciosa, apesar de toda a sua grandiosidade. Vi o sol se pôr no horizonte, e as luzes começaram a ocupar o lugar do dia. Tudo indicava encerramento. O tempo seguia seu curso, indiferente à altura em que eu estava.



Mas, ao subir ainda mais alto, algo inesperado aconteceu.

Por alguns minutos, o sol reapareceu. Não porque o dia tivesse voltado, mas porque eu havia mudado de posição. A altura me ofereceu a ilusão de que o tempo poderia ser estendido, como se fosse possível recuperar a luz que já havia partido.


A experiência é fascinante. E, de certa forma, legítima.

A inteligência humana, a engenharia precisa, o domínio sobre forças invisíveis — tudo isso também é graça comum. Deus concedeu ao homem capacidade de criar, calcular, erguer e transformar. O mandato cultural permanece: cultivar, desenvolver, governar a terra sob a autoridade do Criador.


Ainda assim, a altura sempre carregou uma tentação.

Desde Babel, o coração humano sussurra o mesmo desejo: subamos, façamos um nome para nós. Não era apenas uma torre, mas uma pretensão. Não era técnica, mas autonomia. Enquanto os homens subiam, o texto bíblico nos diz que o Senhor desceu para ver a cidade e a torre. Nenhuma construção impressiona Aquele que sustenta todas as coisas pela palavra do seu poder.


Ali, diante daquela paisagem, compreendi: não foi o sol que voltou. Fui eu que subi.

O tempo não se curvou à engenharia. A luz não obedeceu à vontade humana. O dia continuou sendo governado por Deus, enquanto eu apenas experimentava os limites da minha perspectiva.


A teologia reformada nos lembra que Deus reina soberanamente sobre reis, impérios, eras e também sobre nossas realizações mais impressionantes. O problema nunca foi construir alto, mas construir sem temor. Esquecer que capacidade gera responsabilidade. Que progresso exige reverência. Que toda dádiva cobra fidelidade.


A quem muito é dado, muito será requerido.


Cristo não construiu uma torre para alcançar o Pai.

Ele desceu. Esvaziou-se. Fez-se servo. Tomou a forma de homem e foi obediente até a morte — e morte de cruz.

Enquanto Babel aponta para cima, a cruz aponta para baixo — e, paradoxalmente, é ali que o céu toca a terra.


Ao deixar o Burj Khalifa, levei comigo essa certeza: nenhuma altura altera o governo de Deus. Podemos mudar de posição, ampliar o campo de visão, prolongar a luz aos nossos olhos — mas o sol continua nascendo e se pondo no tempo determinado por Ele.


Talvez o maior perigo não seja subir alto demais,

mas esquecer quem faz o sol nascer todos os dias.



Instagram: @chrisvinholo


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