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OPINIÃO | O debate revelou mais do que candidatos: revelou como querem convencer o Paraná

Por Marcio Nolasco – Analista de Políticas Públicas


Quem esperava assistir apenas a um debate sobre saúde, segurança, educação e infraestrutura provavelmente saiu da transmissão com outra impressão.


O primeiro confronto televisionado entre candidatos ao Governo do Paraná não foi apenas uma disputa de propostas. Foi, acima de tudo, uma batalha pela construção de narrativas.


Na política moderna, quem domina a narrativa muitas vezes sai na frente de quem apresenta o melhor plano de governo.


E foi exatamente isso que vimos.


Mais do que discutir soluções concretas para os desafios do Estado, os candidatos procuraram convencer o eleitor sobre quem representa o futuro e quem representa o passado.



O candidato da continuidade


Sandro Alex deixou claro desde o primeiro bloco que sua candidatura está diretamente vinculada ao governo Ratinho Junior.


Não é apenas um aliado político.


Sua campanha procura transmitir ao eleitor a ideia de continuidade de um projeto administrativo que considera bem-sucedido.


A estratégia é simples e eficiente: se a população aprova o governo atual, por que mudar?


Mas essa escolha também traz um efeito inevitável.


Ao assumir a continuidade, Sandro Alex também herda os acertos e os problemas da atual administração.


Cada crítica à saúde, à segurança, aos pedágios, às privatizações ou aos serviços públicos deixa de atingir apenas o governo e passa a atingir sua própria candidatura.


Outro aspecto chamou atenção.


Em diversos momentos, o debate deixou as políticas públicas em segundo plano para priorizar uma narrativa ideológica.


O resgate do discurso antipetista, a associação da esquerda aos problemas nacionais e a utilização de frases de efeito mostram que a campanha aposta fortemente na mobilização emocional do eleitor.


É uma estratégia conhecida na política brasileira.


Funciona.


Mas também reduz o espaço para discussões mais profundas sobre gestão pública.


Requião Filho tenta reconstruir uma marca política


Enquanto Sandro vende continuidade, Requião Filho vende reconstrução.


Sua campanha procura recuperar uma identidade histórica ligada aos governos de Roberto Requião.


O discurso gira em torno do fortalecimento do Estado, da valorização dos servidores públicos e da retomada de políticas públicas que marcaram administrações anteriores.


Não por acaso, suas críticas concentraram-se na privatização da Copel, nas tarifas de pedágio, na situação dos serviços públicos e no papel do Estado como indutor do desenvolvimento.


A pergunta que fica é inevitável:


Essa memória política ainda mobiliza o eleitor paranaense ou pertence a um Paraná que já mudou?


Essa talvez seja uma das grandes incógnitas desta eleição.


O grande protagonista nem apareceu


Curiosamente, quem mais repercutiu durante o debate foi justamente quem não participou.


Sérgio Moro decidiu ficar fora do confronto.


Mas sua ausência foi planejada.


Não foi silêncio.


Foi estratégia.


Sua equipe produziu conteúdo para justificar a decisão e levou a discussão para as redes sociais, onde hoje boa parte da disputa eleitoral acontece.


Enquanto os adversários debatiam no estúdio, Moro dominava outro palco: o ambiente digital.


A ausência gerou repercussão, provocou críticas, alimentou manchetes e fez com que seu nome fosse citado repetidas vezes.


Do ponto de vista da comunicação política, é impossível ignorar a inteligência dessa movimentação.


A grande dúvida é se o eleitor interpretará a estratégia como demonstração de força ou como recusa ao confronto direto.


O debate revelou muito mais do que programas de governo


Existe um detalhe que merece atenção.


Os candidatos falaram sobre os mesmos temas.


Segurança.


Educação.


Infraestrutura.


Economia.


Mas praticamente nunca falaram da mesma forma.


Cada um apresentou uma visão diferente sobre o papel do Estado.


Sandro Alex acredita que o desenvolvimento passa pela continuidade administrativa, pela parceria com o setor privado e pela manutenção do modelo implantado pelo governo Ratinho Junior.


Requião Filho entende que o Estado precisa reassumir protagonismo na oferta de serviços públicos e na proteção social.


São projetos distintos.


Não apenas propostas diferentes.


São formas diferentes de enxergar o Paraná.


O que ficou de fora?


Talvez a pergunta mais importante seja justamente esta.


O que não foi debatido?


Onde estavam as discussões aprofundadas sobre a qualidade da saúde pública?

Sobre os gargalos da educação?


Sobre a situação financeira dos municípios?


Sobre os desafios da segurança nas cidades do interior?


Sobre os impactos reais das privatizações para o cidadão comum?


Em muitos momentos, slogans ocuparam o espaço que poderia ser preenchido por diagnósticos técnicos e metas objetivas.


É justamente aí que mora o risco.


Campanhas eleitorais cada vez mais eficientes na comunicação podem acabar se tornando cada vez mais superficiais no debate sobre políticas públicas.


O eleitor precisa enxergar além da propaganda


No Portal Bisbilhoteiro, defendemos que a democracia não se fortalece apenas com eleições.


Ela se fortalece com informação, fiscalização e debate qualificado.


Mais importante do que perguntar quem venceu o debate é perguntar:


Quem apresentou um diagnóstico consistente dos problemas do Paraná?


Quem demonstrou conhecimento técnico sobre políticas públicas?


Quem explicou como pretende financiar suas propostas?


Quem assumiu responsabilidade pelas decisões que defende?


Essas perguntas raramente viralizam nas redes sociais.


Mas são elas que definem a qualidade de um governo.


A eleição será decidida pela confiança


No fim das contas, o eleitor não escolhe apenas um governador.


Escolhe uma forma de administrar o Estado.


Escolhe uma visão sobre o papel do poder público.


Escolhe prioridades.


Escolhe quem terá a responsabilidade de tomar decisões que afetarão milhões de paranaenses.


O primeiro debate deixou uma certeza.


A disputa pelo Palácio Iguaçu será muito menos uma guerra de propostas e muito mais uma guerra de narrativas.


E cabe ao cidadão fazer aquilo que nenhuma campanha fará por ele:

Separar marketing de gestão.


Separar slogans de resultados.


Separar emoção de políticas públicas.


Porque governos passam.


As consequências de suas decisões permanecem.

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