Onde Cianorte aprendeu a escutar
- Bruno Oliveira

- há 15 horas
- 7 min de leitura
Cinco salas de atendimento, uma sala espelho e uma porta que dá direto para a rua. A primeira clínica-escola de Psicologia da cidade e da região atende por contribuição social, prioriza quem tem menos alternativa, e ocupou um lugar em uma fila que nunca apareceu em pronto-socorro nenhum.
Por Bruno Oliveira - Diretor da UNIPAR

ENDEREÇO | Avenida Dr. José Roberto Furquim de Castro, Zona 1, nos fundos do campus |
AGENDAMENTO | (44) 3619-3039 |
ATENDIMENTO | Segunda a sexta-feira, das 08h às 18h |
Existe um tipo de espera que não aparece em fila de pronto-socorro. É a espera de quem sabe que precisa conversar com alguém e não sabe com quem, quanto custa ou quanto tempo vai levar. Durante décadas, em Cianorte, essa espera não tinha endereço.
Agora tem. O Serviço-Escola de Psicologia da Universidade Paranaense funciona na Avenida Dr. José Roberto Furquim de Castro, na Zona 1, nos fundos do campus, com entrada própria. Passou a atender a comunidade em fevereiro de 2025 e foi inaugurado oficialmente em novembro do mesmo ano como a primeira clínica-escola de Psicologia de Cianorte e dos municípios vizinhos. Abre de segunda a sexta-feira, das 08h às 18h, com agendamento pelo telefone (44) 3619-3039.
A entrada independente não é detalhe de arquitetura. Quem procura o serviço não atravessa a universidade para chegar até ele. Entra, é recebido e sai sem passar por corredor de sala de aula. Em saúde mental, discrição é parte do cuidado.
O QUE SE FAZ ALI
Não é só psicoterapia
Quem nunca precisou imagina uma clínica-escola como um lugar de sessões semanais. É isso, mas é mais do que isso. O serviço trabalha com um leque que acompanha a demanda que chega, e boa parte do trabalho acontece fora da sala de atendimento.
• Psicoterapia infantil
• Psicoterapia para adolescentes
• Psicoterapia para adultos
• Avaliação psicológica
• Orientação psicológica
• Acolhimento
• Encaminhamentos
• Articulação com a rede pública
Esse último item é o menos glamouroso e talvez o mais importante. Quando a demanda que chega ao serviço não é para ele, o caso não morre na recepção: é articulado com o CAPS, com a unidade básica, com a assistência social, com a escola. A clínica-escola opera como porta e como ponte.
QUEM ENTRA PRIMEIRO
A fila tem critério
Mais do que o valor, o que define o caráter social do serviço é a ordem da fila. O Regulamento Interno do Serviço-Escola estabelece prioridade de acesso, e ela não é por ordem de chegada. Têm preferência quem está inscrito no Cadastro Único, as famílias de baixa renda e as pessoas atravessadas por marcadores sociais de vulnerabilidade, entre eles cor, raça, gênero e situações históricas de violação de direitos, além dos casos encaminhados pela rede pública.
É uma escolha deliberada. Entre atender quem chega primeiro e atender quem tem menos alternativa, o serviço escolheu o segundo.
Os usuários chegam por duas vias principais, a divulgação feita pela própria universidade e o encaminhamento dos equipamentos públicos de saúde, educação e assistência. O cadastro é feito por formulário prévio ou diretamente na recepção. O público não tem recorte de idade: crianças, adolescentes, adultos e idosos.
Os números do biênio 2025 e 2026 dizem o resto. E o mais revelador deles não é o maior.
147 pacientes acompanhados | 1.570 atendimentos realizados | 10,7 sessões em média por paciente |
Mais de dez sessões por pessoa é o dado que muda a natureza do serviço. Significa que ali não se faz consulta avulsa nem triagem de encaminhamento. Faz-se acompanhamento, processo, vínculo que se sustenta ao longo de meses. É a diferença entre atender e tratar, e é exatamente o que costuma faltar na oferta pública de saúde mental de cidades médias.
Para o coordenador do curso, o psicólogo e professor mestre Sérgio Bezerra Pinto Júnior, o Serviço-Escola é, além de campo de aprendizado, um gesto de responsabilidade social da universidade.
SÉRGIO BEZERRA PINTO JÚNIOR, PSICÓLOGO E COORDENADOR DO CURSO DE PSICOLOGIA
O ESPAÇO
Quatorze ambientes atrás de uma porta
O Serviço-Escola não é uma sala adaptada. É um serviço projetado, climatizado, desenhado a partir das exigências éticas da profissão, entre elas o sigilo e a guarda de documentos.


1 | Recepção para acolhimento |
5 | Salas de atendimento individual |
1 | Sala de atendimento infantil |
1 | Sala espelho para observação técnica |
2 | Salas de supervisão de estágio |
1 | Sala dos estagiários |
1 | Sala da equipe técnica |
2 | Banheiros, masculino e feminino |


A acessibilidade foi tratada como parte do serviço e não como adaptação posterior. O espaço conta com rampas de acesso, sinalização em Braille e recursos voltados à circulação de pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida. Um serviço que se propõe a atender quem tem menos acesso não pode ter degrau na entrada.

A sala espelho É o ambiente mais incomum da casa e o que mais diz sobre o nível técnico do serviço. Um vidro espelhado separa a sala de atendimento de uma sala de observação. De um lado, o estagiário conduz a sessão. Do outro, sob indicação do professor orientador, colegas acompanham. Depois vem a discussão do caso. É a diferença entre contar como foi o atendimento e ver como foi o atendimento. Poucos serviços-escola do interior do Paraná têm esse recurso instalado. |
A FORÇA DO CURSO
Ninguém escuta sozinho
Quando alguém senta na cadeira de uma das cinco salas de atendimento, tem a impressão de estar diante de uma pessoa. Está diante de quatro. O estagiário conduz a sessão, mas o que sustenta aquela conversa é uma cadeia de responsabilidade que se fecha em camadas, do professor supervisor à coordenação do curso.

Quem chega | A pessoa que procura o serviço |
Estagiário | Conduz a sessão, sob orientação |
Professor supervisor | Psicólogo, discute o caso após cada atendimento |
Equipe técnica | Permanece no serviço durante todo o expediente |
Coordenação do curso | Define o que se ensina e sob quais critérios éticos |
A CADEIA DE SUPERVISÃO DO SERVIÇO-ESCOLA
Nenhum atendimento acontece sem professor por trás. Os estágios são orientados por professores psicólogos, com carga horária de orientação compatível com a complexidade das habilidades a desenvolver, e a discussão do caso acontece depois de cada sessão. Em situações mais urgentes, o estagiário recorre à equipe técnica que permanece no serviço durante todo o expediente, o que permite orientar a conduta na hora e prevenir intercorrências.
A camada mais externa é a coordenação do curso. É ela que define o que se ensina, em que ordem, com quanta prática e sob quais critérios éticos. É de lá que sai a régua que o estagiário aplica dentro da sala de atendimento.

E os professores que orientam os estágios não vieram apenas da sala de aula. Trazem trajetória de consultório, escola, hospital, empresa, CAPS, assistência social e Justiça, boa parte dela construída na própria região. Isso muda o que acontece na supervisão: quando o estagiário chega com um caso difícil, do outro lado da mesa está alguém que já viveu aquilo profissionalmente, e não apenas leu a respeito.
O curso reúne professores especialistas, mestres e doutores. A qualificação não para na contratação: a universidade mantém um programa permanente de formação de professores, com jornadas de desenvolvimento, mentorias e oficinas ao longo de todo o ano. Os funcionários também recebem capacitação continuada pela universidade corporativa da Unipar.
Do outro lado dessa cadeia está o estudante, que sai do serviço com competências que não cabem em prova escrita: construção de vínculo, escuta qualificada, planejamento e acompanhamento de intervenções, elaboração de registros e documentos, comunicação profissional. E, sobretudo, a leitura da realidade social de quem está sentado na cadeira da frente.
POR QUE AQUI
O polo que passou a formar em casa
A Unipar, com mais de 50 anos de história, chegou a Cianorte em 1996. Primeiro em salas cedidas pelo Colégio Cianortense, depois na sede própria da Avenida Brasil. São 30 anos de presença na cidade, com cursos que foram nascendo colados à economia local. Psicologia veio em 2021, autorizada pela Portaria MEC nº 1.868, para completar um arranjo que a cidade já vinha montando havia tempo.
Cianorte é sede da 13ª Regional de Saúde, que abrange onze municípios e centraliza aqui todo o atendimento especializado da área. É sede do Núcleo Regional de Educação, que atende doze municípios. Concentra CAPS, CAPS infantojuvenil, catorze unidades básicas, UPA, maternidade regional, dois hospitais gerais, CRAS e CREAS. A cidade construiu, ao longo de décadas, uma rede de cuidado que serve muito além de suas próprias divisas.
Faltava fechar o circuito em casa. Até 2021, quem nascia aqui e queria ser psicólogo precisava estudar em Maringá, Umuarama ou Curitiba. Parte voltava, parte não. A cidade que sustentava a saúde mental de uma microrregião inteira formava seus profissionais fora dela.
O Serviço-Escola resolve as duas pontas ao mesmo tempo. Amplia o acesso da população a um cuidado que estava restrito a quem podia pagar, e forma profissionais que chegam ao diploma com centenas de horas de prática real no próprio território onde vão trabalhar. Em uma região que exporta seus quadros mais qualificados, parte deles fica. Isso não é detalhe.
COMO FUNCIONA
Do telefonema à primeira sessão
01 Agendamento
O contato inicial é feito pelo telefone (44) 3619-3039, no horário de funcionamento. Não é necessário encaminhamento médico.
02 Cadastro
As informações são colhidas por formulário prévio ou diretamente na recepção do serviço.
03 Acolhimento
A primeira conversa define a demanda, a modalidade mais adequada e o valor da contribuição social, quando houver.
04 Atendimento com supervisão
As sessões seguem em dia e horário fixos, conduzidas por estagiários e acompanhadas por professores psicólogos, com discussão do caso após cada atendimento.
Serviço
LOCAL | Serviço-Escola de Psicologia da Unipar, campus Cianorte. Avenida Dr. José Roberto Furquim de Castro, Zona 1, nos fundos do campus, com entrada própria. |
AGENDAMENTO | (44) 3619-3039 |
HORÁRIO | Segunda a sexta-feira, das 08h às 18h |
VALOR | Atendimento Social. |
PRIORIDADE | Pessoas no Cadastro Único, famílias de baixa renda, situações de vulnerabilidade social e casos encaminhados pela rede pública |
ACESSIBILIDADE | Rampas de acesso e sinalização em Braille |
PÚBLICO | Crianças, adolescentes, adultos e idosos |



.png)






Comentários