O verso do santinho
Por Bruno Oliveira - Diretor da UNIPAR
Ontem, voltando da universidade já de noite, achei um santinho preso no limpador do para-brisa. Sorriso de estúdio, número grande, uma frase sobre mudança. Dobrei e enfiei no bolso da camisa sem pensar muito. Veio comigo até em casa, estalando a cada curva.

Antes de dormir, rolando o celular, apareceu um resumo das seis promessas que, segundo Norberto Bobbio, a democracia fez e não cumpriu. Li aquilo em O futuro da democracia muitos anos atrás, com mais certeza do que tenho hoje. Reli com o papel ainda no bolso. Cada item me devolveu um livro, e é disso que quero falar. A literatura chegou primeiro a essas conclusões e chegou por outro caminho, sem tese e sem nota de rodapé, contando o que acontece com uma pessoa.
A primeira promessa era o indivíduo soberano. Cada cidadão pensando com a própria cabeça e decidindo por si. O que veio foi a sociedade de grupos, em que se pertence antes de se opinar.
Machado viu isso e tratou o assunto com uma piada, que é o disfarce que ele usava para as coisas sérias. Em Esaú e Jacó existe o Custódio, dono de confeitaria.
A casa se chamava Confeitaria do Império. Veio a República e o homem ficou com um problema de tabuleta na mão, tinta cara, pintor cobrando, e o nome de um regime que acabou de cair pendurado na porta. Ele consulta, hesita, calcula. Não quer perder freguês monarquista nem freguês republicano. A saída, sugerida pelo conselheiro Aires, é batizar a casa com o próprio nome, que não se compromete com nada.
Sempre achei o Custódio o personagem mais moderno daquele livro. Ele não é covarde, é comerciante. Descobriu cedo que opinião própria não paga fornecedor. E a gente conhece muito Custódio. Está no grupo de WhatsApp da rua, no jantar de família, na reunião de associação comercial, medindo a temperatura antes de dizer qualquer coisa. Bobbio chama isso de fim do indivíduo soberano. Machado chamou de tabuleta.
A segunda promessa era o interesse geral. O representante agiria em nome do conjunto, e não em nome de quem o procura. Perdeu para os interesses organizados, que sabem o caminho da sala e têm tempo de esperar sentados.
O nosso livro sobre isso é Triste fim de Policarpo Quaresma. Lima Barreto constrói um sujeito que só quer servir ao país, e o país não sabe o que fazer com ele.
Quaresma propõe o tupi como língua nacional e vira piada nos jornais. Vai para o interior plantar, acreditando na terra brasileira, e é derrotado pela saúva e pela vizinhança. Pega em armas pela República na Revolta da Armada, cumpre o dever até o fim, e quando finalmente tem acesso ao poder que defendeu, usa esse acesso para escrever um protesto contra o fuzilamento de prisioneiros. É o único momento em que ele fala em nome do conjunto. É exatamente o que o condena.
Lima Barreto não estava fazendo sátira de um homem ingênuo. Estava mostrando que o sistema tem lugar para o interesse particular, tem lugar para o cálculo, tem lugar até para a bajulação, e não tem lugar nenhum para quem chega com o interesse geral debaixo do braço. Quaresma incomoda porque cem anos depois ainda não decidimos se ele era herói ou tolo, e essa indecisão diz mais de nós do que dele.
A terceira promessa era o fim das oligarquias. Com a participação ampliada, as elites deixariam de mandar. Elas não saíram. Aprenderam a se apresentar de outro jeito.
O Leopardo, de Lampedusa, é o romance dessa promessa, e é mais duro do que qualquer análise. Sicília, 1860, Garibaldi desembarcando, o mundo virando. O jovem Tancredi explica ao tio, o príncipe de Salina, que é preciso que tudo mude para que tudo continue igual, e a frase ficou famosa porque é verdadeira demais.
Mas o trecho que eu guardo é outro. É o do plebiscito em Donnafugata. Faz-se a votação da anexação ao novo reino, conta-se, e o resultado sai unânime pelo sim. Só que o velho Don Ciccio, organista, homem de poucas posses, tinha votado não. O voto dele simplesmente desapareceu na apuração, e ele conta isso ao príncipe muito tempo depois, ainda com raiva.
É uma cena sobre eleição, sobre número oficial e sobre o que se faz com quem discorda em lugar pequeno. Quem vive no interior dispensa a tradução. Sabemos apontar, sem esforço nenhum, os grupos que atravessam todos os governos, todos os partidos e todas as mudanças de discurso, e que a gente cumprimenta na rua com um cuidado a mais.
A quarta promessa era a do espaço. O direito de voto se ampliou, mas a democracia não entrou nos lugares onde a vida da maioria realmente se decide, que são a empresa e o trabalho.
Para esse, Graciliano. São Bernardo é um livro sobre propriedade contado por quem a conquistou. Paulo Honório toma a fazenda, cerca, planta, constrói serraria, açude, escola e capela. Manda em tudo. Contrata e demite, empresta a juros, calcula. Casa com Madalena, que é professora, que lê, que tem ideias sobre salário e sobre o tratamento dos trabalhadores. E o casamento vira uma disputa de jurisdição, porque na fazenda dele não existe instância de recurso. Não há voto, não há acordo, não há terceiro para arbitrar. Existe o dono.
Madalena se mata. Só aí Paulo Honório começa a escrever, e a escrita é a única coisa que ele não consegue administrar. O narrador perde o controle da própria narrativa, se contradiz, volta atrás. Graciliano fez uma coisa difícil ali, que foi mostrar por dentro como pensa um homem que nunca precisou negociar com ninguém. Bobbio diz que a democracia parou na porta da fábrica. São Bernardo mostra a fazenda inteira do lado de dentro dessa porta.
A quinta promessa era o fim do poder invisível. O poder deveria agir à vista, e continua decidindo onde não se enxerga.
Kafka chegou nessa antes de todo mundo, e chegou pelo susto. Josef K. é preso em casa, de manhã, por funcionários que não dizem a acusação. Passa o livro inteiro atrás de uma resposta e encontra um tribunal instalado em sótão de cortiço, com ar abafado e roupa no varal, advogados que vivem de prolongar o processo e uma sequência de instâncias superiores que ninguém nunca viu. Todo mundo parece pertencer ao sistema, inclusive a vizinha e o pintor. E há a parábola do homem do campo que espera a vida toda diante de uma porta guardada, para ouvir no fim que aquela porta era só dele.
O incrível é que Kafka escreveu isso antes dos regimes que depois pareceram cópia do livro. Não precisa ir a Praga nem a lugar nenhum. Basta tentar descobrir por que uma obra parou na sua cidade, quem assinou o aditivo e onde está o parecer. Você vai ser atendido com educação, vai ser encaminhado, e o processo vai continuar em algum andar acima.
A sexta promessa era a do cidadão participante. Acreditava-se que participar formaria gente mais interessada. Bobbio encontrou apatia, e encontrou também quem só aparece quando o assunto encosta no próprio bolso.
Saramago virou essa promessa do avesso em Ensaio sobre a Lucidez. Dia de eleição na capital, chuva forte, urnas vazias a manhã inteira, e o governo já respirando aliviado com a desculpa do tempo. À tarde a cidade toda comparece.
Vota. E a apuração dá mais de oitenta por cento de votos em branco. Não houve boicote, não houve abstenção, não houve tumulto. Todos cumpriram o dever e todos recusaram a escolha oferecida.
O que o romance mostra depois é o essencial. O poder convivia muito bem com a indiferença. Com a recusa consciente, não. Declara estado de sítio, procura culpado, inventa conspiração, abandona a própria capital e por fim manda matar. Saramago está dizendo que a apatia é confortável para quem governa, e que o problema começa quando o eleitor pensa.
Bobbio não montou essa lista para condenar a democracia. Montou porque gostava dela e porque desconfiava de quem promete demais. Ele termina sugerindo usar as seis promessas como diagnóstico, colocando lado a lado o que foi prometido e o que foi realizado, e olhando com honestidade a distância entre as duas colunas. É a conta que eu faço todo mês com meta e indicador, e nunca me ocorreu fazer com aquilo em que voto.
Hoje de manhã tirei o santinho do bolso. Não joguei fora. O verso traz propostas em letra miúda que ainda não li. Vou ler antes de decidir qualquer coisa, com a mesma atenção que dou a um romance, porque romance nenhum me pediu voto e mesmo assim todos eles já me explicaram melhor o país.

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