O valor dos números e a arrogância numérica
- Tania Tait

- há 2 dias
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Duas frases me chamaram a atenção recentemente. Não vou dizer o nome das pessoas e nem o contexto. O que interessa é o conteúdo e o valor dado por elas.
- façam mais de 100 mil votos como eu fiz e depois conversamos;
- quando a pessoa tiver mais de 50 mil seguidores como eu, darei atenção a ela.
Desde crianças, aprendemos sobre os números, quando começamos a usar os dedinhos pra contar 1, 2 3... ou até 10 pra brincar de esconde-esconde. Depois, para algumas crianças, os números se tornam um tormento ligados ao ensino da matemática. Quem não se lembra da famosa tabuada?

E quando as crianças crescem são marcadas com números. Aliás, desde alguns anos, as crianças tem CPF desde que nascem. Aí vem o número da classificação no vestibular, se fizer, o salário, as notas e as contas pra pagar. Enfim, o número não é apenas o da casa que moramos ou do RG, ele está em tudo e pauta nossa existência.
Na sua definição básica, o “número é uma entidade matemática fundamental e abstrata, utilizado para caracterizar a contagem, a ordenação, medição ou identificação . Os números possuem uma relação com elementos quaisquer, sejam reais ou não.” https://www.todamateria.com.br/numeros/
Entretanto, pela história, os números passaram a representar a riqueza ou a pobreza dos povos e das pessoas, o poder de alguns sobre outros e a classificar quem tem mais ou tem menos poder. Da contagem das pedras a contagem do lançamento de mísseis, tivemos muitas versões para a representação dos números.
E chegamos ao processo eleitoral e ao uso das redes digitais, os quais tem, em comum, a disseminação de informações, verdadeiras ou duvidosas, que alcança um número imenso de pessoas.
Dentro deste contexto, surge um novo valor dado ao número: o número de quantas pessoas são alcançadas ou alcançáveis, como se isso fosse sinônimo de uma espécie de riqueza ou capital.
E assim, tem-se o que pode ser chamado de “arrogância numérica” que faz com que tanto um político eleito como um influenciador digital se sintam empoderados e mais importantes do que as demais pessoas. Não é mais a arrogância do saldo bancário (que as vezes vem junto com a exposição política ou midiática), agora é a exposição que conta.
Claro que as pessoas que expõem suas ideias, tanto na vida política como no mundo virtual, ou em ambos, querem ser ouvidas, lidas, curtidas e divulgadas, afinal são espaços importantes para apresentar seus pensamentos e propostas.
O problema é quando essa ação e esse alcance se tornam moeda de valor em detrimento de outros valores. Ouvir quem não fez votos ou quem não usa as redes digitais, mas possui experiência e conhece bem sua própria área de trabalho ou atuação pode contribuir muito para novas soluções, novas ideias e novos movimentos.
Afinal, as pessoas podem não ter tantos votos ou nem seguidores, mas elas têm acesso à uma urna eletrônica, numa eleição democrática, na qual podem digitar os números de seus candidatos ou candidatas e, aí, está o símbolo do seu poder ao digitar o número no qual acredita.
Esse poder, numa democracia, tem mais valor numérico do que muitas pessoas possam imaginar, pois a pessoa vai definir os rumos que deseja para sua cidade, seu estado ou seu país.
Então, vamos dar atenção, também, para aquelas pessoas que não fizeram e nem farão 100 mil votos, não têm e nem terão 50 mil seguidores, pois esses números podem ser passageiros e não terem significado, se não servirem para melhorar a vida das pessoas.













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