O trono que jamais estará em disputa
Christina Faggion Vinholo, teóloga.
Especialista em AT e NT.
Há momentos na história de uma nação em que o sentimento mais apropriado talvez não seja a indignação, mas a tristeza.
Tristeza porque instituições criadas para transmitir segurança passam a despertar desconfiança. Tristeza porque autoridades das quais esperamos equilíbrio, sobriedade e respeito mútuo protagonizam confrontos que aumentam ainda mais a inquietação de uma sociedade já profundamente dividida. Tristeza porque, às portas de mais uma eleição, o Brasil parece novamente envolvido em tensões que ultrapassam partidos, candidatos e preferências ideológicas.

Não escrevo estas palavras para defender um lado ou atacar outro. Não é esse o meu chamado.
Como cristã e como ministra do Evangelho, meu compromisso primeiro não é com homens, governos, tribunais ou partidos. Meu compromisso é com Jesus Cristo.
E exatamente por isso podemos lamentar quando aquilo que acontece na vida pública parece distante dos princípios de justiça, prudência, transparência, respeito e responsabilidade que devem acompanhar aqueles a quem muito poder foi confiado.
A Bíblia jamais romantizou o poder humano.
Desde a queda, o pecado alcançou todas as dimensões da existência humana. A teologia reformada nos recorda uma verdade desconfortável, mas necessária: nenhum homem, nenhuma instituição e nenhum sistema estão imunes aos efeitos do pecado.
“Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas” (Jeremias 17.9).
Isso vale para quem governa e para quem é governado. Para quem julga e para quem é julgado. Para a direita e para a esquerda. Para os poderosos e para os anônimos. E também vale para nós.
Por isso, o cristão não deve transformar homens em salvadores da pátria.
Nossa esperança nunca esteve no Supremo Tribunal Federal. Nunca esteve no Congresso Nacional. Nunca esteve no Palácio do Planalto. E não deverá estar no próximo presidente da República.
Instituições são necessárias. Autoridades são necessárias. A própria Escritura reconhece a importância da autoridade civil e nos chama a respeitá-la e a orar por aqueles que exercem funções públicas (Romanos 13.1–7; 1 Timóteo 2.1–2).
Mas respeito à autoridade não significa idolatria da autoridade.
Também não significa abandonar o desejo pela justiça.
O profeta Miqueias resume aquilo que Deus requer do homem: “praticar a justiça, amar a misericórdia e andar humildemente com o teu Deus” (Miqueias 6.8).
Talvez seja justamente a palavra “humildemente” que nossa época mais precise ouvir.
Quanto maior o poder recebido, maior deveria ser a consciência da responsabilidade que o acompanha. Nenhuma autoridade humana é absoluta. Todo poder exercido neste mundo continua debaixo da soberania daquele que é Senhor sobre reis, presidentes, magistrados, parlamentos e nações.
É aqui que a tristeza cristã se distingue do desespero.
Nós podemos olhar para o Brasil e nos entristecer. Podemos desejar instituições fortes, transparentes e confiáveis. Podemos pedir que a verdade venha à luz, que eventuais erros sejam corrigidos, que inocentes sejam preservados e que qualquer irregularidade, de quem quer que seja, seja examinada com justiça, imparcialidade e respeito ao devido processo.
Podemos — e devemos — desejar tudo isso.
Mas não precisamos entrar em pânico.
Porque acima do Supremo existe um Supremo Juiz.
“O Senhor estabeleceu o seu trono nos céus, e o seu reino domina sobre tudo” (Salmo 103.19).
Essa verdade muda completamente a maneira como o cristão atravessa períodos de instabilidade.
Deus não perdeu o controle do Brasil.
Ele não observa perplexo os acontecimentos de Brasília. Não foi surpreendido pelas crises das nossas instituições. Não aguarda ansiosamente o resultado das próximas eleições para descobrir o que acontecerá com esta nação.
Ele reina.
Essa é uma das verdades mais consoladoras da fé reformada: a providência de Deus alcança a história inteira. Nada escapa ao seu governo soberano, embora nem tudo o que acontece seja bom, justo ou agradável aos seus olhos.
A soberania de Deus não transforma o mal em bem nem nos torna indiferentes à injustiça. Pelo contrário. Justamente porque cremos que Deus é justo, desejamos justiça. Porque Ele é verdadeiro, desejamos verdade. Porque Ele não faz acepção de pessoas, desejamos instituições nas quais ninguém esteja acima da lei e ninguém seja condenado sem justiça.
Mas fazemos isso sem entregar nossa alma ao medo ou ao ódio.
E talvez este seja um dos maiores testemunhos que a Igreja brasileira possa oferecer neste momento.
Enquanto o país grita, a Igreja pode orar.
Enquanto pessoas transformam adversários políticos em inimigos pessoais, a Igreja pode lembrar que nosso próximo continua sendo nosso próximo.
Enquanto homens disputam poder, podemos anunciar que existe um Rei cujo trono jamais estará em disputa.
Jesus Cristo.
“Porque convém que ele reine até que haja posto todos os inimigos debaixo dos pés” (1 Coríntios 15.25).
Às portas de mais uma eleição, precisamos recordar isso ainda mais.
Cristãos podem discordar politicamente. Podem avaliar candidatos de maneiras diferentes. Podem discutir projetos para o país. Podem cobrar autoridades e desejar instituições mais transparentes. Tudo isso pertence à vida de uma sociedade democrática.
Mas a Igreja não pertence a nenhum candidato.
A Igreja pertence a Cristo.
Nossa esperança não estará nas urnas, embora exerçamos com responsabilidade nossa cidadania. Nossa esperança não estará nos tribunais, embora desejemos deles justiça. Nossa esperança não estará nos governantes, embora oremos por eles.
Nossa esperança tem nome.
Jesus Cristo.
Por isso, diante deste momento tão triste da vida pública brasileira, talvez nossa primeira reação não deva ser levantar a voz, mas dobrar os joelhos.
Oremos pelo Supremo Tribunal Federal.
Oremos pelo Congresso Nacional.
Oremos pelo presidente da República e por todos aqueles que exercem autoridade.
Oremos pelos que investigam e pelos que são investigados.
Oremos para que aquilo que estiver escondido seja trazido à luz, para que a verdade prevaleça sobre interesses pessoais e para que homens e mulheres investidos de autoridade se lembrem de que todo poder humano é temporário.
Oremos também pela eleição que se aproxima.
Não para que Deus simplesmente faça prevalecer aquilo que nós queremos, mas para que, acima das nossas preferências, cumpra seus santos propósitos.
E oremos por nós mesmos.
Para que a indignação não se transforme em ódio. Para que a preocupação não se transforme em desespero. Para que a preferência política não se transforme em idolatria. E para que nunca esperemos de homens aquilo que somente Cristo pode nos dar.
O Brasil atravessa dias difíceis.
Mas o trono de Deus não está em crise.
O Cordeiro continua reinando.
E é por isso que, mesmo entristecidos, não somos um povo sem esperança.
Podemos não saber o que acontecerá amanhã em Brasília.
Mas sabemos quem continuará assentado no trono quando o amanhã chegar.
E isso nos basta.
Instagram: @chrisvinholo
E-mail: chrisvinholo@gmail.com

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