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O telefone do príncipe

ou de como a ameaça confessa a fraqueza


Por Bruno Oliveira - Diretor da UNIPAR|


Com a chegada das eleições, é salutar lembrar ao cidadão um tipo peculiar e caricato que foi retratado na teledramaturgia brasileira, ao tempo em que cabe também revisitar a história e a literatura, e até mesmo a leitura mal feita de certa obra que o meio julga conhecer. A teledramaturgia é Dias Gomes. A história é Lyndon Johnson. A obra mal lida é Maquiavel. E o tipo, esse, o eleitor reconhece sozinho.



Ano de eleição é ano de revisitar Odorico Paraguaçu. Não por saudade, que ninguém sente saudade de político de ficção, mas por precaução: o personagem que Dias Gomes criou em 1973 tem o costume inconveniente de se candidatar de novo a cada ciclo eleitoral, em cidades que ele nunca visitou, com nomes que ele nunca usou, mas com o mesmo método de sempre. Nas próximas semanas, em palanques e santinhos de norte a sul, o eleitor atento vai reconhecê-lo pelo tom de voz, pela promessa grandiosa e pela habilidade rara de transformar um favor em dívida antes mesmo de ser eleito. Odorico não envelhece. Apenas troca de cidade.

Mas antes de falar dele, convém falar do original. Porque o modelo que Dias Gomes caricaturou não nasceu em Sucupira: nasceu em Washington, tinha um metro e noventa e três de altura e governava com o telefone na mão.


Lyndon Baines Johnson, o trigésimo sexto presidente dos Estados Unidos, fez do aparelho uma extensão do corpo. As gravações da Casa Branca, liberadas décadas depois, revelam centenas de ligações em que Johnson telefonava para senadores, deputados, juízes, jornalistas e prefeitos, às vezes de madrugada, às vezes do banheiro (o homem não desligava nem para se sentar no vaso), sempre com o mesmo método.


Abria com um elogio, passava a um pedido, e, se o pedido não era atendido nos primeiros trinta segundos, descia ao terreno que o tornara célebre. Ameaçava. Insultava. Lembrava favores que o interlocutor jamais pedira. Insinuava consequências que não precisava detalhar. A colunista Mary McGrory descreveu o método como "uma mistura potente de persuasão, intimidação, bajulação, ameaças, lembranças de favores passados e promessas de vantagens futuras". Washington batizou a coisa de "The Johnson Treatment".


Uma fotografia célebre, tirada por George Tames para o New York Times, mostra Johnson debruçado sobre o senador Theodore Green, de Rhode Island, praticamente encostando o nariz no rosto do homem, que recua com os braços cruzados contra o peito como quem se protege de um assalto. Green tinha oitenta e nove anos. Johnson não se importou. A fotografia virou símbolo porque não precisou de legenda: o corpo dizia tudo. E o que o corpo dizia era que ali não havia conversa nenhuma, havia ocupação territorial.


 

O editor do Washington Post, Ben Bradlee, comparou a experiência de receber o Treatment a sentir "um São Bernardo que te lambeu inteiro". A imagem é generosa. Quem viveu coisa parecida sabe que a sensação se aproxima menos de um cão amigável e mais de um cão que não se sabe se vai lamber ou morder, e é exatamente essa dúvida que constitui o método.


O Brasil, como em quase tudo, produziu a sua versão, e com mais estilo. Imagine a cena: é 1961, duas da manhã, e o presidente Jânio Quadros está no gabinete do Palácio do Planalto, sozinho, com uma caneta e um bloco de papel. O país espera um plano econômico. O Congresso espera uma reforma. Os ministros esperam diretrizes. Jânio, concentradíssimo, redige à mão um memorando urgente para o Ministério da Justiça. O assunto: o comprimento do maiô nos concursos de miss televisionados. O presidente da República, com acesso às Forças Armadas e ao orçamento federal, está pessoalmente regulamentando a bainha das misses.


 

Não era exceção. Era o método. Jânio governava por bilhetinhos: pequenos memorandos manuscritos, enviados a qualquer hora, com ordens que nenhum funcionário ousava ignorar e que iam da proibição de rinhas de galo à proibição de lança-perfume no carnaval. Sete meses depois, renunciou alegando ter sido esmagado por "forças terríveis" que nunca identificou, esperando que o povo saísse às ruas para pedir seu retorno. O povo não saiu. O Congresso aceitou na mesma tarde. E as forças terríveis, se existiam, provavelmente estavam ocupadas lendo os bilhetinhos sobre biquínis.


Dias Gomes, que assistiu a tudo isso de perto e transformou a política brasileira em dramaturgia como ninguém antes dele, condensou o fenômeno inteiro numa única personagem. Quem assistiu a O Bem-Amado em 1973 reconhece a cena. Odorico Paraguaçu, o prefeito de Sucupira, governa pela oratória, pelo favor e pela pressão, frequentemente na mesma frase: começa chamando o interlocutor de amigo, passa a lembrar o que fez por ele, e termina insinuando o que pode fazer contra ele, tudo com a fluência de quem aprendeu que a fronteira entre o pedido e a coação é uma questão de entonação.


O gênio de Dias Gomes não foi inventar Odorico. Foi perceber que não precisava inventar: bastava transcrever, com ligeiro exagero e muita precisão, o que qualquer rincão da política brasileira já conhecia de cor. Odorico é engraçado porque é reconhecível. E perigoso porque, sendo engraçado, parece inofensivo.


Nicolau Maquiavel, que entendia de poder mais do que de boas maneiras, é citado por toda parte como o autor da frase "é melhor ser temido do que amado". A frase existe, está no capítulo XVII de O Príncipe, e é reproduzida com entusiasmo por todo sujeito que confunde grosseria com firmeza. Maquiavel, diga-se, nunca telefonou para ninguém. No século XVI, a ameaça precisava ser feita pessoalmente, o que ao menos garantia ao ameaçado o direito de ver a cara do remetente. Mas o problema da frase não é a falta de telefone: é que ela tem uma segunda metade, e a segunda metade é a que importa.


Maquiavel escreveu, na mesma página: "Deve o príncipe fazer-se temer de forma que, se não conquistar o amor, fuja ao ódio." E explicou como se cruza a linha: "Isso conseguirá sempre que se abstenha de tomar os bens e a honra de seus cidadãos." A honra. Quem ofende a dignidade alheia não produz temor. Produz ódio. E o ódio, adverte o florentino, é o começo do fim.


O temor que funciona é o institucional: o respeito à competência demonstrada. O temor que destrói é o pessoal: a pressão privada, o recado que chega para que o interlocutor saiba que pode ser alcançado a qualquer momento. O primeiro constrói obediência. O segundo constrói rancor. E o rancor não prescreve.


Johnson descobriu isso da maneira mais amarga. Cercado de assessores que tinham que tinham medo demais para discordar, tomou decisão após decisão no Vietnã sem que ninguém ousasse dizer que a guerra estava perdida. Em 1968, anunciou que não concorreria à reeleição. Johnson, como Jânio e como Odorico, descobriu no fim o mesmo princípio: quem governa sozinho, cai sozinho.


Odorico, a essa altura, já está de volta ao telefone. Convém observá-lo uma última vez, porque o detalhe mais fino de Dias Gomes está no final da história: quando os mesmos vereadores que Odorico domesticou se voltam contra ele, não o fazem por coragem nem por convicção. Fazem-no porque o vento mudou. A base que ele comprou não o traiu; cumpriu exatamente o contrato que sempre teve: lealdade ao prato, não ao dono.


A ameaça, observada com frieza, é sempre uma confissão involuntária. Quem precisa ameaçar admite, no ato, que não tem argumento suficiente para convencer, nem resultado suficiente para impor respeito, nem carisma suficiente para atrair. É o último recurso apresentado como primeiro, e quem o usa com frequência revela, a cada vez, exatamente o tamanho do vazio que tenta cobrir com o volume da voz.


O Treatment de Johnson ao menos deixou uma lei que mudou a história. Os bilhetinhos de Jânio deixaram a proibição do lança-perfume e uma renúncia que ninguém pediu de volta. Odorico deixou Sucupira exatamente como a encontrou, só que com um cemitério. Em todos os casos, o desfecho é o mesmo: o telefone ainda toca, numa sala onde já não há ninguém para atender, e o príncipe, do outro lado da linha, continua falando, convencido de que o silêncio do outro lado é respeito. Não é.


É o barulho que faz uma população inteira desligando ao mesmo tempo.



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