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O Rei permanece: fé cristã em tempos de eleição

há 6 horas
5 min de leitura

Christina Faggion Vinholo , teóloga

Especialista em AT e NT.


O Brasil acordou nesta segunda-feira depois de mais uma eleição. Para alguns, os resultados trouxeram alegria; para outros, frustração. Há quem esteja esperançoso, há quem esteja preocupado e há também quem simplesmente esteja cansado depois de meses de debates, pesquisas, confrontos e expectativas.



Mas o processo ainda não terminou. Teremos um segundo turno para a Presidência da República e também para alguns governos estaduais. Nas próximas semanas, o debate político continuará ocupando as conversas, as redes sociais, os noticiários e, inevitavelmente, os nossos pensamentos.


Talvez este seja, portanto, um bom momento para nós, cristãos, nos lembrarmos de algo que facilmente esquecemos quando as paixões políticas se intensificam: somos cidadãos de uma nação, mas, antes de tudo, somos discípulos de Jesus Cristo.


Isso não significa desprezar a cidadania. O cristão não precisa ser indiferente à vida pública. Podemos acompanhar as eleições, conhecer candidatos e propostas, refletir sobre os rumos do país e exercer responsavelmente o direito do voto. Amar o próximo também envolve preocupar-se com a sociedade em que ele vive.


Entretanto, existe uma diferença profunda entre exercer a cidadania e depositar nela a nossa esperança.


A Escritura nos ensina que, acima de presidentes, governadores, congressos, tribunais e de qualquer outra autoridade humana, existe um trono que jamais esteve vazio.


Daniel declarou a respeito de Deus: “Ele muda os tempos e as estações; remove reis e estabelece reis” (Dn 2.21).


Essa verdade deveria trazer sobriedade tanto aos que comemoram quanto aos que lamentam resultados eleitorais.


Nenhuma eleição surpreende Deus.


Nenhum resultado altera os seus decretos.


Nenhuma autoridade assume um cargo fora dos limites de sua providência.


Nenhum governo humano consegue retirar das mãos de Deus o governo da história.


A teologia reformada sempre afirmou com profunda convicção a soberania divina. Deus não observa a história à distância, reagindo aos acontecimentos conforme eles surgem. Ele reina. Sua providência alcança povos e nações, tempos de paz e tempos de crise, governantes que admiramos e governantes dos quais discordamos.


Isso não significa afirmar que tudo aquilo que os governantes fazem é aprovado por Deus. A Bíblia está repleta de reis, impérios e autoridades que praticaram injustiça e foram responsabilizados por ela. A soberania de Deus jamais transforma o pecado humano em virtude, nem elimina a responsabilidade moral daqueles que exercem poder.


Significa, porém, que até mesmo o poder humano continua sendo poder limitado.


Nabucodonosor descobriu isso. Faraó descobriu isso. Herodes descobriu isso. Impérios surgiram e desapareceram. Reis ocuparam tronos e depois os deixaram. Governos que pareciam invencíveis tornaram-se apenas capítulos nos livros de História.


O trono de Deus, entretanto, permanece.


É por isso que o cristão pode participar intensamente da vida pública sem fazer da política um ídolo.


Podemos votar sem transformar candidatos em messias.


Podemos discordar sem transformar o próximo em inimigo.


Podemos comemorar uma vitória eleitoral sem imaginar que o Reino de Deus venceu nas urnas.


E podemos lamentar uma derrota sem agir como se Deus tivesse perdido o controle da história.


Talvez uma das maiores tentações da igreja em períodos eleitorais seja confundir esperança cristã com expectativa política. Quando isso acontece, começamos a falar como se o futuro da Igreja dependesse de quem ocupará determinado cargo. E, quase sem perceber, entregamos a homens aquilo que pertence somente a Cristo.


A Escritura nos adverte: “Não confieis em príncipes, nem nos filhos dos homens, em quem não há salvação” (Sl 146.3).


Governantes são importantes. Instituições são importantes. Eleições são importantes. Mas nenhum deles pode carregar o peso da nossa esperança.


Nossa esperança tem nome.


Jesus Cristo.


Enquanto o Brasil discute quem governará pelos próximos anos, a Igreja precisa se lembrar de quem reina eternamente.


Cristo não está concorrendo a um cargo. Seu Reino não depende de maioria eleitoral. Sua autoridade não precisa ser confirmada pelas urnas. Depois da ressurreição, Ele declarou: “Toda autoridade me foi dada no céu e na terra” (Mt 28.18).


Por isso, nossa cidadania terrena precisa sempre permanecer subordinada à nossa cidadania celestial. Paulo escreveu: “Pois a nossa pátria está nos céus, de onde também aguardamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo” (Fp 3.20).


Somos brasileiros. Temos responsabilidades com nossa nação. Devemos buscar justiça, agir com integridade, amar o próximo, respeitar as autoridades e, quando necessário, exercer de maneira legítima e responsável nossa voz como cidadãos.


Mas nossa identidade definitiva não está em uma legenda, em um movimento político ou em um candidato.


Somos de Cristo.


E justamente por pertencermos a Cristo, também precisamos vigiar a maneira como atravessaremos estas próximas semanas.


O segundo turno poderá tornar os discursos ainda mais duros. As redes sociais provavelmente se encherão novamente de acusações, provocações e disputas. Será muito fácil permitir que a paixão política produza em nós aquilo que a Palavra de Deus condena: ira pecaminosa, mentira, calúnia, desprezo, arrogância e ódio.


Não deveria ser assim entre os discípulos de Jesus.


Podemos ter convicções firmes sem abandonar a mansidão. Podemos discordar profundamente sem perder o amor. Podemos defender aquilo que consideramos justo sem esquecer que o fruto do Espírito continua sendo exigido de nós também em época de eleição.


E precisamos orar.


Paulo orientou que fossem feitas “súplicas, orações, intercessões e ações de graças” por todos, inclusive “pelos reis e por todos os que exercem autoridade” (1Tm 2.1–2).


Isso significa que nossa responsabilidade cristã não termina quando apertamos a tecla “confirma”.


Continuaremos orando pelo Brasil.


Oraremos por quem vencer e por quem perder. Oraremos para que aqueles que receberem autoridade governem com justiça, prudência e temor diante da enorme responsabilidade que lhes foi confiada. Oraremos pela preservação das instituições, pela paz, pelos vulneráveis, pela liberdade de anunciar o Evangelho e pelo bem comum.


E seguiremos lembrando que nenhum presidente será o salvador do Brasil.


Nenhum governador será.


Nenhum partido será.


Nenhuma ideologia será.


A salvação pertence ao Senhor.


Daqui a algumas semanas, milhões de brasileiros voltarão às urnas. Façamos isso com consciência, responsabilidade e liberdade. Somos cidadãos e não devemos abandonar nossos deveres como cidadãos.


Mas entremos e saiamos das urnas lembrando-nos de quem somos.


Somos discípulos.


Nosso Rei é Cristo.


Governos passam. Mandatos terminam. Poderes humanos mudam de mãos. Homens chegam e homens partem.


Mas “o Senhor reina para sempre” (Sl 146.10).


E talvez essa seja a verdade de que mais precisamos nos lembrar neste momento:


o futuro do Brasil não está fora das mãos de Deus.


Nunca esteve.


Enquanto aguardamos o próximo capítulo da nossa história política, que nossos olhos permaneçam acima das urnas, acima dos palácios e acima dos homens.


Porque reis são estabelecidos e reis são removidos.


Mas o nosso Rei permanece.


E Ele reina soberanamente.


Instagram: @chrisvinholo

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