O POVO ESTÁ CALADO. MAS ATÉ QUANDO?
Às vésperas da eleição, o Brasil parece dividido entre a raiva, o medo e o silêncio. Quando o adversário vira inimigo, a política deixa de ser debate — e a democracia começa a perder espaço.
Por Marcio Nolasco
Inspirado nas palavras de Joel Geraldo Coimbra - Uma mente brilhante
Há frases que atravessam gerações porque continuam encontrando eco no presente. Uma antiga canção de Chico Buarque, “Apesar de Você”, retratava um ambiente de silêncio, medo e ausência de discussão. Décadas depois, a comparação reaparece diante de um Brasil que chega às eleições de 2026 profundamente tensionado.
E talvez a pergunta mais incômoda seja justamente esta:
Estamos diante de um povo que deixou de discutir política para simplesmente odiar o outro lado?

O cenário eleitoral revela uma sociedade cansada, desconfiada e, em muitos casos, tomada pela indignação. De um lado, há quem enxergue no campo político ligado a Lula a possibilidade de continuidade de um determinado projeto. De outro, há quem veja em Flávio Bolsonaro e na direita a alternativa para romper com esse caminho.
Mas existe algo ainda mais preocupante no meio dessa disputa: a transformação do adversário político em inimigo pessoal.
O debate deixa de ser sobre propostas, programas de governo, economia, saúde, segurança, educação e futuro. Passa a ser sobre destruir reputações, desqualificar pessoas e comemorar a derrota do outro.
Quem apoia Lula quer derrotar Flávio.
Quem apoia Flávio quer derrotar Lula.
E, no meio disso tudo, existe uma pergunta que deveria ser maior do que os dois lados:
E o Brasil?
É preciso lembrar que eleição não deveria ser uma guerra civil de opiniões. O adversário político continua sendo cidadão. Continua tendo direitos. Continua fazendo parte da mesma sociedade.
A democracia pressupõe justamente a convivência entre pensamentos diferentes.
O problema começa quando o voto deixa de representar uma escolha consciente e passa a representar apenas ódio, medo ou vingança.
No dia 4 de outubro, milhões de brasileiros irão às urnas para escolher presidente, governador, senador, deputado federal e deputado estadual ou distrital. São seis escolhas diferentes, e não apenas uma disputa entre dois nomes para o Palácio do Planalto.
Isso significa que o eleitor precisa olhar além da guerra das redes sociais.
Precisa perguntar:
O que esse candidato propõe?
O que ele já fez?
Quais são suas prioridades?
Quem estará ao seu lado?
Como pretende governar?
E, principalmente:
Estou votando porque acredito em um projeto ou simplesmente porque quero impedir que o outro vença?
Essa talvez seja uma das perguntas mais importantes desta eleição.
Porque quando a política se transforma em torcida organizada, o cidadão deixa de ser eleitor e passa a ser apenas parte de uma multidão.
E democracia não combina com multidão manipulada.
Combina com cidadãos conscientes.
O Brasil não precisa que todos pensem da mesma maneira. Precisa que pessoas que pensam diferente consigam continuar convivendo, discutindo e respeitando o resultado das urnas.
A eleição vai passar.
Os candidatos passarão.
Os discursos passarão.
Mas o país continuará aqui.
E nós também.
Talvez seja por isso que a esperança de que “amanhã será outro dia” ainda tenha tanta força.
Que seja mesmo.
Mas um amanhã diferente não começa apenas depois da eleição.
Começa na consciência de cada eleitor antes de apertar o botão CONFIRMA.
Porque o voto é secreto.
A escolha é individual.
E a responsabilidade também.
Não entregue seu voto à raiva. Não entregue sua consciência à torcida.
PENSE. QUESTIONE. COMPARE. ESCOLHA.
A democracia não precisa de cidadãos calados. Precisa de cidadãos conscientes.

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