top of page
572954291_18300745243267772_2025636869234957554_n.jpg

O POLÍTICO VIROU DEUS. E O ELEITOR, SEU FÃ-CLUBE

Quando o voto vira devoção, a verdade passa a ser negociável — e o político aprende que pode fazer quase qualquer coisa sem perder seus seguidores.


EDITORIAL — PORTAL BISBILHOTEIRO

Por Marcio Nolasco



Há algo profundamente errado acontecendo na política brasileira.


Não é apenas a polarização.


Não é apenas a disputa entre esquerda e direita

.

Não é apenas Lula contra Bolsonaro.


É algo mais perigoso:


o eleitor está transformando político em ídolo.


E quando o político vira ídolo, tudo muda.


O erro vira justificativa.


A denúncia vira perseguição.


A investigação vira conspiração.


A crítica vira ataque.


A imprensa vira inimiga.


A Justiça vira confiável apenas quando decide contra o adversário.


E os próprios princípios do eleitor começam a ser abandonados para proteger o político de estimação.


Isso não é consciência política. É devoção.


O “MEU POLÍTICO” SEMPRE TEM DESCULPA


O fenômeno é assustadoramente simples.


Se o adversário faz, é escândalo.


Se o meu político faz, existe uma explicação.


Se o adversário é investigado, “tem culpa”.


Se o meu político é investigado, “estão tentando destruí-lo”.


Se o adversário perde uma batalha judicial, “a Justiça funcionou”.


Se o meu político perde, “a Justiça foi aparelhada”.


Se o adversário mente, é caráter.


Se o meu político mente, é estratégia.


Percebe o absurdo?


O problema deixou de ser aquilo que o político faz.


O problema passou a ser quem fez.


E isso destrói qualquer possibilidade de coerência.


A POLÍTICA BRASILEIRA ESTÁ CHEIA DE “SANTOS” DE ESTIMAÇÃO


Mensalão.


Lava Jato.


Bolsonaro.


Lula.


Não faltam exemplos de brasileiros dispostos a defender seus líderes mesmo diante de fatos, controvérsias, investigações e decisões judiciais que deveriam, no mínimo, provocar reflexão.


E não se trata de dizer que todos os casos são iguais.


Não são.


Também não significa ignorar as diferenças jurídicas entre cada episódio.


O ponto é outro:


a reação de parte do eleitorado segue o mesmo padrão.


Quando o político é “nosso”, procuramos argumentos para salvá-lo.


Quando é “deles”, procuramos argumentos para condená-lo.


Isso não é direita.


Isso não é esquerda.


Isso é fanatismo político.


O BRASILEIRO PRECISA PARAR DE ELEGER SALVADORES


Existe uma doença antiga na política brasileira: a busca pelo salvador.


O político que vai resolver tudo.


Que vai acabar com a corrupção.


Que vai consertar a economia.


Que vai destruir o inimigo.


Que vai “colocar o país nos trilhos”.


Que vai salvar a cidade.


Que vai fazer aquilo que ninguém conseguiu fazer.


A promessa muda.


O discurso muda.


A bandeira muda.


Mas a lógica permanece:


“Confie em mim. Eu sou diferente dos outros.”


E parte do eleitorado acredita.


Depois, quando o salvador erra, o eleitor não aceita o erro.


Porque admitir o erro significaria admitir que talvez tenha colocado confiança demais em uma pessoa.


Então começa a operação de defesa.


Primeiro vem a justificativa.


Depois a relativização.


Depois o ataque ao adversário.


E finalmente aparece a velha palavra:


“perseguição”.


QUANDO O ELEITOR ABANDONA O PRINCÍPIO PARA PROTEGER O POLÍTICO


Aqui está o ponto mais grave.


Imagine alguém que passe anos dizendo:


“Corrupção tem que ser combatida.”


Até o dia em que surge um problema envolvendo seu grupo político.


De repente, aparecem os “poréns”.


“Mas nesse caso é diferente.”


“Mas veja o contexto.”


“Mas o outro lado fez pior.”


“Mas estão perseguindo.”


“Mas a imprensa não fala dos outros.”


Pronto.


O princípio desapareceu.


Porque se corrupção é errada apenas quando praticada pelo adversário, então não estamos diante de um princípio.


Estamos diante de uma conveniência.


O mesmo vale para abuso de poder.


Para mentira.


Para nepotismo.


Para desperdício de dinheiro público.


Para falta de transparência.


Para incompetência administrativa.


Para privilégios.


Para aparelhamento.


Para qualquer outro comportamento que o cidadão diga combater.


A régua precisa ser a mesma.


Caso contrário, ela não é régua.


É arma política.


A PERGUNTA QUE QUASE NINGUÉM QUER RESPONDER


Faça um teste.


Pegue uma atitude que você condena ferozmente quando praticada pelo adversário.


Agora imagine que seu político favorito tenha feito exatamente a mesma coisa.


Você continuaria condenando?


Se a resposta for “sim”, parabéns.


Você está defendendo um princípio.


Se a resposta for “depende”, cuidado.


Talvez você esteja começando a defender uma pessoa.


E se a resposta for “não, porque no caso dele é diferente”...


Então talvez o problema não seja mais o político.


Talvez seja você.


POLÍTICO NÃO É DONO DO SEU VOTO


Há uma coisa que o eleitor brasileiro precisa entender de uma vez por todas:


votar em alguém não cria uma dívida de fidelidade eterna.


O voto não é casamento.


Não é contrato de submissão.


Não é autorização para o político fazer o que quiser.


Você votou nele?


Ótimo.


Então cobre ainda mais.


Porque quem recebeu sua confiança precisa demonstrar que merece continuar recebendo-a.


Se errou, critique.


Se acertou, reconheça.


Se prometeu, cobre.


Se não entregou, questione.


Se houver denúncia, exija investigação.


Se houver prova de irregularidade, exija responsabilização.


Não passe pano.


MANDATO NÃO É PROPRIEDADE PARTICULAR


Vereador não é dono do mandato.


Prefeito não é dono da prefeitura.


Deputado não é dono do gabinete.


Presidente não é dono do Brasil.


São ocupantes temporários de cargos públicos.


E existe uma palavra que deveria estar permanentemente colada na porta de cada gabinete:


RESPONSABILIDADE.


O cidadão paga impostos.


O cidadão financia a máquina pública.


O cidadão elege.


O cidadão tem o direito — e o dever — de fiscalizar.


Portanto, não existe essa história de que criticar o prefeito significa ser contra a cidade.


Criticar deputado não significa odiar a política.


Questionar governador não significa trabalhar para o adversário.


Cobrar presidente não significa defender o outro candidato.


Isso é democracia.


A IMPRENSA NÃO EXISTE PARA FAZER FÃ-CLUBE


E aqui cabe outro alerta.


Parte da sociedade parece acreditar que imprensa boa é aquela que elogia seu lado.


Não.


Imprensa que presta é aquela que pergunta.


Que investiga.


Que confronta versões.


Que procura documentos.


Que incomoda.


Que cobra explicações.


Que não aceita o discurso oficial como verdade absoluta.


O jornalista não tem obrigação de proteger político.


Tem obrigação de informar o cidadão.


E quando o poder se incomoda com perguntas, talvez o problema não esteja nas perguntas.


O VERDADEIRO FANÁTICO NÃO É QUEM VOTA. É QUEM NÃO CONSEGUE QUESTIONAR


Votar em Lula não torna ninguém fanático.


Votar em Bolsonaro não torna ninguém fanático.


Votar em Moro, Ratinho, Requião, ou qualquer outro nome não torna ninguém fanático.


Fanatismo começa quando a pessoa perde a capacidade de questionar.

Quando deixa de pensar.


Quando transforma qualquer crítica ao seu líder em ofensa pessoal.


Quando compartilha informação sem verificar porque ela favorece seu lado.


Quando rejeita uma informação verdadeira simplesmente porque não gosta dela.


Quando exige transparência do adversário, mas tolera segredo no próprio grupo.


Aí temos um problema.


O BRASIL NÃO PRECISA DE TORCEDORES. PRECISA DE ELEITORES.


Torcedor quer vitória.


Eleitor deveria querer resultado.


Torcedor defende o time mesmo quando joga mal.


Eleitor deveria cobrar o político quando administra mal.


Torcedor escolhe lado.


Eleitor deveria escolher princípios.


Torcedor comemora quando o adversário perde.


Eleitor deveria comemorar quando a cidade, o Estado e o país avançam — independentemente de quem esteja no governo.


Essa diferença parece pequena.


Mas é gigantesca.


A ÚLTIMA COISA QUE UM POLÍTICO DEVE GANHAR É FÉ


Político não precisa da nossa fé.


Precisa da nossa fiscalização.


Não precisa de devoção.


Precisa de cobrança.


Não precisa de fã-clube.


Precisa de eleitor consciente.


Não precisa ser tratado como salvador.


Precisa entregar resultado.


E, principalmente, não pode ser colocado acima dos princípios que o próprio eleitor diz defender.


Porque quando o cidadão passa a acreditar que seu político não pode errar, ele já deixou de ser eleitor crítico.


Virou seguidor.


E quando milhões de cidadãos deixam de fiscalizar o poder porque estão ocupados demais defendendo seus ídolos, quem ganha não é a democracia.


Quem ganha é o próprio poder.


Por isso, fica o alerta do Bisbilhoteiro:


NÃO TRANSFORME POLÍTICO EM DEUS.


NÃO TRANSFORME ELEITOR EM TORCEDOR.


NÃO TROQUE PRINCÍPIOS POR CONVENIÊNCIA.


E NÃO ENTREGUE SUA CONSCIÊNCIA A NENHUM POLÍTICO.


Porque amanhã o político pode mudar de partido.


Pode mudar de discurso.


Pode mudar de aliados.


Pode mudar de posição.


Pode até mudar de lado.


Mas quem ficará com as consequências das escolhas será você.


O mandato passa.


O político passa.


O governo passa.


O cidadão fica.


E talvez esteja na hora de o eleitor brasileiro lembrar disso.


Político não é santo.


Político não é salvador.


Político não é dono do Brasil.


Político é servidor público.


E servidor público não precisa de adoração.


PRECISA DE COBRANÇA.


Por Marcio NolascoAnalista de Políticas PúblicasPortal Bisbilhoteiro

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação

Acompanhe nossas notícias no Google News

images (3).png
Canal 2.png

Nota do editor: os textos, fotos, vídeos, tabelas e outros materiais iconográficos publicados nos espaços “colunas” não refletem necessariamente o pensamento do bisbilhoteiro.com.br, sendo de total responsabilidade do(s) autor(es) as informações, juízos de valor e conceitos divulgados.

* As matérias e artigos aqui postados não refletem necessariamente a opinião deste veículo de notícias. Sendo de responsabilidade exclusiva de seus autores. 

Portal Bisbilhoteiro Cianorte
Selo qualidade portal bisbilhoteiro

Receba nossas atualizações

Obrigado pelo envio!

Bisbi Notícias: Rua Constituição 318, Zona 1 - Cianorte PR - (44) 99721 1092

© 2020 - 2026 por bisbinoticias.com.br - Todos os direitos reservados. Site afiliado do Portal Universo Online UOL

 Este Site de é protegido por Direitos Autorais, sendo vedada a reprodução, distribuição ou comercialização de qualquer material ou conteúdo dele obtido, sem a prévia e expressa autorização de seus  criadores e ou colunistas.

bottom of page