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O PODER E O ABISMO DIGITAL

Como vereadores e agentes públicos estão se tornando reféns das próprias redes sociais


Por Marcio Nolasco - Analista de Políticas Públicas - ENAP


Existe uma transformação silenciosa acontecendo dentro da política brasileira.

Ela não começou nos partidos.

Não nasceu nas Câmaras Municipais.

Nem nos gabinetes.

Ela nasceu dentro da tela de um celular.

Hoje, boa parte da política municipal brasileira deixou de ser construída nas ruas, nos bairros, nas audiências públicas ou no diálogo técnico com a população.

Ela passou a ser construída dentro das redes sociais.

Instagram.

Facebook.

TikTok.

WhatsApp.

YouTube.

E isso criou uma nova figura dentro do sistema político:

o vereador-influenciador.

O problema é que muitos agentes públicos ainda não compreenderam completamente o tamanho do risco institucional, jurídico e político que existe quando a atividade parlamentar passa a depender excessivamente da lógica emocional das redes.

Porque as redes sociais não funcionam pela lógica da verdade.

Funcionam pela lógica do engajamento.

E engajamento raramente premia equilíbrio, responsabilidade técnica ou prudência institucional.

O algoritmo recompensa:

conflito; polarização; ataque; humilhação pública; escândalo; emoção instantânea;e frases de efeito.

Quanto maior o choque, maior o alcance.

E é exatamente aí que começa o perigo para o Baby Boy Politico Digital.



A política saiu do plenário e entrou no algoritmo


Durante décadas, vereadores precisavam construir capital político através de presença comunitária, articulação institucional e prestação concreta de serviços públicos e no olho a olho com seus eleitores.


Hoje, muitos passaram a acreditar que a política pode ser substituída por performance digital e clicks.


O vídeo substituiu o debate técnico.


O corte de 30 segundos substituiu a análise profunda.


A lacração substituiu a responsabilidade pública.


E isso gera um efeito extremamente perigoso:


o mandato começa a ser conduzido não pelo interesse coletivo, mas pela necessidade constante de alimentar audiência e o ego do Boy Político.


Na prática, muitos parlamentares passaram a agir como produtores de conteúdo político em tempo integral, para aumentar seu ego de garoto digital. 


Cada crise vira oportunidade de postagem. Cada conflito vira palco.Cada problema administrativo vira cenário para construção de personagem.


O risco é brutal.


Porque o vereador deixa de atuar como agente institucional e começa a operar como influenciador emocional e patético.



O vício político da aprovação digital


As redes sociais produzem um fenômeno psicológico poderoso:


a dependência de validação pública instantânea.


  • Curtidas.

  • Compartilhamentos.

  • Comentários.

  • Visualizações.


Tudo isso gera sensação de aprovação permanente um erro FATAL.


O problema é que essa aprovação é extremamente instável.


A mesma multidão digital que hoje transforma um vereador em “herói do povo” pode destruí-lo em questão de HORAS.


E a política moderna está cheia desses exemplos.


As redes criam lideranças rapidamente. Mas também executam reputações em velocidade inédita. Basta ficarem atentos nos comentários de cada postagem...


Porque no ambiente digital não existe fidelidade política sólida. E isso os Baby Boys Políticos ainda não entenderam. 


Existe apenas fluxo emocional.


Hoje o algoritmo impulsiona. Amanhã ele enterra.


E muitos agentes públicos estão tomando decisões administrativas sérias baseados nessa lógica instantânea de aprovação.


Isso é perigosíssimo para qualquer democracia e qualquer aspirante a politico de coturno alto.



O risco jurídico que muitos ignoram


Grande parte dos vereadores brasileiros ainda não percebeu que as redes sociais não são “terra sem lei”.


Pelo contrário.


O ambiente digital passou a ser um dos espaços mais monitorados juridicamente do país.


A Constituição Federal garante liberdade de expressão no artigo 5º, inciso IV.


Mas a própria Constituição também protege:


a honra; a imagem; a intimidade; e a dignidade das pessoas.


Além disso, o artigo 37 da Constituição impõe princípios obrigatórios à administração pública:


legalidade; impessoalidade; moralidade; publicidade; e eficiência.


Isso significa que agentes públicos não possuem liberdade absoluta para agir nas redes sociais.


Muito menos quando utilizam sua posição institucional para influenciar opiniões, atacar adversários ou transformar estruturas públicas em instrumentos de promoção pessoal.


A própria jurisprudência brasileira vem consolidando entendimento de que:


agentes públicos podem responder civil, administrativa e até criminalmente por conteúdos publicados nas redes.


E os riscos são enormes:


ações por danos morais;i nvestigações por improbidade administrativa;abuso de poder político;uso indevido da máquina pública;desinformação;violação de dever funcional;e até cassações políticas em determinados contextos eleitorais.


O Marco Civil da Internet (Lei nº 12.965/2014) e a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) também passaram a ampliar responsabilidades sobre exposição indevida de informações, manipulação de conteúdo e utilização irregular de dados pessoais.


Ou seja:


o ambiente digital já se tornou extensão direta da responsabilidade pública.

E muitos ainda agem como se estivessem apenas “fazendo postagem”.

Não estão.


Estão produzindo documentos públicos permanentes.



O perigo da política baseada em emoção


Talvez o maior risco das redes sociais seja outro:


a destruição gradual da racionalidade política.


As redes não favorecem pensamento complexo.


Elas favorecem reação emocional imediata.


Isso empurra muitos vereadores para uma armadilha:


a necessidade permanente de radicalizar discursos para manter relevância.

Com o tempo, o parlamentar deixa de buscar solução real para os problemas públicos.


Ele passa a buscar apenas narrativa desenfreada para convencer a opinião pública que pode acabar com ele em pouco tempo.


E narrativa gera dependência.


Porque problemas resolvidos produzem pouco engajamento.


Mas crises produzem audiência gigantesca.


Esse talvez seja um dos fenômenos mais perigosos da política contemporânea:


a transformação da crise pública em produto digital.


A falsa sensação de poder


As redes sociais também criaram uma ilusão extremamente perigosa para muitos políticos:


a ideia de que audiência virtual significa força política real.


Não significa necessariamente.


Curtidas não são votos garantidos. Visualizações não representam credibilidade institucional. Compartilhamentos não significam competência administrativa.


Muitos agentes públicos acabam confundindo influência digital com legitimidade democrática.


E isso gera distorções graves.


  • Porque governar exige técnica.

  • Exige responsabilidade

  • Exige capacidade administrativa.

  • Exige preparo jurídico.

  • Exige equilíbrio emocional.


Coisas que o algoritmo não mede.


O algoritmo mede apenas atenção.


E atenção não é sinônimo de liderança.



O linchamento digital virou arma política


Outro fator extremamente preocupante é o crescimento do tribunal das redes sociais.


Hoje, qualquer denúncia, recorte, áudio ou vídeo pode destruir reputações antes mesmo de qualquer investigação oficial.


Isso vale para adversários.


Mas também vale para quem usa esse mecanismo diariamente.


Quem transforma as redes em campo permanente de ataque político também passa a viver sob risco constante de retorno.


Porque o ambiente digital não possui controle absoluto.


A multidão virtual não possui lado permanente.


Ela apenas reage ao estímulo mais forte do momento.


E muitos vereadores estão descobrindo tarde demais que o mesmo algoritmo que os impulsionou pode se tornar instrumento de destruição política irreversível.



O parlamentar do futuro precisará ser mais técnico do que midiático


O Brasil talvez esteja entrando numa nova fase política.


Uma fase em que a população começará a perceber que:


vídeos emocionados não substituem gestão pública eficiente.


A sociedade começa lentamente a entender que:


saúde pública não melhora com reels; segurança pública não melhora com stories; educação não melhora com cortes viralizados; e administração pública não funciona no ritmo do TikTok.


Existe uma diferença brutal entre comunicação pública e espetáculo político.


E talvez o maior desafio institucional dos próximos anos seja exatamente esse:


reconstruir a política como espaço de responsabilidade — e não apenas de performance digital.


Porque no fim, a pergunta que começa a crescer silenciosamente dentro da sociedade é extremamente simples:


os agentes públicos ainda governam pensando no interesse coletivo…


... ou passaram a governar pensando somente no próximo vídeo?

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