O homem que carregava um porco
- Bruno Oliveira

- há 8 horas
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ou de como aprendemos a ler o mundo errado
Por Bruno Oliveira - Diretor da UNIPAR
Outro dia me contaram uma história dessas que eu, homem da casa das letras, finjo duvidar só para que me contem de novo. Um homem atravessava a cidade com um porco vivo sobre os ombros.
Um porco. Vivo. Às dez da manhã.
Você já entende que ninguém atravessa uma cidade assim sem fundar uma multidão. E a nossa espécie, diante do inexplicável, faz a única coisa que de fato sabe fazer: explica. De preferência, complicado.

O primeiro a se pronunciar foi um ativista. Para ele, a cena era óbvia: um protesto performático contra a exploração dos animais pelo sistema. Há pessoas, como se sabe, para quem tudo, inclusive o almoço, é uma denúncia ao sistema. Veio em seguida um psicólogo, que diagnosticou no sujeito uma carência afetiva profunda, talvez uma fixação mal resolvida; pois para quem só tem o martelo da psicanálise, todo ombro curvado é um trauma à espera de tradução. O líder religioso, com a serenidade de quem nunca duvidou de nada, garantiu tratar-se do pagamento de uma promessa, um ritual de purificação. E o policial, que desconfia por ofício, já reparava na pressa e nas roupas do homem: aquilo, para ele, cheirava a furto.
Quatro pessoas, quatro certezas, um porco só.
Cansados de teorizar, resolveram afinal fazer o que ninguém havia pensado em fazer: perguntar. Cercaram o homem e exigiram dele o sentido profundo de tudo aquilo. E o sujeito, coitado, que só queria chegar ao centro antes que o bicho se cansasse, respondeu com a verdade mais simples do mundo:
“Significado? Nenhum. Apostei vinte reais com o meu vizinho que carregava este porco até a praça sem deixá-lo cair.”
Vinte reais. Era esse o símbolo oculto. A revolução, o trauma, a promessa e o crime couberam, no fim, numa nota amassada de vinte reais e numa tarde de tédio entre vizinhos.
Eu rio dessa história, confesso, mas rio torto. Rio porque sei que, se estivesse na calçada, teria inventado a minha teoria também, e provavelmente a mais bem escrita das cinco, o que apenas a tornaria a mais elegante das mentiras. Esse é o problema das pessoas cultas: erramos com mais estilo, e o estilo nos convence de que acertamos.
Porque o que aconteceu naquela esquina não foi uma reunião de tolos. Foi uma reunião de especialistas. Cada um deles olhou para o mesmo fato, um homem, um porco, uma rua, e enxergou exatamente aquilo que a própria vida o havia treinado para enxergar. Ninguém mentiu. Cada um disse a mais sincera das verdades: a sua. E é nessa sinceridade toda que mora o perigo.
Houve um italiano chamado Umberto Eco, romancista célebre, professor genial, sujeito de barba e de bom humor, que passou a vida estudando precisamente esse vexame. A pergunta que o ocupou não poderia ser mais simples nem mais traiçoeira: o que significa, afinal, compreender alguma coisa?
A resposta que a gente daria de primeira é tentadora: compreender seria descobrir o sentido verdadeiro escondido nas coisas, como quem desenterra um tesouro. Eco mostrou que essa imagem é uma ilusão simpática. Um texto, e no fundo qualquer coisa que a gente interpreta, de um poema a um porco na rua, não vem com o sentido embrulhado dentro. Ele se parece mais com um convite: pede que o leitor entre e ajude a montar o significado. Eco chegava a dizer, com aquela malícia dos professores que gostam da própria matéria, que o texto é uma máquina preguiçosa: empurra metade do trabalho para quem lê.
Até aqui, tudo bem. O problema começa quando o leitor faz trabalho demais. Uma coisa é o texto pedir a sua colaboração; outra, bem diferente, é você tomar conta da obra e fazer dela o que bem entender. Dizer que toda interpretação é livre não significa que toda interpretação valha. Há leituras que o fato sustenta e há leituras que ele recusa, por mais bonitas que sejam. Quando alguém força na realidade um sentido que ela não comporta, torcendo os fatos até que confessem aquilo que a gente já tinha decidido ouvir, Eco dava ao crime um nome certeiro: superinterpretação.
Os quatro da calçada são quatro superintérpretes flagrantes. Cada um chegou com a conclusão pronta na bagagem e usou o pobre porco apenas como cabide. O ativista trouxe a revolução de casa; o psicólogo, o divã; o religioso, o altar; o policial, a cela. O porco não significava nada disso. O porco significava vinte reais. Mas confessar isso seria admitir que a manhã não tinha mistério nenhum, e a mente culta, diante do banal, sente uma espécie de vertigem e corre a inventar profundidade. É mais fácil suportar um símbolo do que uma coincidência.
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O estrago, convém dizer, não é apenas intelectual. Há um jurista brasileiro, Lenio Streck, que tomou emprestada de um velho filósofo alemão, Lichtenberg, uma imagem da qual me apaixonei e que devolvo aqui com juros. Um conceito esvaziado, solto de qualquer base, vira o quê? Uma faca sem lâmina, à qual falta também o cabo.
Pare um instante nessa faca. Tire-lhe a lâmina: já não corta. Tire-lhe o cabo: já não dá nem para segurar. O que sobra é o nada com formato de utensílio, um objeto que parece uma faca, que talvez até brilhe na gaveta, mas que não serve para a única coisa que uma faca existe para fazer. É isso que a superinterpretação produz quando vence: ideias que reluzem e não cortam. Diagnósticos que impressionam e não curam. Teorias que explicam o universo inteiro e não ajudam a decidir nada. Discurso bonito que não resolve coisa alguma, e desse eu, francamente, ando com cada vez menos paciência.
Agora repare numa coisa que aquela história, de tão engraçada, quase esconde: os quatro intérpretes não eram passantes quaisquer. Eram profissionais. E isso não é uma piada do conto, é o seu recado mais sério. Interpretar não é um passatempo que praticamos diante de cenas curiosas. É, literalmente, o que toda profissão faz o dia inteiro, mesmo quando jura que está apenas aplicando técnica.
O médico não “sabe” a doença: ele lê sintomas, como quem decifra um bilhete escrito às pressas, e arrisca uma história capaz de explicá-los. O advogado não “aplica” a lei: ele a interpreta, porque a lei foi escrita de propósito em termos largos, para caber em casos que o legislador nunca imaginou. O professor lê a sala. O gestor lê o silêncio constrangido de uma reunião. O auditor lê os números à cata daquilo que eles tentam não dizer. O vendedor lê o cliente que pede uma coisa quando deseja outra. Em todos, a matéria-prima é invisível e é sempre a mesma: o sentido.
E em todos ronda o mesmo policial da calçada, aquele que viu o furto antes de ouvir a primeira palavra. É o médico que se apaixona pela primeira hipótese e, dali em diante, só enxerga o que a confirma. É o chefe que decidiu que o funcionário é desleixado e passa a colecionar provas do desleixo, distraído de todas as provas do contrário. O nome técnico disso é viés de confirmação. O nome honesto é teimosia com diploma.
Aqui a crônica para de rir e me encara. Existe uma competência que nenhum currículo ensina, que não cai em prova nem aparece no diploma, e que mesmo assim separa o profissional mediano do excelente: a coragem de não concluir cedo demais. De segurar a hipótese por mais um instante. De suportar o desconforto de ainda não saber, em vez de comprar a primeira certeza que passa oferecendo alívio.
Isso não é refinamento de intelectual ocioso; é vantagem prática, das grossas. Quem segura a pergunta por mais um minuto recolhe a evidência que o apressado já jogou fora, e decide melhor. O médico que pergunta mais um pouco erra menos o diagnóstico.
O gestor que pergunta antes de demitir perde menos gente boa. O juiz que pergunta antes de condenar arruína menos vidas. Perguntar antes de concluir talvez seja a coisa mais barata do mundo a fazer o maior estrago quando não se faz.
E é curioso que a literatura, essa coisa supostamente inútil que tanta gente despreza, seja o melhor treino que conheço para isso. Ninguém entendeu a superinterpretação melhor que Nelson Rodrigues. O teatro dele e os seus contos estão povoados de maridos que transformam um vestido novo, um atraso de meia hora, um perfume diferente, na prova cabal e definitiva de um adultério. O ciúme rodriguiano é a superinterpretação em estado bruto: o homem não vê o que a mulher fez, vê o que ele já tinha decidido que ela fez, e mata por causa de uma leitura. A tragédia, em Nelson, quase nunca nasce do fato. Nasce da interpretação.
O leitor assiste, impotente, a um sujeito erguer, tijolo por tijolo, com lógica impecável sobre premissas falsas, a desgraça da própria casa. Quem aprende a desconfiar desse mecanismo numa página aprende, de quebra, a desconfiar dele num consultório, num tribunal, numa sala de reunião. A literatura é um simulador de julgamento, e custa muito menos que o erro de verdade.
Não escrevi esta crônica para que você saia por aí com uma teoria nova debaixo do braço. Pelo contrário. Escrevi para que você passe a desconfiar um pouco das teorias, sobretudo das suas, que são as mais convincentes e, por isso mesmo, as mais perigosas.
Nos capítulos que vêm, vamos visitar profissões inteiras flagradas em seus dilemas, e em cada uma encontraremos um escritor que já havia entendido a confusão antes de a faculdade existir. Mas o porco nos acompanha do começo ao fim, como uma espécie de santo padroeiro da humildade. Toda vez que você sentir aquela vontade deliciosa de explicar o mundo inteiro com uma frase só, ele estará ali, no seu ombro, grunhindo baixinho a pergunta que custou vinte reais e vale uma vida de bons julgamentos:
“e se, desta vez, não significar nada?”

















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