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O fim da mamata: por que 2028 vai cobrar a conta de quem só indicou e nunca geriu

Prefeituras lotadas de apadrinhados sem experiência técnica deixam para trás promessas não cumpridas — e o relógio das urnas já está correndo


Por Marcio Nolasco

Analista de Políticas Públicas — ENAP


Faltam pouco mais de dois anos para o fim de um ciclo que se repete, cidade após cidade, mandato após mandato, há décadas: o das administrações municipais infladas por indicação política, ocupadas por secretários, chefes de gabinete e assessores que devem seu cargo a uma amizade, a um padrinho eleitoral ou a um acerto de última hora — e não a qualquer experiência prévia na área que passaram a comandar.



O calendário não perdoa. Em 2026, o país elege presidente, governadores, senadores e deputados. Em 2028, é a vez das prefeituras. E para boa parte dos prefeitos que hoje estão em seu segundo mandato, a Constituição já decretou o fim da linha: sem possibilidade de reeleição, eles e todo o séquito de comissionados que os cercou por oito anos terão, obrigatoriamente, que deixar o poder.


Uma engrenagem que sempre existiu — e que sempre teve limites


É verdade que cargos de livre nomeação não são, em si, um problema. Servem para que um governo eleito tenha, dentro da máquina pública, gente de sua confiança capaz de traduzir promessas de campanha em ação. Isso é normal, é até saudável para a democracia: sem esse instrumento, qualquer plano de governo morreria afogado na resistência de uma burocracia que não escolheu ninguém.


O problema começa quando esse instrumento deixa de ser exceção qualificada e vira regra desqualificada. Estudos recentes sobre a administração pública brasileira já apontam que a manutenção de um número excessivo de cargos comissionados, quando não baseados em qualificação técnica ou mérito, compromete a eficiência do processo administrativo e introduz incerteza onde deveria haver continuidade. Não é opinião de quem só observa de fora: é um alerta que vem de dentro da própria estrutura de Estado.


O padrão que se repete em milhares de municípios


Basta caminhar pelos corredores de qualquer prefeitura de porte médio no interior do país para reconhecer o retrato: secretarias inteiras entregues a nomes recém-chegados à gestão pública, principalmente nas secretarias de saude, sem qualquer trajetória na pasta que assumem, escolhidos não pelo currículo, mas pelo capital eleitoral que trazem consigo — o cabo eleitoral que "entregou" um bairro, o cunhado do vereador aliado, o operador de bastidores que ajudou a fechar a coligação ou um indicado por um parceiro político do prefeito que não tinha mais espaço em outra cidade ou repartição pública por muito atrevimento.


O resultado, ano após ano, é o mesmo: projetos que não saem do papel, contratos mal desenhados, servidores de carreira desmotivados por responder a chefes sem noção mínima da área, e uma população que aplaude discursos de posse cheios de promessas — para, quatro anos depois, constatar que praticamente nada daquilo saiu do papel e suas pastas deixam uma herança catastróficas para os futuros gestores municipais...


O que a virada de 2028 vai escancarar


Quando o segundo mandato acaba, acaba tudo junto: o prefeito, o secretariado, os assessores especiais, os chefes de departamento indicados. Não sobra estrutura, não sobra memória institucional, não sobra sequer quem explique ao sucessor por que determinado processo trava há anos. Sobra, isso sim, a sensação de início eterno — cada gestão recomeçando do zero, reinventando a roda que a anterior já deveria ter deixado rodando, e junto vai as promessas de uma cidade que terá um futuroi ESPETACULAR daqui 10, 20, 30 anos... só ilusão e conversa política das prefeituras do Mundo das Maravilhas de Alice...


É esse ciclo que está com os dias contados em milhares de municípios brasileiros. Alguns destes cargos comissionados já serão desligados agora em novembro/2026 naquelas prefeituras onde ocorra que o candidato ao governo do estado, aliado do prefeito venha a perder as eleições, pronto adeus para as "mamatas". E é justamente por isso que hoje todas os indicados para esses cargos viram meros cabos eleitorais pagos com o dinheiro público...


E é justamente por isso que vale o alerta, hoje, com dois anos de antecedência: o eleitor de 2028 não vai escolher apenas um nome na cédula — vai decidir se quer mais quatro anos de aparelhamento por indicação, ou se está disposto a cobrar, enfim, currículo, experiência e compromisso técnico de quem promete administrar o dinheiro público.


A conta que ainda pode ser paga em votos


Ninguém está sugerindo o fim dos cargos de confiança — isso seria ingenuidade institucional. O que está em jogo é outra coisa: exigir que a confiança política venha acompanhada de competência comprovada, e que o eleitor, mais informado, comece a olhar para o secretariado tanto quanto olha para o candidato a prefeito.


Faltam pouco mais de dois anos. É tempo suficiente para que a sociedade civil, a imprensa e os próprios partidos comecem a perguntar, antes da posse e não depois do desastre: quem vai assumir cada secretaria, e por que essa pessoa está qualificada para isso? Se essa pergunta virar hábito, talvez 2028 marque, finalmente, o início do fim da mamata.


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a posição do Portal Bisbilhoteiro.

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