O FAROESTE DA SEGURANÇA PÚBLICA: O BRASIL FINGE COMBATER O CRIME ENQUANTO O PCC CRESCE NAS FRONTEIRAS ABANDONADAS
- Marcio Nolasco

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Entre discursos heroicos, cadeias lotadas e fronteiras abertas, o país transformou a segurança pública num teatro político permanente
Por Marcio Nolasco - Analista de Políticas Públicas - ENAP
*Este artigo foi criado com base em debate no seleto grupo de whatsApp - Tá por Dentro!

O Brasil vive há décadas dentro de uma gigantesca fraude narrativa chamada “combate ao crime”.
Uma encenação.
Um teatro político repetido por governos de esquerda, direita, centro, militares, civis, populistas e tecnocratas.
Muda o presidente.
Mudam os ministros.
Mudam os slogans.
Mas o roteiro continua exatamente o mesmo.
É o velho filme de faroeste barato que passava na televisão décadas atrás.
O mocinho de terno impecável correndo atrás do bandido.
Discursos inflamados.
Promessas heroicas.
Revolveres infinitos.
A população aterrorizada.
E, no final, a promessa de vitória da lei sobre o crime.
Só que, no Brasil real, o mocinho perdeu faz tempo.
E os bandidos descobriram isso antes de todo mundo.
Desde 1977, quando começou a conviver diretamente com a criminalidade dentro do Ministério Público, uma geração inteira de operadores do sistema viu exatamente a mesma engrenagem se repetir:
sempre que um crime ganha repercussão nacional, nasce uma nova lei penal.
Mais dura.
Mais barulhenta.
Mais vendida pela televisão.
Mais inútil.
A política criminal brasileira virou refém do espetáculo midiático.
O Congresso produz leis em série como se estivesse fabricando manchetes.
A mídia vende sensação de reação.
Os governos anunciam “tolerância zero”.
E as organizações criminosas continuam expandindo território, faturamento e poder armado.
Porque o problema nunca foi falta de lei.
O Brasil já possui um dos sistemas penais mais extensos do planeta.
O problema é que ninguém executa aquilo que já existe.
O PAÍS QUE CONDENA… MAS NÃO PRENDE
O retrato do colapso é brutal.
Segundo dados do Conselho Nacional de Justiça, o Brasil possui hoje cerca de 630 mil mandados de prisão aguardando cumprimento.
Seiscentos e trinta mil.
No Paraná, a estimativa gira em torno de 30 mil mandados.
Na prática, significa que a Justiça condena.
O juiz manda prender.
Mas o Estado simplesmente não consegue executar a própria decisão.
Porque faltam policiais.
Faltam investigadores.
Faltam viaturas.
Faltam sistemas integrados.
Falta inteligência.
E, principalmente:
Faltam cadeias.
Essa é talvez a maior hipocrisia nacional no debate sobre segurança pública.
Todo político promete prender criminosos.
Mas ninguém quer construir presídios.
Nenhum prefeito quer penitenciária na sua cidade.
Nenhum deputado quer desgaste político defendendo cadeia.
E parte da própria imprensa costuma insuflar revoltas populares sempre que surge qualquer projeto de expansão do sistema prisional.
Resultado?
Delegacias superlotadas.
Cadeias colapsadas.
Penitenciárias operando acima do limite humano.
E criminosos que sequer chegam a cumprir pena porque simplesmente não existe estrutura física para encarcerá-los.
Quem duvida deveria visitar cadeias em cidades como Maringá, Cianorte, Paranavaí, Sarandi ou Paiçandu.
O cenário é o mesmo:
superlotação, sucateamento e colapso operacional.

A POLÍCIA SOBREVIVE NO IMPROVISO
O discurso oficial fala em “guerra contra o crime”.
Mas o que existe na prática é improviso.
As polícias brasileiras trabalham sem integração real.
Cada corporação atua muitas vezes isoladamente, sem coordenação eficiente.
Não existe plano nacional consistente de policiamento preventivo.
Não existe presença permanente de vigilância tecnológica nas áreas críticas.
E faltam investimentos básicos até para os institutos de criminalística.
O Brasil possui excelentes peritos.
Excelentes delegados.
Excelentes investigadores.
Profissionais altamente preparados.
Mas operando dentro de estruturas degradadas.
Faltam materiais periciais.
Faltam equipes técnicas.
Faltam escrivães.
Faltam servidores administrativos.
Falta tecnologia.
Falta inteligência integrada.
Falta Estado.
Enquanto isso, o crime organizado profissionalizou sua logística, sua inteligência financeira, sua comunicação e seu domínio territorial.
O PCC e o CV não enfrentam mais um Estado forte.
Enfrentam um Estado cansado, fragmentado e burocraticamente paralisado.

AS FRONTEIRAS ABANDONADAS: O PARAÍSO DAS FACÇÕES
Talvez o retrato mais humilhante dessa falência esteja nas fronteiras brasileiras.
Basta olhar para regiões como Guaíra, Foz do Iguaçu, Altônia, São Jorge do Patrocínio ou Icaraíma.
Rotas históricas de tráfico.
Corredores logísticos do crime.
Regiões ribeirinhas vulneráveis.
Áreas gigantescas praticamente impossíveis de fiscalizar com a estrutura atual.
O Estado brasileiro não controla integralmente suas fronteiras.
E as organizações criminosas sabem disso há muito tempo.
Enquanto o discurso político promete “combate implacável”, drogas, armas, cigarros contrabandeados e munições continuam cruzando rios, estradas vicinais e corredores clandestinos com uma facilidade constrangedora.
Agora surge um novo elemento explosivo nesse debate.
O senador Hamilton Mourão afirmou publicamente em sua conta no X que o governo Lula estaria congelando mais de R$ 4 bilhões destinados à defesa estratégica das fronteiras.
Se confirmado integralmente, o gesto amplia ainda mais o questionamento:
Como combater facções transnacionais reduzindo capacidade operacional justamente nas áreas mais vulneráveis do território?

O FANTASMA DE TRUMP E A ILUSÃO DO “COMBATE TOTAL”
É nesse ambiente de colapso estrutural que surgem discursos internacionais prometendo enfrentamento duro contra facções como PCC e Comando Vermelho.
O ex-presidente Donald Trump voltou a defender medidas agressivas contra organizações criminosas internacionais.
Mas a pergunta central talvez seja outra:
O problema brasileiro é realmente falta de discurso duro?
Ou é ausência absoluta de capacidade operacional do próprio Estado?
Porque leis o Brasil já possui.
Discursos também.
O que falta é estrutura.
Falta presença territorial.
Falta integração policial.
Falta inteligência.
Falta investimento.
Falta cadeia.
Falta coragem política para enfrentar o custo eleitoral de medidas impopulares.
E talvez exista uma ironia brutal escondida nisso tudo.
Os mesmos setores políticos, empresariais e midiáticos que historicamente resistem à construção de presídios seriam capazes de apoiar um grande programa de expansão penitenciária caso viesse embalado sob a bandeira internacional de combate ao PCC e ao CV?

Ou continuaremos presos ao velho teatro nacional:
Discursos cinematográficos para uma população assustada enquanto o crime organizado avança sobre um Estado incapaz de cumprir as próprias decisões judiciais?
O Brasil não vive uma crise pontual de segurança pública.
"O Brasil vive a falência histórica do modelo inteiro".

















Muito bom.