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O CARGO É DE DEPUTADO. O MÍNIMO É SABER FALAR, LER E PENSAR

Por Marcio Nolasco — Opinião | Portal Bisbilhoteiro


Estamos em pleno século XXI.


A inteligência artificial já escreve textos, traduz idiomas, analisa dados, produz imagens, auxilia médicos, engenheiros, advogados, pesquisadores e está entrando praticamente em todas as áreas da vida humana. O cidadão carrega no bolso uma tecnologia que, há poucas décadas, pareceria coisa de ficção científica.


Mas, paradoxalmente, quando chega a hora de escolher quem vai representar esse cidadão na Assembleia Legislativa do Paraná, ainda somos obrigados a assistir a candidatos que demonstram, publicamente, dificuldades elementares de comunicação, de vocabulário e até de construção de frases.


E aqui é preciso dizer algo que talvez incomode.


Ser candidato a deputado estadual não é brincadeira. Não é concurso de popularidade. Não é reality show. E muito menos uma oportunidade para transformar o mandato em extensão de rede social.


O deputado estadual terá a responsabilidade de discutir leis, fiscalizar o Poder Executivo, analisar orçamento, debater políticas públicas, questionar secretários, participar de comissões, estudar projetos e representar milhares — às vezes centenas de milhares — de paranaenses.


É um cargo que exige preparo.


Não estou defendendo que o candidato precise ser um intelectual, um acadêmico ou possuir meia dúzia de diplomas pendurados na parede. Democracia não é concurso universitário.


Mas existe uma diferença gigantesca entre não possuir diploma universitário e não possuir preparo intelectual mínimo para exercer uma função pública complexa.

E essa diferença precisa ser discutida.




“ELEUGIDO” NÃO É APENAS UM ERRO DE PORTUGUÊS


Quando um candidato aparece em vídeos, propagandas ou redes sociais dizendo que deseja ser “eleugido”, o problema não é simplesmente o erro gramatical.

O problema é simbólico.


Porque estamos falando de alguém que pretende ocupar uma cadeira na Assembleia Legislativa e participar diretamente da construção das leis que irão organizar a vida de milhões de pessoas.


Se o candidato não domina sequer a comunicação básica, como pretende interpretar uma legislação de dezenas de páginas?


Como pretende compreender uma emenda constitucional?


Como pretende analisar uma peça orçamentária?


Como pretende questionar tecnicamente um secretário de Estado?


Como pretende discutir segurança pública, saúde, educação, infraestrutura, previdência, tecnologia, desenvolvimento econômico ou políticas sociais?


Como pretende fiscalizar aquilo que não consegue sequer compreender adequadamente?


É preciso parar com essa história de que exigir preparo é preconceito.

Não é.


Preconceito seria impedir alguém de disputar uma eleição por sua origem social, condição econômica ou profissão.


Exigir competência para exercer uma função pública é responsabilidade democrática.


O ELEITOR NÃO PODE TER VERGONHA DO SEU REPRESENTANTE


O deputado não representa apenas a si mesmo.


Quando ele sobe à tribuna da ALEP, não fala apenas em seu próprio nome.


Ele fala em nome de milhares de eleitores.


Quando participa de uma audiência pública, de uma comissão parlamentar ou de uma negociação institucional, ele carrega consigo a representação de uma parcela da sociedade.


Por isso, o eleitor deveria fazer uma pergunta muito simples antes de apertar o botão da urna:


“Eu confiaria a essa pessoa a responsabilidade de discutir uma lei que afetará a minha família?”


Essa pergunta vale mais do que um vídeo engraçado.


Vale mais do que uma dancinha.


Vale mais do que uma promessa de campanha.


Vale mais do que um slogan.


Vale mais do que milhares de seguidores.


Porque mandato parlamentar não se exerce com curtidas.


Mandato se exerce com conhecimento, capacidade de argumentação, leitura, discernimento e responsabilidade.


A DEMOCRACIA NÃO PODE SER REFÉM DA POPULARIDADE


Existe hoje uma perigosa confusão entre ser famoso e estar preparado.


Um candidato pode ter milhares de seguidores e não saber absolutamente nada sobre administração pública.


Pode ser excelente comunicador de redes sociais e péssimo legislador.


Pode conseguir viralizar um vídeo e, ao mesmo tempo, não conseguir sustentar cinco minutos de debate sobre orçamento público.


Pode ser extremamente popular e intelectualmente despreparado.


E o problema não está apenas no candidato.


Está também no eleitor.


Porque, se continuarmos escolhendo representantes exclusivamente pela capacidade de produzir conteúdo para internet, teremos cada vez mais políticos especialistas em algoritmo e cada vez menos especialistas em políticas públicas.


A democracia não pode virar um concurso de quem viraliza mais.


NÃO BASTA SABER PEDIR VOTO


Um deputado precisa saber estudar.


Precisa saber ouvir.


Precisa saber interpretar.


Precisa saber argumentar.


Precisa saber discordar.


Precisa saber negociar.


Precisa saber reconhecer quando está errado.


Precisa saber diferenciar uma informação verdadeira de uma mentira conveniente.


E, principalmente, precisa ter humildade para reconhecer que não sabe tudo e buscar conhecimento antes de tomar decisões.


Isso é inteligência política.


E inteligência política não nasce de um número de seguidores.


Nasce de educação, experiência, leitura, estudo, capacidade crítica e maturidade.


O PARANÁ MERECE MAIS


O Paraná é um dos estados mais importantes do Brasil.


Tem uma economia diversificada, universidades, indústria, agronegócio, tecnologia, comércio, serviços e milhões de cidadãos que enfrentam diariamente problemas complexos.


Esse Paraná merece deputados capazes de discutir o futuro.


Não apenas de reproduzir frases prontas.


Merece parlamentares que saibam ler um projeto de lei.


Que entendam o orçamento público.


Que consigam interpretar indicadores econômicos.


Que conheçam minimamente a Constituição.


Que saibam conversar com especialistas.


Que tenham capacidade de formular propostas.


Que consigam subir à tribuna e apresentar argumentos — e não apenas slogans.


O cidadão paranaense não precisa de mais um influenciador ocupando uma cadeira parlamentar. Precisa de representante.


E NÃO, ISSO NÃO É ELITISMO


Talvez alguém diga: “Mas o povo simples também tem direito de ser deputado”.


Claro que tem.


E deve ter.


A origem social jamais pode ser uma barreira para a política.


Mas uma coisa é ser simples.


Outra coisa é ser despreparado.


Uma coisa é não ter diploma universitário.


Outra coisa é não ter disposição para estudar.


Uma coisa é falar com sotaque, cometer eventualmente um erro de português ou não possuir uma oratória sofisticada.


Outra coisa é demonstrar, reiteradamente, que não possui o conhecimento mínimo necessário para compreender a função que pretende exercer.


A política precisa ser popular, mas não pode ser intelectualmente medíocre.


A URNA TAMBÉM É UMA PROVA


O eleitor não precisa exigir candidatos perfeitos.


Precisa exigir candidatos minimamente preparados.


Antes de votar, deveria perguntar:


O que essa pessoa estudou?


O que ela conhece sobre o Estado?


Qual sua experiência profissional?


Quais projetos apresentou?


Consegue explicar suas propostas?


Sabe argumentar sem recorrer a ataques pessoais?


Conhece minimamente o funcionamento do Legislativo?


Tem capacidade para fiscalizar um governo?


Essas perguntas são muito mais importantes do que saber quantos seguidores o candidato possui.


Porque depois da eleição, quando a propaganda termina e os fogos de artifício desaparecem, sobra uma coisa:


O mandato.


E é justamente aí que a falta de preparo aparece.


Estamos vivendo uma revolução tecnológica.


A inteligência artificial já consegue fazer em segundos aquilo que exigia horas de trabalho humano.


O mundo está acelerando.


As profissões estão mudando.


A economia está mudando.


A comunicação está mudando.


A sociedade está mudando.


E a política também precisa mudar.


Não podemos aceitar que, enquanto a tecnologia exige cada vez mais qualificação dos cidadãos, a política continue tratando o eleitor como se bastasse alguém ser conhecido, simpático ou popular para ocupar uma cadeira na Assembleia Legislativa.


Não basta.


Quem quer fazer leis precisa saber estudá-las.


Quem quer fiscalizar precisa saber compreender.


Quem quer representar precisa saber argumentar.


E quem quer governar ou legislar precisa, no mínimo, demonstrar disposição para aprender.


Porque o mandato de deputado estadual não é prêmio.


É responsabilidade.


A cadeira na ALEP não pertence ao candidato.


Pertence ao povo.


E talvez esteja na hora de o eleitor começar a exigir algo que deveria ser óbvio:


menos celebridade política, menos improviso e menos candidato “eleugido”.


Mais preparo. Mais estudo. Mais competência. Mais inteligência.


Porque, no século da inteligência artificial, não é aceitável que a política continue funcionando na base da ignorância natural.

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