O calvário dos “isentões” na pior eleição da história.
Praticamente nenhum de nós, acompanha a sucessão presidencial em outros países, mas acho razoável que nos seja concedido o direito de carimbar as eleições brasileiras de 2026 como uma das mais ridículas da história da democracia.

Simplesmente, o foco nas pautas realmente importantes tende a zero porque são suplantadas pelas enxurrada de notícias ruins que nivelam e, ao mesmo tempo, diferenciam os dois postulantes principais, inclusive porque notícia ruim sempre rende mais audiência e, portanto, só conseguimos falar de Lula ou Flávio Bolsonaro que estão muito distantes de convencer o eleitor que se mantem sóbrio, excluídas as torcidas organizadas dos dois polos que aceita e aplaude literalmente a tudo.
Seguindo por ordem alfabética porque o patrulhamento ideológico controla cada detalhe, podemos afirmar com segurança que Flávio Bolsonaro vai terminar as eleições sem conseguir explicar sua relação com Daniel Vorcaro, muito menos como o filme Dark Horse pode ter custado mais que o dobro de grandes produções do cinema mundial ou quatro vezes mais que os mais premiados filmes nacionais. A razão é muito simples e os subterfúgios irritam a cada vez menor fatia de brasileiros isentos da contaminação ideológica que estimula o debate insano entre as torcidas organizadas de cada candidato, porque o Banco Master foi o papai Noel da família Bolsonaro, como de resto de quase toda a elite política brasileira.
Na situação, a incoerência também tem traços genéticos misturados com suspeitas consistentes de tráfico de influência praticados pela lobista amiga do primeiro filho Lulinha. O presidente pratica intensa ginástica verbal para evitar contaminação com a relação pecaminosa de seu ex-chefe de gabinete Marcola com a mesma lobista ou a aparente intromissão de seu filho em assuntos do Estado.
Se não bastasse as contradições pessoais de cada candidato, o STF resolveu assumir de vez o seu lado político e, como no legislativo, sujeita a população surpresa a assistir o debate entre o líder da direita no judiciário, ministro André Mendonça, como líder da esquerda, ministro Alexandre de Moraes, cujo embate tem potencial para decidir as eleições pela octanagem da pauta explosiva que derrete o saldo de credibilidade que ainda restava ao Supremo.
Com quase metade dos ministros pegos com o batom do Vorcaro tatuado em suas roupas íntimas, cena obscena autorizada com vultuosos contratos de honorários ou patrocínio, sempre justificados pela estranha coincidência que transforma, por ação da varinha mágica do poder, parentes de ministros nos mais competentes advogados das terras tupiniquins, portanto merecedores de honorários de fazer inveja aos pobres mortais pagadores de impostos, também chamados de trabalhadores brasileiros.
Assistimos uma deturpação do nosso processo eleitoral, desfigurando a lógica da eleição em dois turnos, onde se deveria escolher o melhor no primeiro turno e definir o seguinte pelo índice de rejeição, porque as narrativas convencem gente culta de ambos os lados, que a despeito da ação danosa dos algoritmos das redes, ainda existem em abundância, que todo mundo é OBRIGADO a votar em um dos dois polos, sob pena de ser acusado frontalmente de defensor do lado oposto, porque criaram uma risível teoria de voto útil, como se os cada vez menos relevantes votos dos independentes, por conta de algum comando das sempre suspeitas urnas eletrônicas, fossem automaticamente computados para o lado do “mau”, seja ele qual for.
Exatamente o raciocínio que, como em um círculo desvirtuoso, nos escraviza na polarização que suplanta a inteligência e nos impede de usar critérios racionais para definição do voto. Por imposição das hordas amarela ou vermelha, somos reféns da disputa odiosa e, dedos em riste, carimbados como “isentões”, mácula terrível no histórico de qualquer eleitor que resolve exercer o direito da livre escolha.
Pobres candidatos alternativos. Ronaldo Caiado e Romeu Zema, credenciados por duas gestões bem avaliadas, ou o combativo Renan Santos que chuta o balde da hipocrisia da nossa política, ou a novidade Augusto Curi que, em nome da nação brasileira, brada por paz política e bom senso na hora de votar. Nada disto importa porque a “imposição” emocional e a imprescindível sensação de pertencimento exigem que cada cidadão se enquadre em uma das duas “caixas” admitidas em cada canto do ringue eleitoral, reservadas, respectivamente para o boxeador do bem e do mau, restando apenas que cada um faça sua aposta eleitoral.
Não ouse falar em terceira via ou voto independente porque ser “isentão” é muuuuito mais grave do que ser radical. Se conceder o direito de ouvir os dois lados e buscar pontos positivos em cada um deles, usar o cérebro para avaliar convergências, são ações condenáveis pelo senso comum do cidadão ideologicamente comprometido.
Não tenho bola de cristal para saber quem vence o confronto, mas me restam neurônios em número suficiente para afirmar que o grande derrotado atende pelo nome de povo brasileiro.




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