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O Brasil que esperamos

há 4 horas
5 min de leitura

Hoje cedo, 04/10/26, antes que o sol comece a castigar o asfalto, milhões de brasileiros sairam de casa com o título de eleitor no bolso. Alguns levarão os filhos pela mão, como meu pai me levava, para que a criança veja de perto aquele gesto silencioso diante da urna. Haverá fila na escola do bairro, conversa sobre o calor, um vizinho que a gente não via fazia meses. E haverá, sobretudo, uma esperança que o brasileiro carrega há tanto tempo que já nem sabe dizer quando começou.

 

Não é uma esperança barulhenta. É a vontade simples de acordar num país em que a vida não dependa da sorte. Em que a mãe não fique acordada até o filho voltar da faculdade, contando os minutos e os barulhos da rua. Em que o comerciante abra a porta de manhã sem medo de quem vai entrar por ela. A segurança, que deveria ser o chão sobre o qual tudo se constrói, virou para muitos de nós um luxo, e é isso que pesa no peito de quem vai votar.

 

Queremos estabilidade. Uma palavra sem glamour, que não rende curtida nem viraliza. Roger Scruton lembrava que as coisas boas são facilmente destruídas, mas não facilmente criadas, e poucas coisas são tão difíceis de construir quanto a confiança de um povo em suas instituições. Estabilidade é saber que a regra de hoje valerá amanhã, que o contrato assinado será respeitado, que o jovem que estuda terá onde trabalhar quando terminar o curso. É o que permite ao pequeno empresário planejar o próximo ano e ao professor acreditar que a sala de aula ainda muda destinos. Um país instável cansa a alma da sua gente, e o brasileiro anda cansado.

 

Por isso dói ver o que fizemos com o rito democrático. Em algum momento deste caminho, a campanha deixou de ser debate e virou palco. Candidatos ensaiam coreografias para a câmera do celular, trocam proposta por bordão, medem sua relevância em visualizações. O eleitor, que deveria ser tratado como juiz, passou a ser tratado como plateia. E plateia não se convence, se entretém. O velho comício, onde se subia num caminhão para explicar o que se pretendia fazer, transformou-se num showmício permanente, com trilha sonora e filtro e dancinhas.

Não tenho nada contra a alegria. O brasileiro é alegre, e isso é um patrimônio. Mas há momentos que pedem a gravidade de uma assinatura em cartório, e escolher quem vai governar é um deles. Quando ridicularizamos o processo, ainda que sem querer, ensinamos às novas gerações que a política é piada. E quem acha que a política é piada acaba governado por quem a leva muito a sério, só que em benefício próprio.

 

Vale lembrar de onde vem a própria palavra. Candidato nasce do latim candidatus, que quer dizer vestido de branco. Na Roma antiga, quem disputava um cargo público circulava pelo fórum com uma toga clareada com giz, a toga candida, para ser reconhecido por todos. O adjetivo candidus, de onde também herdamos cândido, significava branco reluzente e, por extensão, puro, sincero. O branco não era enfeite. Era uma promessa pública de honestidade, feita à vista do povo antes mesmo do primeiro discurso. Dois mil anos depois, a toga deu lugar ao filtro do celular, e muitos parecem ter esquecido que a palavra impressa ao lado do seu nome na urna carrega esse compromisso de origem. Ser candidato é, literalmente, apresentar-se cândido diante do povo.

 

Disseram certa vez que a pena é mais poderosa que a espada. A frase envelheceu bem. Hannah Arendt, que viu de perto o que acontece quando a força substitui a palavra, deixou escrito em Sobre a violência que “poder e violência são opostos; onde um domina absolutamente, o outro está ausente”. O poder legítimo nasce do acordo entre as pessoas, e a violência aparece justamente quando esse acordo se rompe. Os povos que aprenderam a resolver suas diferenças pela caneta, e não pela força, foram os que prosperaram. A caneta assina leis, orçamentos, nomeações, tratados. A caneta decide se haverá policial na esquina, médico no posto, merenda na escola. Cada voto é uma procuração que entregamos a alguém para usar essa caneta em nosso nome. Tratar isso com leveza excessiva é como assinar um documento importante sem ler.

Mas é preciso dizer com franqueza: há quem tenha transformado a caneta numa arma. Em alguns gabinetes deste país, a tinta que corre no papel tem cor de sangue brasileiro. É o sangue do jovem que morreu na periferia porque a segurança pública foi tratada como discurso de campanha. É o da família que perdeu alguém na fila de um hospital sem leito, enquanto o dinheiro que deveria salvá-lo escorria por algum desvio. Cada decisão tomada pensando no próximo vídeo, e não na próxima geração, cobra seu preço em vidas. A caneta, que deveria ser o instrumento da paz, passou a ferir tanto quanto a espada que ela veio substituir.

 

E o brasileiro, que já enterrou gente demais, não aceita mais assinar embaixo disso.

 

Muitos se esqueceram do valor dessa caneta. Esqueceram que houve tempo neste país em que não se votava, e que gente sofreu para que hoje pudéssemos reclamar da fila. Esqueceram que a urna é o lugar onde o empresário e o porteiro valem exatamente o mesmo. Talvez a maior lição destas eleições seja justamente lembrar.

 

E o Brasil do futuro? Eu o imagino menos espetacular e mais confiável.

 

Um país onde se discuta segurança pública com números e não com gritos. Onde a educação seja prioridade de verdade, porque não há nação estável construída sobre gente mal formada. Onde o adversário político seja tratado como adversário, e não como inimigo a ser destruído. Onde o jovem do interior não precise ir embora para ter oportunidade, porque ela também chegou à sua cidade. Onde o servidor público sirva, o empresário empreenda e o cidadão fiscalize, cada um no seu papel, sem que ninguém precise dançar para ser ouvido.

E há algo que precisa ser dito antes da apuração: seja qual for o resultado, as expectativas continuam as mesmas. O brasileiro não pede fidelidade a nenhum passado, de nenhum lado. Não quer revanche nem saudosismo. Quer uma direção que lhe ofereça perspectivas melhores do que as que teve até aqui. Quem for eleito receberá, junto com o mandato, uma lista de cobranças que não muda conforme a cor da bandeira partidária. E o país que sair das urnas continuará sendo de todos, inclusive de quem não viu seu candidato vencer.

 

Esperamos também gestões mais eficazes, porque verba não é desenvolvimento. Há municípios que recebem repasses generosos ano após ano e continuam com a mesma fila no posto de saúde e o distrito industrial vazio, vendo seus jovens fazerem as malas em busca de oportunidade em outro lugar. O dinheiro chega e o problema fica. Repasse é ponto de partida; o que define o progresso de uma cidade é a capacidade de transformar esse recurso em atendimento que funciona e em ambiente que atrai empresas. Gestão é a diferença entre gastar e investir, e o eleitor precisa aprender a cobrar resultado em vez de se contentar com anúncio de obra.

 

Esse país não nasce de uma eleição só. Nasce de muitas, feitas com seriedade, e da paciência de cobrar depois, quando as câmeras já tiverem ido embora. O voto não encerra o compromisso do cidadão. Apenas o renova.

 

Amanhã, quando a tela da urna confirmar a escolha com aquele som que todo brasileiro conhece, vale a pena demorar um segundo a mais antes de sair da cabine. Pensar no filho que ficou esperando do lado de fora. Pensar no país que ele vai herdar. E lembrar que, naquele instante, cada um de nós segurou a caneta mais pesada da República, o voto.

Que saibamos honrá-la.

 

Prof.Adm. Bruno Oliveira

Administrador, Mestre em Gestão do Conhecimento nas Organizações

Diretor Geral da UNIPAR

Presidente da Academia de Letras de Cianorte

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