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O Brasil não perdeu apenas um jogo. Perdeu para um modelo de gestão.

Por Marcio Nolasco


Quando a derrota no futebol revela as mesmas falhas que produzem crises na política, na administração pública e nas grandes organizações.



Há quem enxergue a derrota do Brasil para a Noruega apenas como mais uma eliminação em Copa do Mundo.


Seria uma interpretação confortável.


Mas insuficiente.


As grandes derrotas nunca nascem no dia da partida.


Elas são construídas silenciosamente durante anos.


São resultado de decisões adiadas, planejamento inexistente, lideranças frágeis, estruturas burocráticas, conflitos internos ignorados e da perigosa crença de que o sucesso do passado continuará produzindo vitórias no futuro.


  • Não é diferente na política.

  • Não é diferente nas empresas.

  • Não é diferente na administração pública.

  • E também não é diferente no futebol.


A Seleção Brasileira não perdeu apenas para uma equipe tecnicamente organizada.


Perdeu para um sistema que compreendeu, antes de nós, como funciona o esporte de alto rendimento no século XXI.


Durante décadas, bastava dizer que o Brasil era "o país do futebol".


Essa frase produzia respeito.


Hoje produz apenas nostalgia.


O futebol mundial mudou.


O ambiente competitivo mudou.


Os métodos mudaram.


A velocidade das decisões mudou.


Os critérios de gestão mudaram.


O Brasil, em muitos aspectos, permaneceu preso às próprias lembranças.


Existe uma regra conhecida entre estudiosos da administração pública e da governança organizacional.


Toda instituição que passa muito tempo vivendo do sucesso passado começa lentamente a perder a capacidade de inovar.


Ela deixa de aprender.


Deixa de ouvir críticas.


Deixa de questionar seus próprios métodos.


Passa a acreditar que sua história é suficiente para garantir seu futuro.


É exatamente aí que começa o declínio.


Foi assim com grandes empresas.


Foi assim com impérios econômicos.


Foi assim com governos.


E parece estar acontecendo com o futebol brasileiro.


Enquanto diversos países construíram projetos nacionais de longo prazo, integrando formação de atletas, ciência esportiva, análise de desempenho, tecnologia, preparação psicológica e gestão estratégica, o Brasil permaneceu preso ao velho ciclo da improvisação.


Quando vence, tudo parece funcionar.


Quando perde, procura-se imediatamente um culpado.


Troca-se o treinador.


Troca-se meia dúzia de jogadores.


Muda-se a comissão técnica.


Anuncia-se uma "renovação".


E o ciclo recomeça.


Essa lógica é conhecida também na administração pública.


Quando uma gestão enfrenta dificuldades, frequentemente troca secretários, cria novas comissões, solicita-se emprestimos para o legislatiovo, altera organogramas ou promove mudanças superficiais.


Mas quase nunca enfrenta o verdadeiro problema.


O modelo de gestão.


Instituições fortes não dependem de heróis.


Dependem de processos.


Governos eficientes não sobrevivem apenas porque possuem um excelente prefeito, governador ou presidente.


Sobrevivem porque possuem equipes competentes, planejamento, metas, indicadores, avaliação permanente e capacidade de corrigir erros.


O mesmo vale para o futebol.


Nenhuma seleção conquista títulos de forma consistente apenas porque possui craques.


As grandes campeãs da atualidade possuem algo muito mais valioso.


Possuem método.


A Noruega talvez tenha dado ao Brasil uma das maiores lições desta Copa.


Não foi uma vitória construída apenas pela qualidade técnica.


Foi construída pela disciplina.


Pela organização.


Pela inteligência coletiva.


Pela capacidade de executar um plano durante noventa minutos.


Enquanto isso, o Brasil voltou a depender do talento individual para resolver problemas coletivos.


Essa talvez seja a principal característica das organizações mal administradas.


Quando os processos falham, espera-se que pessoas extraordinárias resolvam situações extraordinárias.


Mas instituições maduras fazem exatamente o contrário.


Criam sistemas capazes de reduzir a dependência de indivíduos.


No futebol brasileiro acontece justamente o inverso.


Sempre esperamos que apareça "o novo Pelé", "o novo Ronaldo", "o novo Neymar".


Como se um único jogador pudesse compensar falhas estruturais acumuladas durante décadas.


Não pode.


Nunca pôde.


Da mesma forma que nenhum prefeito consegue governar sozinho.


Nenhum presidente administra um país sozinho.


Nenhum empresário conduz uma grande organização sozinho.


A excelência institucional nunca nasce do improviso.


Ela nasce da cultura.


E cultura não se constrói em uma temporada.


Constrói-se durante anos.


Existe ainda outro aspecto preocupante.


O Brasil parece ter perdido algo que sempre caracterizou suas grandes gerações vencedoras.


A humildade para aprender.


Durante muitos anos fomos professores do futebol mundial.


Hoje, talvez precisemos voltar a ser alunos.


Não há vergonha nisso.


Vergonha existe apenas quando a realidade bate à porta e insistimos em fingir que nada mudou.


A eliminação para a Noruega pode ser interpretada como mais uma decepção esportiva.


Mas talvez ela seja muito mais importante do que isso.


Talvez seja um alerta.


Porque o futebol, frequentemente, antecipa fenômenos que também aparecem na política, na economia e na administração pública.


Organizações que deixam de inovar começam a perder competitividade.


Instituições que confundem tradição com eficiência tornam-se previsíveis.


Lideranças que acreditam apenas no passado deixam de construir o futuro.


O Brasil continua produzindo alguns dos melhores jogadores do planeta.


Isso nunca esteve em discussão.


A questão é outra.


Continuamos formando talentos extraordinários.


Mas deixamos de construir organizações extraordinárias.


E existe uma diferença enorme entre as duas coisas.


Talento ganha partidas.


Organização conquista títulos.


No esporte.


Na política.


Na administração pública.


E em qualquer sociedade que pretenda competir em alto nível.


Talvez a maior derrota do Brasil não tenha sido o placar de 2 a 1.


Talvez tenha sido descobrir, da forma mais dolorosa possível, que o mundo evoluiu enquanto nós continuávamos acreditando que a nossa história seria suficiente para vencer o próximo jogo.


A história inspira.


Mas é a disciplina e a gestão com qualidade que constrói o futuro.

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