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O BRASIL NÃO ESTÁ DIVIDIDO APENAS POR IDEOLOGIA. ESTÁ DIVIDIDO PELO RESSENTIMENTO

há 4 horas
5 min de leitura

Por Marcio Nolasco — Analista de Políticas Públicas – ENAP


Há algo muito mais profundo acontecendo na política brasileira do que a velha disputa entre esquerda e direita. O país está atravessado por uma fratura social que não aparece apenas nas urnas, nos discursos ou nas redes sociais. Ela aparece quando uma parcela da sociedade olha para a ascensão de outra e, em vez de enxergar uma conquista coletiva, enxerga uma ameaça.



E talvez seja justamente aí que esteja uma das chaves para entender o Brasil de 2026.


Uma análise apresentada pelo cientista político Felipe Nunes, diretor da Quaest, chamou atenção para duas perguntas aparentemente simples: as pessoas consideram que melhoraram de vida nos últimos 20 anos? E aquelas que melhoraram de vida mereciam essa melhora?


O resultado apontado por Nunes revela uma percepção profundamente desigual entre grupos sociais. Negros, mulheres, pessoas mais pobres e moradores do Nordeste aparecem com maior frequência entre aqueles que percebem melhora de vida. Já grupos de maior renda e determinados segmentos do Sul e Sudeste apresentam percepção mais negativa. Mais reveladora ainda é a questão do merecimento: parte daqueles que dizem não ter melhorado de vida também tende a considerar que outros não deveriam ter avançado.


É aí que a política deixa de ser apenas disputa por ideias.


Ela passa a ser disputa por status, espaço e reconhecimento.


E quando a ascensão do outro começa a ser vista como uma perda pessoal, o país entra numa espiral perigosa.


QUANDO O DIREITO DO OUTRO PARECE UMA AMEAÇA


Durante décadas, determinados espaços sociais foram tratados como se tivessem dono.


Universidade para alguns. Aeroporto para alguns. Emprego qualificado para alguns. Casa própria para alguns. Voz política para alguns.


Quando esses espaços começam a ser ocupados por pessoas que historicamente ficaram do lado de fora, surge uma pergunta incômoda: o problema é que o pobre melhorou de vida ou é que alguém deixou de se sentir exclusivo?



Essa diferença é fundamental.


Porque uma sociedade democrática não pode funcionar pela lógica de que somente alguns têm direito à ascensão.


Se um filho de trabalhador entra na universidade, isso não diminui a universidade.


Se uma família pobre consegue viajar de avião, o avião não deixa de existir.


Se uma empregada doméstica consegue comprar uma casa, ninguém perde a própria casa por causa disso.


Se um trabalhador passa a exigir melhores condições de trabalho, isso não deveria ser tratado automaticamente como ameaça.


O desenvolvimento social não deveria ser uma guerra em que alguém precisa perder para outro ganhar.


Mas o ressentimento transforma exatamente isso em guerra.


O PROBLEMA NÃO É SÓ A ESQUERDA. NÃO É SÓ A DIREITA.


Talvez seja hora de parar de tratar o Brasil como um campeonato entre dois times.


A esquerda brasileira tem seus erros, suas contradições, seus escândalos e seus fracassos. A direita também.


Governos precisam ser fiscalizados independentemente da cor partidária.


Políticos precisam responder por suas decisões independentemente de quem os eleitores tenham escolhido.


E dinheiro público precisa ser tratado como dinheiro público — seja destinado a programa social, emenda parlamentar, obra, publicidade, evento ou qualquer outra despesa.


O problema começa quando o cidadão passa a aplicar uma régua para o adversário e outra para o próprio grupo.


Quando o erro do meu político vira "estratégia", enquanto o mesmo erro cometido pelo adversário vira "escândalo".


Quando um benefício social concedido pelo adversário é chamado de populismo, mas uma medida semelhante adotada pelo meu grupo é chamada de justiça social.


Quando se exige responsabilidade fiscal apenas quando o dinheiro beneficia quem pensa diferente.


Isso não é ideologia.


É torcida.


E democracia não pode sobreviver eternamente de torcida.


O BOLSA FAMÍLIA VIROU MAIS UMA ARENA


O reajuste anunciado em setembro de 2026 elevou em cerca de 15% o valor mínimo do Bolsa Família, de R$ 600 para aproximadamente R$ 690, com efeitos financeiros a partir de outubro. O governo justificou a medida como reposição inflacionária prevista na legislação e estimou impacto de cerca de R$ 5,8 bilhões em 2026 e aproximadamente R$ 22 bilhões em 2027.


A discussão legítima é outra: o país consegue financiar essa política de maneira sustentável?


Essa pergunta precisa ser feita.


Mas também é legítimo perguntar por que o debate brasileiro frequentemente se transforma numa disputa moral contra quem recebe o benefício.


Transferência de renda pode ser discutida, fiscalizada, aperfeiçoada e condicionada a políticas de autonomia econômica. O que não deveria existir é a ideia de que quem recebe auxílio público automaticamente é preguiçoso, incapaz ou manipulável.


Da mesma maneira, defender responsabilidade fiscal não transforma ninguém automaticamente em inimigo dos pobres.


O debate sério está justamente entre essas duas coisas.


Como proteger quem precisa sem transformar proteção social em dependência permanente?


Essa é uma pergunta muito mais importante do que simplesmente gritar "Bolsa Família sim" ou "Bolsa Família não".


E HÁ OUTRO ELEFANTE NA SALA: O DINHEIRO DO PODER


Enquanto o brasileiro comum é chamado a justificar cada benefício recebido, o debate sobre a utilização de recursos públicos precisa alcançar todos os mecanismos de gasto estatal.


Emendas parlamentares, grandes contratos, incentivos, subsídios, obras, publicidade, eventos e estruturas administrativas também precisam passar pelo mesmo filtro:


Quanto custa? Para quem serve? Qual é o resultado? Quem fiscaliza?


Não existe dinheiro público de esquerda ou de direita.


Existe dinheiro do contribuinte.


E é exatamente aí que o discurso político frequentemente perde a honestidade.


É fácil falar em austeridade quando o gasto beneficia o outro.


É fácil defender gasto público quando ele beneficia o próprio grupo.


Difícil é aplicar a mesma régua para todos.


O PERIGO DE TRANSFORMAR O ADVERSÁRIO EM INIMIGO


O Brasil está chegando a um momento eleitoral em que qualquer discussão pode ser convertida em guerra cultural.


Um lado acusa o outro de destruir o país.


O outro responde acusando o primeiro de querer destruir a liberdade.


E no meio dessa guerra existe uma população que precisa de coisas muito menos sofisticadas:


atendimento médico;


educação de qualidade;


segurança;


emprego;


infraestrutura;


saneamento;


transporte;


moradia;


oportunidades.


A política brasileira corre o risco de transformar essas necessidades concretas em munição eleitoral.


E esse talvez seja o maior perigo.


Porque enquanto o cidadão briga pelo político, o político continua sendo político.


Quem precisa pagar a conta continua sendo o cidadão.


NÃO É PRECISO ODIAR O OUTRO PARA DEFENDER O QUE VOCÊ ACREDITA


A democracia não exige concordância.


Exige convivência.


É perfeitamente possível defender políticas sociais e, ao mesmo tempo, cobrar responsabilidade fiscal.


É possível defender mercado e, ao mesmo tempo, exigir proteção ao trabalhador.


É possível defender segurança pública sem defender violência estatal.


É possível criticar um governo sem transformar seus eleitores em inimigos.


É possível criticar a oposição sem transformar adversários em inimigos da pátria.


E é possível votar em qualquer candidato sem precisar odiar quem vota no outro.


O Brasil precisa urgentemente recuperar essa capacidade.


Porque um país onde a melhora de vida do vizinho provoca ressentimento está doente politicamente.


E um país onde o cidadão passa a torcer para que o outro fracasse apenas porque vota diferente já não está discutindo projeto de nação.


Está discutindo vingança.



A PERGUNTA QUE DEVERIA ESTAR NAS RUAS


Talvez a pergunta mais importante para esta eleição não seja:


"Quem você odeia?"


Nem:


"Quem você não suporta?"


Muito menos:


"Qual político representa o seu lado?"


A pergunta deveria ser:


Que Brasil você quer construir quando a eleição terminar?


Um Brasil onde a ascensão social de milhões seja encarada como conquista coletiva?


Ou um Brasil onde cada avanço de um grupo seja tratado como ameaça pelo outro?


Um Brasil onde o dinheiro público seja fiscalizado independentemente de quem o utiliza?


Ou um Brasil onde a corrupção só seja condenada quando praticada pelo adversário?


Um Brasil onde política seja instrumento de transformação?


Ou uma arena permanente de ressentimento?


A escolha é individual e democrática.


Mas existe uma responsabilidade coletiva que ninguém deveria terceirizar.


O Brasil não precisa de mais ódio. Precisa de mais consciência.


Porque, no final, a política pode até dividir o voto.


O que não pode dividir definitivamente é a ideia de que ainda somos uma nação.

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