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O BRASIL CAMINHA PARA UM NOVO TIPO DE DITADURA COM AVAL DO POVO!

há 6 dias
7 min de leitura

A democracia pode continuar de pé por fora enquanto apodrece por dentro


Por Marcio Nolasco – Analista de Políticas Públicas


Talvez estejamos olhando para o lugar errado.


Durante décadas, aprendemos a imaginar uma ditadura como tanques nas ruas, censura explícita, fechamento do Congresso, perseguição aberta e militares ocupando o poder.


Mas e se a próxima ameaça à democracia não precisar de tanques?


E se ela chegar pelas urnas?


E se continuar existindo Congresso, Supremo Tribunal Federal, eleições, partidos, redes sociais e discursos sobre liberdade — enquanto, silenciosamente, o poder vai se concentrando nas mãos de poucos?



É justamente aí que surge uma das grandes ameaças do nosso tempo: a democracia iliberal.


Não é necessariamente o fim formal da democracia. É algo talvez ainda mais sofisticado: a preservação de suas instituições e rituais enquanto seus valores fundamentais — pluralismo, liberdade, independência institucional, imprensa livre, limites ao poder e respeito às minorias — vão sendo progressivamente corroídos.


A pergunta que precisamos fazer é brutal:


podemos eleger democraticamente aqueles que, depois de eleitos, enfraquecerão a própria democracia?


A resposta histórica é sim.


E o Brasil precisa parar de acreditar que está imunizado.


O perigo não está apenas no Palácio do Planalto


O problema contemporâneo não é simplesmente a concentração de poder político no Executivo.


É maior.


Estamos vivendo uma época em que dados, tecnologia, comunicação, algoritmos e capacidade de influenciar comportamentos também podem se concentrar nas mãos de poucos.


É nesse ponto que as ideias de autores como Yanis Varoufakis e Shoshana Zuboff ajudam a compreender o mundo que está surgindo.


Varoufakis utiliza o conceito de tecnofeudalismo para discutir uma nova forma de concentração de poder econômico e tecnológico.


Zuboff, por sua vez, popularizou a ideia de capitalismo de vigilância, chamando atenção para a transformação da experiência humana e dos dados pessoais em matéria-prima para prever e influenciar comportamentos.


A combinação dessas forças produz algo assustador.


Porque o cidadão do século XXI não precisa mais ser obrigado a pensar de determinada maneira.


Ele pode simplesmente ser bombardeado por informações cuidadosamente selecionadas até acreditar que aquela ideia nasceu espontaneamente dentro da sua própria cabeça.


Esse é um dos grandes desafios democráticos do nosso tempo.


O controle não precisa mais ser exercido apenas pela força.


Pode ser exercido pelo algoritmo.


TRUMP NÃO INVENTOU A EXTREMA DIREITA. MAS DEU-LHE UMA NOVA DIMENSÃO


Donald Trump não criou o movimento da extrema direita mundial.


Ele é resultado de um processo que já estava em andamento.


Mas sua ascensão política nos Estados Unidos deu visibilidade, confiança e capacidade de mobilização internacional a uma determinada corrente política que passou a perceber que poderia transformar indignação, ressentimento, nacionalismo, desinformação e polarização em instrumento permanente de poder.


E seu retorno à Presidência tornou esse fenômeno ainda mais relevante.


O paralelo com o Brasil é inevitável.


Durante décadas, a direita brasileira disputou espaço dentro das regras tradicionais da política.


Passou por governos de diferentes matizes ideológicos.


Inclusive durante os governos de Lula e Dilma.


Mas Bolsonaro representou uma ruptura importante na forma como essa direita passou a se comunicar com a sociedade.


A política deixou de ser apenas disputa por propostas.


Passou a ser, muitas vezes, guerra cultural, guerra de narrativas e guerra de identidade.


O adversário deixou de ser simplesmente alguém que pensa diferente.


Virou inimigo.


E quando o adversário político passa a ser tratado como inimigo moral, o próximo passo é acreditar que qualquer método utilizado contra ele é justificável.


É aí que a democracia começa a entrar em território perigoso.


BIDEN NÃO CONSEGUIU CONTER TRUMP. E LULA PODE NÃO CONSEGUIR CONTER O BOLSONARISMO


Existe outro paralelo que merece reflexão.


Os democratas chegaram ao poder nos Estados Unidos com Joe Biden.


Mas não conseguiram eliminar a força política construída por Trump.

Trump voltou.


E voltou demonstrando que movimentos políticos não desaparecem simplesmente porque perdem uma eleição.


No Brasil, Lula e o PT retornaram ao poder em 2022.


Mas o bolsonarismo também não desapareceu.


Pelo contrário.


Permaneceu organizado, mobilizado e com enorme capacidade de comunicação.

Isso deveria servir de alerta para todos os lados.


Porque a história recente demonstra uma coisa:


eleições não encerram conflitos políticos.


Às vezes, apenas transferem temporariamente o controle do poder.


E AGORA SURGE FLÁVIO


É impossível ignorar o cenário eleitoral de 2026.


Uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro sobre Lula representaria muito mais do que uma simples alternância presidencial.


Representaria a possibilidade de uma nova etapa de consolidação política do campo bolsonarista.


E existe uma questão institucional especialmente sensível: a composição do STF.

Considerando a dinâmica das aposentadorias previstas e os critérios constitucionais de nomeação, uma Presidência que tivesse oportunidade de indicar diversos ministros poderia alterar significativamente a correlação de forças da Corte ao longo dos anos.


Não se trata de afirmar que determinada indicação produzirá automaticamente uma Suprema Corte submissa.


Isso seria especulação.


Mas seria igualmente irresponsável fingir que a capacidade de nomear ministros do STF não representa uma das maiores ferramentas institucionais de um presidente da República.


E aqui está o ponto que deveria preocupar tanto a esquerda quanto a direita:


quando um grupo político começa a desejar controle absoluto das instituições, o problema deixa de ser ideológico.


Porque hoje pode beneficiar o seu lado.


Amanhã pode beneficiar o adversário.


O MAIS ASSUSTADOR: NÓS PARTICIPAMOS DISSO


Talvez esta seja a parte mais difícil de admitir.


Nós também fazemos parte dessa história.


Eu faço.


Você faz.


A sociedade faz.


Os políticos fazem.


A imprensa faz.


Os juristas fazem.


As redes sociais fazem.


E todos nós, em algum momento, podemos ter ajudado a alimentar aquilo que hoje dizemos combater.


Essa talvez seja a confissão mais difícil de uma democracia:


nossas convicções nem sempre estiveram direcionadas ao bem comum.


Muitas vezes defendemos pessoas porque eram "do nosso lado".


Perdoamos erros porque eram cometidos por "nossos políticos".


Aceitamos determinadas agressões porque eram dirigidas contra "nossos adversários".


Compartilhamos informações porque confirmavam aquilo em que já acreditávamos.


E deixamos de questionar quando a resposta favorecia nossa própria visão de mundo.


Esse comportamento tem um preço.


A POLARIZAÇÃO VIROU UMA MÁQUINA DE PODER


A extrema polarização não beneficia apenas políticos.


Ela beneficia também o ecossistema que vive da guerra permanente.


Quanto mais raiva, mais engajamento.


Quanto mais indignação, mais compartilhamento.


Quanto mais medo, mais audiência.


Quanto mais inimigos, mais seguidores.


A política descobriu uma fórmula poderosa:


mantenha as pessoas com medo do outro lado e elas aceitarão quase qualquer coisa do próprio lado.


É assim que a democracia começa a perder sua essência sem necessariamente perder sua aparência.


Continuamos votando.


Continuamos discutindo.


Continuamos elegendo.


Continuamos produzindo discursos sobre liberdade.


Mas podemos estar perdendo justamente aquilo que torna a democracia possível:


a capacidade de conviver com quem pensa diferente.


E O POVO?


Essa talvez seja a pergunta mais incômoda de todas.


O que nós, cidadãos, estamos fazendo?


Infelizmente, muitas vezes estamos apenas assistindo.


Assistimos ao espetáculo político.


Assistimos às guerras nas redes sociais.


Assistimos às acusações.


Assistimos às fake news.


Assistimos à transformação da política em torcida organizada.


E, enquanto isso, problemas concretos continuam esperando solução.


Saúde.


Educação.


Segurança.


Emprego.


Infraestrutura.


Corrupção.


Desigualdade.


Gestão pública.


O debate sobre projetos para o país foi substituído, em grande medida, pela pergunta:


"Você é Lula ou Bolsonaro?"


Mas o Brasil é muito maior do que Lula e Bolsonaro.


É muito maior do que PT e PL.


É muito maior do que esquerda e direita.


EU TENHO UM LADO. MAS NÃO POSSO TER UM DONO


Eu tenho minhas convicções.


Tenho minhas preferências políticas.


E não escondo que, diante do cenário atual, preferiria uma vitória de Lula no primeiro turno, justamente por entender que uma vitória desse tipo poderia impedir o fortalecimento eleitoral da extrema direita bolsonarista.


Mas existe uma condição fundamental:


não podemos combater o autoritarismo nos tornando autoritários.


Não podemos defender a democracia apenas quando ela produz o resultado que desejamos.


Não podemos defender instituições apenas quando elas decidem a nosso favor.


Não podemos exigir liberdade de expressão somente para aqueles que concordam conosco.


Não podemos denunciar fake news de um lado enquanto relativizamos a mentira do outro.


E não podemos transformar Lula em salvador da democracia.


Nem Bolsonaro.


Nem Flávio.


Nem Moro.


Nem qualquer outro político.


Democracia não pode depender da existência de um salvador.


Porque no momento em que uma sociedade precisa de um salvador para preservar suas instituições, já existe um problema.


O BRASIL PRECISA DE UM GRANDE "MEA CULPA"


Talvez esteja na hora de todos nós fazermos uma pausa.


Políticos.


Juristas.


Jornalistas.


Influenciadores.


Empresários.


Militantes.


Eleitores.


Instituições.


Todos.


Precisamos perguntar:


Onde erramos?


Onde permitimos que o ódio substituísse o argumento?


Onde permitimos que a mentira substituísse o fato?


Onde aceitamos privilégios em nome do "nosso lado"?


Onde confundimos autoridade com autoritarismo?


Onde confundimos liberdade com irresponsabilidade?


Onde confundimos patriotismo com culto político?


Onde permitimos que Deus fosse utilizado como instrumento eleitoral?

E, principalmente:


quando foi que deixamos de discutir o futuro do Brasil para discutir apenas quem odiamos?


SAUDADES DO TEMPO EM QUE POLÍTICA ERA DEBATE


Tenho saudades dos debates de ideias.


Saudades da disputa entre projetos.


Saudades de candidatos apresentando propostas.


Saudades de discutir orçamento público, educação, saúde, segurança,

desenvolvimento econômico e infraestrutura sem transformar tudo em uma guerra religiosa e moral.


Saudades de uma política em que o adversário podia estar errado sem ser necessariamente um inimigo.


É disso que precisamos.


Não de uma nova guerra.


Não de um novo messias.


Não de uma nova idolatria política.


Precisamos recuperar a capacidade de discordar sem destruir o país.


A DITADURA DO FUTURO PODE NÃO TER TANQUES


Talvez essa seja a grande lição.


A próxima ameaça democrática não necessariamente chegará anunciando:


"A democracia acabou."


Pode chegar dizendo exatamente o contrário:


"Estamos apenas fazendo o que o povo escolheu."


E talvez seja justamente aí que esteja o perigo.


Porque uma sociedade pode votar democraticamente pela concentração de poder.


Pode eleger líderes que ataquem instituições.


Pode entregar enormes poderes a um governo.


Pode aceitar vigilância em nome da segurança.


Pode aceitar censura em nome do combate à mentira.


Pode aceitar manipulação em nome da liberdade.


Pode aceitar privilégios em nome da eficiência.


E pode continuar chamando tudo isso de democracia.


É por isso que o verdadeiro desafio não é apenas votar.


É preservar as condições que tornam o voto realmente livre.


Instituições independentes.


Imprensa livre.


Judiciário responsável.


Congresso atuante.


Transparência.


Liberdade de expressão.


Pluralismo.


Educação.


Informação confiável.


E, sobretudo, cidadãos dispostos a fiscalizar inclusive aqueles que eles próprios elegeram.


Porque a democracia não morre apenas quando alguém toma o poder pela força.


Ela também pode morrer quando o povo entrega poder demais a alguém e

depois descobre que não sabe — ou não consegue — recuperá-lo.


E talvez o mais assustador de tudo seja perceber que não existe um único culpado.


Nós também estamos nessa história.


Agora precisamos decidir se continuaremos apenas assistindo.


Ou se finalmente entenderemos que democracia não é torcida.


Democracia é responsabilidade.

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