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O apagão dos vagalumes

ou de como o mundo ficou claro demais para brilhar


Por Bruno Oliveira - Diretor da UNIPAR


Na Malásia, turistas pagam o equivalente a duzentos reais para subir num barco de madeira, navegar em silêncio por um rio de mangue e assistir, com a respiração suspensa, a milhares de vagalumes piscando sincronizados nos galhos das árvores. No Japão, hotéis de montanha vendem pacotes para a temporada dos hotaru, com jantar, quarto e a promessa de uma noite escura o suficiente para vê-los. Há filas. Há reservas com meses de antecedência. Há gente atravessando oceanos para fazer, durante trinta minutos cronometrados, o que qualquer criança do interior do Brasil fazia de graça, toda noite, saindo pela porta dos fundos.



Estamos comprando ingresso para ver o escuro.


A primeira vez que vi um vagalume, achei que era mentira. Alguém tinha espalhado brasas pelo ar e as brasas tinham aprendido a voar. Acendiam e apagavam sem nenhum som, como se o quintal inteiro respirasse por aqueles pontos de luz, inspirando no escuro, expirando em verde-dourado. Meu avô apontou para o ar com a calma de quem apresenta um vizinho antigo e disse: são os vagalumes. Em outras bocas seriam pirilampos, ou caga-fogos, ou luzes-de-cú, cada nome tentando capturar o que não se deixa capturar. A palavra era menor que a coisa. A coisa era um milagre com asas.


Eles estão sumindo. Das mais de 2.600 espécies catalogadas no mundo, apenas 150 foram avaliadas. Dessas, uma em cada cinco já está ameaçada. A poluição luminosa, segundo a revista Science Advances, reduziu populações em até 70%. A causa principal não é o desmatamento, embora ajude: é a luz. A nossa luz. As lâmpadas que acendemos em cada poste, em cada fachada, em cada tela, criaram um clarão tão contínuo que os vagalumes, cujo único instrumento de comunicação é o próprio brilho, deixaram de ser vistos.


Um vagalume brilha para ser encontrado. O lampejo não é enfeite: é linguagem. Cada espécie tem um código de piscadas que diz ao parceiro "estou aqui, venha". Quando a noite era escura, o sinal chegava. Quando a noite ficou permanentemente acesa, o sinal se perdeu no ruído. É como sussurrar numa danceteria: a voz existe, mas o som ao redor a devora.


O vagalume continua brilhando. Só que ninguém mais o vê.


Manoel de Barros, o poeta que passou a vida catalogando as grandezas do ínfimo, escreveu: "Prezo insetos mais que aviões. Prezo a velocidade das tartarugas mais que a dos mísseis." Barros entendia que o mundo se divide entre os que medem valor pelo tamanho e os que medem pela atenção que a coisa exige. O avião impressiona sozinho. O inseto precisa que alguém pare e olhe. O vagalume é o caso extremo: precisa que alguém apague a luz e espere no escuro. Numa civilização que mede importância pelo brilho permanente, ele pertence ao que Barros chamava de "as coisas desimportantes", que são, justamente, as que revelam o que esquecemos de ver.


Pier Paolo Pasolini, nos anos 1940, escreveu aos amigos sobre uma noite em que viu "uma quantidade imensa de vagalumes, que faziam bosques de fogo dentro de bosques de arbustos". Guardou essa imagem pelo resto da vida. Trinta anos depois, em 1975, publicou no Corriere della Sera o artigo que ficaria conhecido como o artigo dos vagalumes. Já não falava de entomologia ( a ciência dos insetos). Falava do que se perde quando a luz forte demais apaga as luzes pequenas: a capacidade de ver no escuro, a atenção ao que é frágil, a intimidade com o que brilha pouco. Pasolini jovem tinha visto os bosques de fogo. Pasolini velho escrevia o obituário.


Georges Didi-Huberman, filósofo e historiador da arte, inverteu a tese trinta anos depois: os vagalumes não desapareceram, escreveu em Sobrevivência dos Vagalumes. Migraram para onde os holofotes não alcançam. A questão não é se eles existem ainda. É se nós temos olhos para vê-los.


Guimarães Rosa, que sabia olhar para o que brilha pouco, encontrou a palavra exata: o vagalume aparece no ar, "tão pequenino, um instante só, alto, distante, indo-se", e o que ele representa é simples: "a alegria". Não o espetáculo. A alegria, que é outra coisa, mais rara, e que precisa de escuridão para aparecer.


A música sertaneja, que sempre soube das coisas do interior antes dos filósofos, também registrou o vagalume no seu devido posto. Tião Carreiro e Pardinho gravaram um clássico chamado Escolta de Vagalumes, em que um homem volta da cidade grande, onde só encontrou ilusão, e ao cruzar a porteira do sítio, numa noite de luar, é recebido por uma escolta de vagalumes que o acompanha até a casa dos pais. O vagalume, na canção, não é paisagem: é comitiva de honra. É o sertão dizendo, por meio de suas luzes menores, que o filho voltou e que a casa o reconhece. Nenhum trono recebeu rei com mais dignidade do que aquela porteira recebeu aquele caipira.


Nossos filhos não terão escolta. Vão ouvir a moda de viola e precisar de nota de rodapé para entender do que a canção fala, porque a porteira agora tem sensor de presença e refletor de LED, e nenhum vagalume atravessa esse clarão. Há crianças, hoje, para quem a palavra vagalume designa primeiro um site de letras de música, e só depois, se alguém explicar, um inseto. A palavra sobreviveu ao bicho, o que é a forma mais silenciosa de extinção: a coisa some e o nome fica, circulando vazio, como uma casa que continua recebendo correspondência depois da mudança.


Há algo de perturbador em perceber que eliminamos os vagalumes não por maldade, mas por excesso de clareza. Não quisemos matá-los. Quisemos iluminar tudo. E iluminamos tão bem que apagamos tudo o que só existia no escuro. A rua ficou segura. O vagalume ficou mudo. E ninguém fez a conta do que se perdeu, porque o que se perdeu não aparece em planilha: aparece na memória de quem ainda lembra como era ver, numa noite de janeiro, o quintal inteiro piscar.


Meu avô, se estivesse vivo, sairia depois do jantar, sentaria no banco de cimento e acenderia o cigarro. Olharia para o quintal e não veria nada, porque o poste de LED da esquina transformou a noite em tarde e o mistério em calçada. Ele provavelmente não saberia explicar o que falta. Saberia apenas que o quintal ficou menor.


Barros deixou uma frase que fecha melhor do que qualquer argumento: "Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro. Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias." O vagalume é a insignificância que revela o tamanho do escuro que perdemos. E o escuro não era vazio. Era o lugar onde a alegria piscava.


Os turistas na Malásia, no barco, em silêncio, olhando para as árvores que piscam, estão pagando por algo que não sabem nomear. Não é o vagalume. É o escuro. O escuro que as cidades deles não oferecem mais, e que um rio de mangue no sudeste asiático ainda guarda como se guarda um segredo. Eles viajaram doze mil quilômetros para fazer o que meu avô fazia andando dez passos até o quintal.


A pergunta que fica não é se os vagalumes vão voltar. É se nós ainda sabemos apagar a luz que sobra. A que não ilumina nada, apenas ofusca. A que acendemos por hábito, por medo, por incapacidade de ficar no escuro cinco minutos sem enfiar a mão no bolso e acender a tela.


Porque o vagalume não pede muito. Pede o que meu avô já sabia: um banco, um quintal, e a coragem de esperar no escuro até que a primeira luz apareça sozinha.

2 comentários

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Rosana Previati
há uma hora
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Perfeito!!!

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Aline Leocadio
há 2 horas
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Cada texto seu me faz admirar ainda mais o homem que você é. Inteligente e atento às coisas que muitos deixam passar. Tenho muito orgulho de você. ❤️

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