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MARINGÁ ENSINA: COMO UM CLUBE DO INTERIOR DO PARANÁ CHEGOU À SÉRIE B SEM APOSTAR EM MEDALHÕES

há 4 horas
8 min de leitura

Planejamento, gestão coletiva e responsabilidade financeira colocam o Maringá FC em outro patamar. A história do Dogão mostra que crescer no futebol exige mais do que dinheiro: exige projeto, identidade e visão de futuro.


Por Walber Guimarães Júnior


O futebol brasileiro está acostumado a vender ilusões. Dirigentes prometem grandes contratações, anunciam jogadores de nome, acumulam compromissos financeiros e, muitas vezes, deixam para o futuro a conta de decisões tomadas para produzir resultados imediatos. Em meio a esse cenário, um clube do interior do Paraná começa a chamar atenção por seguir um caminho diferente.


Maringá, time do interior do Paraná, subiu da Série C para a Série B em 2026 - magem: Fernando Teramatsu/Maringá
Maringá, time do interior do Paraná, subiu da Série C para a Série B em 2026 - magem: Fernando Teramatsu/Maringá

IO Maringá Futebol Clube, conhecido como Dogão, conquistou o acesso inédito à Série B do Campeonato Brasileiro de 2027 e se credenciou para disputar o título nacional da Série C. Mais do que uma conquista esportiva, o resultado representa a consolidação de um projeto que procura combinar competitividade, organização administrativa e sustentabilidade financeira.


A pergunta que fica é inevitável: como um clube relativamente jovem conseguiu alcançar um patamar que tantas equipes tradicionais perseguem há anos?


A resposta não está em uma contratação milionária ou em um nome consagrado que, sozinho, supostamente resolveria todos os problemas. Está em uma estratégia que prioriza a coletividade, a formação de um elenco compatível com a realidade financeira do clube e a construção gradual de uma instituição capaz de crescer sem comprometer o próprio futuro.


A estratégia que contraria a lógica dos medalhões


Em reportagem publicada em 17 de outubro, o UOL Esporte destacou uma das características mais importantes do projeto maringaense: a preferência por atletas jovens, com potencial de evolução e possibilidade de gerar retorno esportivo e financeiro.


Segundo João Vitor Mazzer, presidente da SAF do clube, a contratação de um jogador consagrado pode consumir recursos suficientes para trazer dois ou três atletas de alto potencial. Para a direção, essa escolha precisa considerar não apenas o desempenho imediato, mas também a possibilidade de valorização e futuras negociações.


É uma mudança de mentalidade que merece atenção.


No futebol, experiência tem valor. Jogadores veteranos podem oferecer liderança, qualidade técnica e equilíbrio em momentos decisivos. O problema começa quando o prestígio do nome passa a valer mais do que a condição física, o rendimento, a motivação e a relação entre custo e benefício.


O Maringá procura construir um elenco em que o esforço coletivo e a intensidade façam parte da identidade de jogo. A ideia é contratar jogadores que se encaixem no projeto, e não transformar o projeto em refém de contratações de impacto.


Isso não significa que o clube jamais possa contratar um atleta experiente.


Significa que nenhuma contratação deveria ser feita apenas para alimentar manchetes, satisfazer pressões externas ou transmitir uma falsa sensação de grandeza.


No futebol profissional, contratar caro não é sinônimo de contratar bem. E gastar mais do que se pode pagar não é sinal de ambição: pode ser o primeiro passo para uma crise.


SAF não é fórmula mágica. Gestão é o que faz a diferença.


O Maringá tornou-se uma Sociedade Anônima do Futebol (SAF) em 2022. Mas existe uma distinção fundamental: adotar o modelo empresarial não garante sucesso esportivo, assim como permanecer na estrutura associativa não condena um clube ao fracasso.


O que determina os resultados é a maneira como a instituição é administrada.

De acordo com a reportagem do UOL, o Maringá possui 27 acionistas, muitos deles empresários da própria região. A estrutura é diferente daquela de SAFs concentradas sob o controle de um único grande proprietário.


Outro aspecto relevante é que o projeto foi concebido para estruturar um clube relativamente novo, sem assumir um passivo histórico de dívidas de uma instituição tradicional em dificuldades financeiras.


Essa condição não elimina os riscos do negócio, mas ajuda a compreender a estratégia adotada: construir uma organização com governança, planejamento e controle financeiro, em vez de tentar resolver problemas estruturais apenas com aportes emergenciais.


A experiência do Maringá reforça uma lição importante para o futebol brasileiro: a SAF é um instrumento de gestão, não um certificado automático de competência.

Sem transparência, controle de despesas, planejamento esportivo e responsabilidade dos dirigentes, qualquer modelo administrativo pode fracassar. Com uma estratégia consistente, por outro lado, até um clube com recursos mais limitados pode encontrar caminhos para competir.


Do rebaixamento estadual à Série B nacional


A ascensão do Maringá ganha ainda mais significado quando observada em perspectiva.


Fundado em 2010, o clube passou por dificuldades esportivas, incluindo o rebaixamento no Campeonato Paranaense em 2016. A partir daquele período, iniciou uma reorganização administrativa e esportiva que buscava recuperar espaço e estabelecer objetivos de longo prazo.


O caminho não foi linear. Houve mudanças, obstáculos e a necessidade de reconstruir a competitividade. Mas o projeto avançou gradualmente.


Em 2024, o Maringá conquistou o acesso da Série D para a Série C do Campeonato Brasileiro. Em 2026, garantiu a promoção à Série B, depois de vencer o Floresta por 2 a 0, no Estádio Willie Davids, em uma partida decisiva diante de sua torcida.


São dois acessos nacionais em um intervalo curto, um feito que demonstra a capacidade de aproveitar oportunidades esportivas sem abandonar a construção institucional.


A presença frequente nas decisões do Campeonato Paranaense e os resultados expressivos na Copa do Brasil também ajudaram a projetar o clube para além de sua cidade.


O Maringá deixou de ser apenas uma equipe que buscava espaço no futebol estadual. Agora, precisa demonstrar que consegue competir de maneira consistente em uma divisão nacional mais exigente.


O acesso é uma conquista. A permanência será o verdadeiro teste.


É neste ponto que começa a etapa mais delicada.


A Série B reúne clubes com diferentes níveis de investimento, estruturas de treinamento, receitas comerciais, capacidade de contratação e experiência competitiva. Para o Maringá, o desafio não será apenas montar uma equipe capaz de vencer partidas, mas sustentar uma operação mais exigente sem comprometer as bases que permitiram o crescimento.


A própria direção reconhece que a prioridade inicial deve ser a permanência na segunda divisão.


Essa postura é importante porque evita que o acesso seja interpretado como autorização para multiplicar despesas sem uma avaliação criteriosa.


A tentação de aumentar a folha salarial, contratar nomes conhecidos e elevar rapidamente o orçamento pode ser grande. Afinal, a exposição nacional aumenta, a torcida cria novas expectativas e patrocinadores passam a observar o clube com maior interesse.


Mas é justamente nesses momentos que a qualidade da gestão precisa ser colocada à prova.


O Maringá terá de encontrar o equilíbrio entre reforçar o elenco, ampliar suas receitas, desenvolver jogadores e preservar a saúde financeira. Crescer é necessário. Crescer de maneira desordenada pode destruir o que foi construído.


O sucesso de 2026 não garante os resultados de 2027. O acesso abre a porta; a permanência dependerá das decisões tomadas a partir de agora.


O futebol também precisa formar patrimônio


Outro componente importante do projeto é o desenvolvimento de atletas.

O Maringá ainda trabalha para consolidar suas categorias de base e ampliar a capacidade de formar jogadores em casa. Esse processo demanda tempo, profissionais qualificados, estrutura, metodologia e investimento.


Mas pode representar uma vantagem estratégica.


Um clube que forma atletas reduz, potencialmente, sua dependência do mercado de contratações e cria oportunidades para desenvolver jogadores compatíveis com sua identidade de jogo. Quando esses atletas alcançam bom desempenho, também podem despertar interesse de outras equipes e gerar receitas por meio de transferências.


Não se trata de transformar todo jovem jogador em uma futura venda, nem de colocar a negociação de atletas acima dos resultados esportivos. Trata-se de construir alternativas para que o futebol profissional não dependa exclusivamente de dinheiro novo a cada temporada.


O objetivo de se tornar financeiramente superavitário, mencionado pela direção do Maringá, aponta nessa direção.


Para que essa ambição se transforme em realidade, porém, será necessário acompanhar indicadores concretos: receitas, despesas, investimentos, formação de atletas, contratos comerciais e resultados operacionais.


A organização precisa aparecer não apenas nos discursos, mas também nos números.


Uma força do interior que valoriza o Paraná


A trajetória do Maringá também tem significado regional.


O futebol paranaense não pode depender exclusivamente da capital para produzir projetos competitivos e ampliar sua presença nacional. O interior possui mercado consumidor, empresas, torcedores, profissionais qualificados e capacidade de mobilização.


Maringá demonstra que essa combinação pode gerar resultados quando existe articulação entre gestão, investimento, identidade local e planejamento.


A cidade ganha projeção, o clube amplia sua exposição e o futebol estadual passa a contar com mais uma equipe em uma competição de grande relevância nacional.


Mas existe uma condição: o crescimento precisa manter vínculos reais com a comunidade.


A aproximação com os torcedores, o fortalecimento do programa de sócio-torcedor, a construção de parcerias comerciais e o desenvolvimento das categorias de base são partes importantes desse processo. Um clube não se consolida apenas por meio de resultados dentro de campo. Precisa construir uma relação duradoura com quem o acompanha e o sustenta.


A torcida não deve ser tratada somente como consumidora de ingressos. Ela faz parte da identidade e da história da instituição.


A ambição internacional exige independência financeira


O Maringá também projeta a possibilidade de estabelecer uma parceria internacional no futuro, seguindo modelos conhecidos do futebol brasileiro.


A direção pretende estruturar um clube organizado, com governança e finanças equilibradas, que possa negociar uma eventual parceria a partir de uma posição mais sólida.

A diferença é importante.


Buscar um investidor por necessidade urgente de caixa não é a mesma coisa que negociar uma parceria estratégica para ampliar oportunidades esportivas e comerciais.


No primeiro cenário, a fragilidade financeira pode reduzir o poder de decisão do clube. No segundo, uma instituição organizada tem melhores condições de avaliar propostas, estabelecer contrapartidas e preservar seus interesses.


Uma eventual associação com um grupo internacional pode abrir portas para intercâmbio de atletas, acesso a mercados, novas metodologias de trabalho e oportunidades de negócio. Mas também exige cuidado com contratos, governança, autonomia esportiva e os objetivos de longo prazo.


A parceria, se acontecer, deverá servir ao projeto. Não substituir o projeto.


A lição que fica para o futebol brasileiro


A história do Maringá não prova que existe uma fórmula infalível para o sucesso. Futebol envolve variáveis que nenhuma planilha consegue controlar integralmente: lesões, decisões de arbitragem, oscilações técnicas, mudanças de comissão técnica e circunstâncias imprevisíveis de uma temporada.


Mas o clube oferece um exemplo relevante de como planejamento e responsabilidade podem ampliar as possibilidades de uma equipe que não nasceu entre as maiores potências econômicas do país.


Em vez de apostar tudo em contratações de impacto, o Maringá procura desenvolver um elenco compatível com sua identidade. Em vez de tratar o acesso como ponto final, apresenta a permanência e a consolidação nacional como novos objetivos. Em vez de depender exclusivamente do entusiasmo de um investidor, busca estruturar receitas, governança e patrimônio esportivo.


É um caminho que exige paciência, disciplina e capacidade de corrigir erros.


A conquista do acesso à Série B já está garantida. O clube também chegou à decisão da Série C contra a Ferroviária, com o jogo de volta previsto para 24 de outubro de 2026. A possibilidade de conquistar um título nacional acrescenta um capítulo importante a uma temporada histórica.


Independentemente do resultado da final, o Maringá já conquistou algo que vai além da classificação: demonstrou que um clube do interior pode construir ambição nacional sem precisar abandonar a realidade financeira.


O recado do Dogão é direto: não basta querer chegar à elite. É preciso construir uma instituição capaz de permanecer nela.


E essa talvez seja a maior diferença entre um projeto que vive de temporadas memoráveis e outro que pretende construir uma história duradoura.


Marcio Nolasco — Editor-Chefe do Portal Bisbilhoteiro

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