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Lógica Invertida: As Atitudes do Eleito e a Culpa do Eleitor

 Por que o eleitor reelege aquele que o desconecta da realidade? Uma análise sobre os problemas de caráter perpetuados no eleitorado e nos candidatos, para entender por que alguns eleitos negam o fim da Escala 6x1 e aprovam para seus gabinetes duas folgas para cada três dias trabalhados. Mergulhe na hipocrisia legislativa para questionar: Qual é nossa participação nesse modelo e o preço da nossa conivência?


Estarrecidos (assim deveríamos ficar) os brasileiros assistiram ao início dos trabalhos legislativos de 2026 com um Congresso Nacional que choca o país ao aprovar projetos de lei que garantem reajustes salariais substanciais a senadores, deputados federais e, por extensão, a servidores da Casa. Esses aumentos somados a gratificações podem atingir impressionantes 100%. Uma movimentação que parece alarmantemente desconectada da realidade econômica que a maioria dos brasileiros enfrenta.


Imagem criada por IA – Nelson Guerra 
Imagem criada por IA – Nelson Guerra 

A decisão se torna ainda mais paradoxal quando observamos o histórico de votações. Enquanto parlamentares se opuseram veementemente a iniciativas sociais cruciais, como o projeto "Gás para Todos", que visava subsidiar o gás de cozinha para famílias de baixa renda que gasta 10% de seu salário com a compra de gás, eles aprovaram, sem hesitação, a reestruturação de carreiras que asseguram reajustes salariais e novas regulamentações que frequentemente excedem o teto constitucional para o funcionalismo público.


Esta dualidade expõe um corporativismo intrínseco, onde a prioridade parece residir na manutenção de privilégios em detrimento das necessidades mais básicas da população.


Privilégios que se Perpetuam


A discrepância se estende, de forma gritante, às normas trabalhistas. Parlamentares, que frequentemente se posicionam contra o fim da exaustiva escala 6x1 no setor privado – um regime que permitiria aos trabalhadores um dia de descanso após seis dias de labor – validam internamente, no próprio Congresso, regimes que concedem duas folgas a cada três dias de trabalho. Para agravar, essas folgas podem ser convertidas em remuneração adicional, um arranjo que poucos no setor privado ousariam sonhar.


A retórica da austeridade, por sua vez, mostra-se cruelmente seletiva. Enquanto discursam sobre a inviabilidade de certos benefícios trabalhistas para o cidadão comum, esses mesmos representantes aprovam para si uma vasta gama de "penduricalhos" e auxílios. A lista inclui desde "auxílio peru" e "auxílio panetone" até custeio de combustível para carro próprio – mesmo com um subsídio diário de R$ 200 para táxis – e auxílio moradia. Benefícios que são, para a esmagadora maioria do trabalhador brasileiro médio, completamente impensáveis e fora de sua realidade.


Por que o Voto do Eleitor Desafia a Lógica?


Ainda mais intrigante é o movimento do eleitor diante da urna eletrônica a cada dois anos. Apesar de todas as incoerências e dos privilégios evidentes, um número expressivo de deputados e senadores consegue a reeleição com votações expressivas. Este fato, por si só, sugere uma profunda e preocupante desconexão entre as ações dos parlamentares e as expectativas da sociedade que, em teoria, deveriam ser representadas.


Para perpetuar-se no poder, muitos congressistas valem-se de estratégias psicossociais altamente sofisticadas. Eles manipulam discursos e ações para cativar o eleitorado, mesmo quando isso implica em práticas eticamente questionáveis. A lógica é fria: eles compreendem que, a despeito de possíveis falhas morais ou éticas, ainda desfrutam do apoio incondicional de uma parcela significativa da ingênua população brasileira, que trazem na raiz problemas de caráter.


Convém lembrar que a legislação brasileira não permite que estrangeiros governem o país. Isso significa que todos os nossos candidatos emergem do próprio povo. E aqui cabe a reflexão: quando a matéria-prima não é de qualidade, dificilmente o produto final alcançará excelência.


O Ciclo de Conivência


Mas como este ciclo se sustenta? Infelizmente, uma parcela considerável do eleitorado, frequentemente impulsionada por interesses pessoais imediatos, aceita favores ou age de maneira oportunista. Cientes dessa vulnerabilidade do eleitor, os candidatos moldam meticulosamente suas campanhas para explorá-la, utilizando principalmente as redes sociais como ferramenta massiva para influenciar e capturar votos, normalmente apelando a emoções em vez de propostas concretas.

Tal abordagem eleitoral, que exige complexas e dispendiosas estratégias de marketing e pesquisa setorizada, acaba por privilegiar, inevitavelmente, candidatos com maior poder econômico. A consequência é um campo de batalha político intrinsecamente desigual: aqueles com menos recursos financeiros enfrentam dificuldades acentuadas para competir em pé de igualdade, perpetuando o domínio de oligarquias e grupos de interesse dos mais ricos e abastados.


Um Chamado à Reflexão Cívica


Em suma, a perpetuação de práticas que flertam com a corrupção e a manutenção de figuras poderosas no cenário político brasileiro são alimentadas por um ciclo vicioso de conivência e oportunismo mútuo entre eleitores e eleitos. Este é um drama que se desenrola, em grande parte, nas esferas legislativas mais influentes do país.

 

Imagem criada por IA – Nelson Guerra
Imagem criada por IA – Nelson Guerra

Romper essa teia intrincada não é apenas um desafio institucional; é um imperativo cívico e moral. Exige de cada um de nós um eleitorado não apenas informado, mas profundamente crítico e consciente de seu poder transformador. Ao invés de ceder a interesses imediatos, a pequenos favores ou ao comodismo da desinformação, a reflexão sobre o verdadeiro impacto de cada voto na construção de um futuro mais justo e equitativo torna-se a bússola para uma representação política genuinamente alinhada aos anseios coletivos.


A pergunta que ecoa e exige uma resposta de cada cidadão é: Qual o real preço da nossa indiferença diante do corporativismo dos grupos políticos que, silenciosamente, mina os alicerces da nossa democracia e do futuro que desejamos construir para o Brasil? A mudança começa na urna, mas se consolida na consciência de cada um.


(Nelson Guerra é comunicador e consultor em Gestão Pública)

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