Lealdade a Quem Seguimos
- Christina Faggion Vinholo

- 24 de ago.
- 5 min de leitura
Christina Faggion Vinholo, teóloga
Especialista em AT e NT.
“Mas a nossa cidadania está nos céus, de onde também aguardamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo.”
Filipenses 3.20

Na semana passada, refletimos sobre a verdade acima das tendências. Em um mundo no qual opiniões mudam rapidamente, valores são redefinidos e aquilo que ontem parecia inegociável hoje pode ser considerado ultrapassado, afirmamos que a verdade não nasce da cultura, da maioria ou das circunstâncias. A verdade tem um nome: Jesus Cristo.
Mas reconhecer onde está a verdade inevitavelmente nos conduz a outra pergunta: a quem pertence a nossa lealdade?
Essa pergunta tem ocupado meus pensamentos de maneira muito particular. Estou vivendo um processo para me tornar residente permanente nos Estados Unidos e, futuramente, cidadã deste país. Há documentos, etapas, direitos e responsabilidades envolvidos nisso. E quero, enquanto estiver aqui, respeitar esta terra, suas leis e suas autoridades, contribuir para o lugar onde Deus me colocou e servir de coração onde quer que Ele me permita viver.
Mas existe uma cidadania que nenhum governo pode me conceder e nenhum documento pode registrar.
Minha verdadeira cidadania está nos céus.
Existe um Reino ao qual pertenço antes de pertencer a qualquer nação. Existe um Rei diante de quem toda autoridade humana é passageira. E é a Ele que pertence minha lealdade absoluta.
1. Cristo acima da cultura
Em João 6.14-15, depois da multiplicação dos pães, a multidão reconheceu que algo extraordinário havia acontecido. Diante do sinal, decidiram tomar Jesus à força para fazê-lo rei.
Parece, à primeira vista, uma reação honrosa. Eles queriam Jesus como rei! O problema estava no tipo de rei que desejavam.
Queriam alguém que correspondesse às suas expectativas. Um Messias que resolvesse suas necessidades imediatas, enfrentasse seus inimigos e se encaixasse em seus projetos. Queriam Jesus, mas queriam um Jesus moldado aos seus desejos.
Jesus retirou-se.
Ele não permitiria que a multidão definisse sua identidade ou sua missão.
Esse continua sendo um dos grandes perigos para a Igreja em todas as épocas: tentar adaptar Cristo à cultura em vez de submeter a cultura a Cristo.
Seguimos Jesus quando suas palavras nos confortam, mas também quando nos confrontam. Quando seus ensinamentos são bem recebidos e quando são rejeitados. Quando obedecê-lo nos aproxima da maioria e quando nos deixa caminhando na direção oposta.
A cultura muda. Cristo não.
Nossa lealdade não está naquilo que uma geração considera aceitável, moderno ou desejável. Nossa lealdade está naquele que declarou:
“Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida.” (João 14.6)
2. O Reino acima da nação
Diante de Pilatos, Jesus fez uma declaração extraordinária:
“O meu reino não é deste mundo.” (João 18.36)
Jesus não estava dizendo que seu Reino não tem implicações neste mundo. Tem — e profundas. Onde Cristo reina, nossa maneira de amar, servir, trabalhar, exercer justiça, tratar o próximo e lidar com o poder é transformada.
Mas seu Reino não nasce das estruturas deste mundo e não depende delas para existir.
Por isso, o cristão pode amar sua pátria sem transformá-la em objeto de adoração. Pode honrar suas autoridades sem lhes entregar aquilo que pertence somente a Deus. Pode participar responsavelmente da sociedade sem confundir qualquer projeto nacional com o Reino de Cristo.
Nações têm fronteiras. O Reino de Deus reúne gente “de toda tribo, língua, povo e nação” (Apocalipse 5.9).
Governos começam e terminam. Impérios surgem e desaparecem. Bandeiras representam histórias importantes, mas nenhuma delas tremulará sobre o trono eterno.
No centro da eternidade está o Cordeiro.
Por isso posso dizer com gratidão: quero servir bem à terra onde Deus me colocou. Quero ser uma boa cidadã, cumprir minhas responsabilidades, fazer o bem, amar meu próximo e contribuir para a sociedade enquanto estiver aqui.
Mas nenhuma nação possui meu coração.
Meu coração pertence ao Reino de Deus.
3. O Príncipe acima da política
Paulo escreve aos filipenses:
“Pois a nossa pátria está nos céus, de onde também aguardamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo.” (Filipenses 3.20)
Filipos era uma colônia romana. A cidadania romana representava identidade, privilégios e orgulho. Portanto, quando Paulo fala sobre uma cidadania celestial, seus leitores entendiam o peso daquela afirmação.
Era como se dissesse: Vocês vivem aqui, mas sua identidade definitiva vem de outro Reino.
E isso continua verdadeiro para nós.
A política tem seu lugar. Governos têm responsabilidades estabelecidas por Deus. O cristão não precisa ser indiferente à vida pública. Podemos ter opiniões, votar, participar, concordar, discordar e defender aquilo que entendemos ser justo.
Mas precisamos lembrar constantemente: nenhum político é nosso salvador. Nenhum partido é o Reino de Deus. Nenhuma ideologia merece nossa devoção.
Nossa esperança não chega pelas urnas.
Nossa redenção não vem de Washington, Brasília ou de qualquer outro centro de poder.
Nós aguardamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo.
Presidentes passam. Governos passam. Sistemas políticos passam.
O Rei permanece.
E talvez uma das maiores evidências de maturidade espiritual seja conseguirmos participar das coisas deste mundo sem permitir que elas ocupem o lugar que pertence somente a Cristo.
Podemos apoiar sem idolatrar.
Podemos discordar sem odiar.
Podemos participar sem nos render.
Podemos amar nossa pátria sem esquecer nossa verdadeira Pátria.
Porque antes de qualquer outra identidade, somos de Cristo.
Minha cidadania está nos céus
Talvez por estar vivendo pessoalmente um processo de residência e pensando em uma futura cidadania, essa verdade tenha ganhado para mim um significado ainda mais bonito.
Um dia, talvez eu tenha um documento dizendo que pertenço oficialmente a esta nação.
Serei grata.
Mas há uma cidadania que recebi pela graça, por meio de Cristo, e essa nenhuma autoridade terrena poderia me conceder.
Meu nome pertence a outro Reino.
Enquanto meu Rei não vier me buscar para o lar, quero servir fielmente onde Ele me plantar. Quero amar as pessoas ao meu redor, honrar as autoridades, fazer o bem, trabalhar, cuidar, ensinar, anunciar o Evangelho e deixar marcas da graça de Deus por onde passar.
Mas quero viver sem esquecer de onde sou.
Cristo está acima da cultura.
O Reino está acima da nação.
O Príncipe está acima da política.
Minha esperança não está em governos.
Minha identidade não está em uma bandeira.
Minha segurança não está nas estruturas deste mundo.
Jesus Cristo é o meu Rei.
Meu coração pertence a Ele.
Minha lealdade pertence a Ele.
Minha vida pertence a Ele.
E a minha cidadania está nos céus.
Até que Ele venha, viverei aqui como peregrina — servindo de coração a terra onde Deus me colocou, mas com os olhos voltados para o lar.
Porque os reinos deste mundo passam.
Mas o Reino do nosso Senhor permanece para sempre.
Instagram: @chrisvinholo
E-mail: chrisvinholo@gmail.com



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