Hora de zerar as apostas.
- Walber Guimarães Junior

- 22 de set.
- 4 min de leitura
Por Walber Guimarães Junior, engenheiro e comunicador.
O jogo eleitoral em Brasília e cada um dos estados seguia célere para uma provável definição, porém as alternâncias que o STF e o Congresso geraram no último mês tiveram o estranho efeito de zerar o jogo. Em Brasília e nos principais estados, a sucessão deletou vários capítulos e precisará ser reescrita pelos principais atores.

Um rápido balanço do julgamento da tentativa de golpe que resultou na previsível condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro, somada aos debates no Congresso em torno das PEC da Blindagem e da Anistia mexeram no tabuleiro político, permitindo uma nova leitura da sucessão nacional.
Com a possível exceção do principal interessado, ninguém mais considera a candidatura de Bolsonaro como alternativa possível, na verdade esta constatação se estende aos demais familiares, também vitimados pelo crescimento da rejeição, muito em conta da movimentação de Eduardo Bolsonaro que fez apostas arriscadas, praticamente um all in político que o deixou sem cartas no jogo da sucessão, conforme atestam pesquisas e a verificação do impacto digital de suas ações e ameaças explícitas.
O governador Tarcísio de Freitas, em leitura preliminar apontado como principal beneficiário de todas estas questões, aparentemente não conseguiu êxito em suas estocadas ousadas e dúbias. Havia o desafio de consolidar seu nome como sucessor de Bolsonaro e como nome preferencial do Centrão, todavia sua agressividade, inspirada no seu líder, não garantiu o apoio fechado do PL, embora possa ocorrer por pragmatismo eleitoral, abriu extensa área de conflito com o judiciário e o afastou da estratégia do Centrão, mais preocupado em apoiar um refém do que um líder forte e independente.
Pelo lado direito, faz sentido concluir que os demais postulantes saíram fortalecidos para a próxima etapa, inclusive por se manterem distantes das manobras pela anistia e pela blindagem, aparentemente sem apelo popular. É senso comum que o exagero da dosimetria dos condenados do 8 de janeiro, agora fortemente reconhecidos como vítimas da manobra de seus líderes que precisavam de massa de manobra para construção de um cenário de consternação, todavia o quase desespero da ponta direita de agir sob qualquer pretexto com a finalidade primordial de livrar Bolsonaro, sofre intenso desgaste na opinião pública que percebe e reage ao casuísmo da proposta.
Romeu Zema, Ronaldo Caiado e Ratinho Junior, com posição confortável em seus redutos, principalmente os dois últimos, terão agora mais espaço para consolidar suas candidaturas pela evidente hesitação de Tarcísio que, de novo, parece priorizar a provável reeleição, abandonando a loteria federal. Como abril é prazo final para o governador paulista que, provavelmente nesta data ainda sem uma posição sólida, teria que renunciar e se submeter aos humores de Valdemar, PL e a família Bolsonaro, todos sempre sujeitos a chuvas e trovoadas.
Exceto por uma ampla mobilização a favor de unidade na direita, algo que só ocorreria com a improvável consolidação do favoritismo de Lula, Tarcísio não parece capaz de construir o cenário adequado para uma opção segura pela eleição nacional e, como indica seu estilo e temperamento, hoje é mais provável que opte pela reeleição.
Ratinho Junior, a princípio, surge como principal beneficiário deste quadro por vários motivos. Tem em Gilberto Kassab, presidente do seu PSD, o principal articulador da política nacional, tem mais permeabilidade no jogo político por ser mais suave e flexível, com maior capacidade de transitar entre a direita e centro e, como fator principal, tem uma narrativa muito mais consistente que seus concorrentes, fruto do case de sucesso inquestionável de seu desempenho no governo do Paraná, com números impressionantes em quase todas as áreas.
Exceto pelos servidores e professores, ressentidos pela ausência de reajustes satisfatórios, Ratinho Junior desfruta de um prestígio ímpar, bem, apontado pelos institutos de pesquisa que atestam mais de 80% de aprovação, além de resultados insuperáveis em educação, sustentabilidade, crescimento econômico e tantos outros índices que o credenciam com méritos para tentar levar à Brasília o modelo paranaense.
Com Tarcísio fora do jogo, Ratinho Junior pode ocupar o centro do tabuleiro, permitindo a necessária convergência de novas siglas e do eleitorado de direita e de centro.
Lógico que o jogo não ocorre só na ponta direita, com o centro, talvez centro esquerda, enxergando o vácuo para nomes tradicionais como Ciro Gomes ou mesmo novidades que podem responder pelo nome de Danilo Gentili. Nada parece provável neste campo, mas quando o jogo está embolado, qualquer resultado pode ser admitido.
A nova leitura também pode permitir alterações antes improváveis do lado esquerdo. Sem a desejada, por ambos, polarização com o ex-presidente, aumentam as chances de Lula ser substituído. Com 81 anos no período eleitoral, parece razoável supor que até o atual presidente duvide de sua disposição e capacidade física e mental para um novo mandato. Geraldo Alckimin e Fernando Haddad, nesta ordem, iniciam aquecimento para uma hipótese, ainda imprevisível de troca de nomes, com Lula avalizando a candidatura no cargo de vice. Lá no horizonte, Flavio Dino também surge como possibilidade ainda mais remota.
São muitas variáveis ainda em jogo, muitas possibilidades ainda em aberto, muitos interesses lícitos e escusos que podem determinar ações inesperadas, mas parece que a sucessão, pelo menos até maio de 2026, é muito mais um exercício de exclusão que vai deixando vítimas pelo caminho, ainda que a cena final ainda indique uma disputa polarizada entre Lula ou seu substituto e o nome da direita, ainda Tarcísio como favorito, mas com Ratinho Junior cada vez mais vivo no jogo sucessório.














Ótima visão de cenário nesse momento de turbulência política.