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Homens

De uns tempos para cá se tornou comum ouvirmos que homens, de diferentes origens, se reúnem em grupos dedicados somente a eles. “Terço com homens”, acontecem em várias igrejas católicas Brasil afora, inclusive agora com encontros regionais desses grupos; “Rede de homens”, grupo ligado à Igreja Presbiteriana Independente; “Homens com propósito”, uma rede cristã preocupada em resgatar os valores masculinos e da família tradicional brasileira; “Culto forja”, grupo ligado  à Igreja do Avivamento Internacional, também dedicado ao resgate de valores masculinos à luz do cristianismo; e, é claro, o mais significativo desses grupos ultimamente, que é o “Legendários”, uma organização internacional que se propõe a discutir, em meio à natureza montanhosa, por alguns dias, a masculinidade frágil. Fico me perguntando, o que está acontecendo com os homens ultimamente, que precisam de tanto espaço exclusivo para conversarem, analisarem, reverem, reafirmarem valores?

 


Existem outros grupos além dos que eu citei acima, mas os exemplos mencionados já dão uma proporção do que quero discutir hoje. Se olharmos para um passado, não tão recente, veremos que o protagonismo social foi, com raras exceções na história, sempre masculino. Os espaços de sociabilidade fora da casa eram, predominantemente, masculinos, como os ginásios entre os gregos, os templos entre os egípcios, o senado entre os romanos, as batalhas entre os vikings, as escolas e universidades medievais, os bares e saloons modernos, o mundo do trabalho no século XX, e assim por diante. Portanto, não me parece que até a atualidade os homens precisassem criar um espaço somente deles para rezar, discutir, conversar etc.. Se pensarmos naquilo que foi causa de muitas brigas entre casais, o grupo de futebol dos homens, sempre foi um espaço informal, predominantemente masculino, em que o objetivo foi, e continua sendo, a prática do futebol e a resenha depois, regada a cerveja, petiscos, churrasco... São raros os grupos de mulheres, até hoje, que se reúnem para jogar algum tipo de esporte. Assim, à primeira vista, parece um tanto estranho, ou até contraditório com a realidade, que haja a necessidade atual de criar, de formalizar grupos de homens para um determinado fim.

 

Ao escrever sobre este tema agora, percebi que renderia um textão de várias páginas, mas, o intuito aqui é ser, sempre, breve, portanto, vou discutir dois aspectos que me parecem, à primeira vista, se sobressair. Um é o fato de que, em nossos dias o poder decisório sobre a vida e os rumos da família e da sociedade não está mais nas mãos masculinas somente. O grande provedor, que lhe investia automaticamente da grande autoridade na família e na sociedade, não é mais somente o homem. As coisas mudaram; a configuração familiar mudou; a balança de poder na sociedade mudou ou está mudando. Quando as mulheres não quiseram mais ser as “rainhas do lar”, quando quiseram estudar, quiseram trabalhar, a família mudou, e os homens deixaram de ter aquele protagonismo que lhe era natural. Os espaços de sociabilidade, que antes eram predominantemente masculinos, passaram a ser partilhados por homens e mulheres. Elas não precisam, hoje em dia, se reunir em clubes de leitura, ou de culinária, ou de algum esporte, ou ioga, para se sentirem protagonistas em algum espaço, além do lar. Elas já dividem o protagonismo nas famílias e na sociedade. E isso, é claro, desnaturaliza o domínio do homem.

 

O segundo aspecto, derivado do primeiro, é que os homens, sentindo-se um tanto perdidos nessa nova realidade, acabam por reagir a ela. Tal reação pode ser apenas aceitar, colaborar, incentivar, apoiar essa mudança, mas, para isso, os homens têm que passar por um processo de revisão de sua masculinidade para se autovigiar em suas atitudes machistas estruturais. A outra reação é de reafirmar uma masculinidade que era protagonista, e isso se faz sempre colado ao resgate ou reafirmação dos ditos valores cristãos da família tradicional, e, para isso, não é necessário rever o machismo estrutural, na verdade, é vesti-lo com uma nova roupa e torna-lo mais palatável.

 

Na minha opinião, os grupos de homens que existem hoje, em qualquer de suas configurações, por mais bem intencionados que alguns deles possam ser, estão, na prática, revelando a necessidade que, perdidos na divisão da autoridade e do protagonismo nas famílias e na sociedade, os homens têm de resgatar um mundo, uma cultura, uma religiosidade, em que somente eles é que davam as cartas.

 

 

Meu Instagram: @costajuvenalcelio

 

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