Hegemonias
- Célio Juvenal Costa

- há 2 dias
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Quando um conjunto de ideias e concepções domina um determinado grupo dizemos que há uma hegemonia, do mesmo modo, por exemplo, que em termos políticos. A hegemonia pode ser clara, direta, mas, também, pode ser camuflada. Ela pode se manter pelo convencimento, pelos interesses ou até pela força, mas, a forma mais efetiva é quando os indivíduos menos favorecidos do grupo introjetam os princípios basilares dos mais favorecidos.

O pensador italiano do início do século XX, Antonio Gramsci, mostrou que numa sociedade de classes, um dos trabalhos da classe dominante era criar um discurso de legitimação do seu domínio que fosse aceito e replicado pelas pessoas das outras classes. Tal narrativa de legitimação, quando se espraia pela sociedade, se caracteriza como hegemônico e, assim, não é apenas uma minoria que impõe uma forma de pensar, mas uma maioria que aceita e se enxerga no discurso.
Na sociedade capitalista em que vivemos, apenas uma minoria se beneficia do que ela pode oferecer como possibilidade de lazer, conforto e prazer. A grande maioria dos bens de consumo menos ou mais refinados não são de acesso à grande maioria das pessoas, simplesmente porque a maioria das pessoas não tem capacidade financeira para tal. Segundo informações do portal G1, o salário médio dos trabalhadores brasileiros é de pouco mais de 3.600,00 reais por mês. Convenhamos que com este salário não é possível ter acesso a inúmeros bens de lazer e conforto na nossa sociedade. Então, seria de se imaginar que a grande maioria da população brasileira não votasse em políticos de partidos que representam o pensamento econômico e social de acordo com o ethos da classe dominante. Mas não é isso o que ocorre.
Veja-se, por exemplo, as discussões em torno de projeto de lei que quer reduzir a escala de trabalho para 5x2 ao invés de 6x1 como é atualmente. O projeto prevê que não haverá diminuição do salário e nem poderá haver demissões, mas, mesmo assim, boa parte dos trabalhadores ecoa as opiniões dos políticos e outras lideranças que representam a classe dominante, no sentido de serem contrários à mudança. Como isso é possível? Há uma hegemonia de um pensamento que naturaliza as diferenças sociais e coloca no indivíduo a responsabilidade por toda a sua existência e, por consequência, por sua pobreza também. A base do pensamento hegemônico na sociedade capitalista gira em torno da concepção de indivíduo e da ideologia da meritocracia. Um líder de uma igreja evangélica dizia, dias atrás, para defender a manutenção da escala 6x1, que não se pode privar o trabalhador (indivíduo) de querer trabalhar mais para ganhar mais (meritocracia), como se, de fato, com mais trabalho o assalariado conseguisse mudar de patamar de vida na empresa em que trabalha. O pastor líder da igreja é uma das vozes da classe dominante que objetiva manter a hegemonia de um discurso que favorece, sempre, poucos.
Claro que tal discurso não é homogêneo em toda a sociedade, pois há vozes que produzem outros discursos e outras narrativas que se opõem ao discurso hegemônico, mas parece que há, em nossos dias, uma radicalização do discurso que responsabiliza o indivíduo por tudo. No discurso hegemônico, cabe ao indivíduo melhorar seu padrão de vida, se aperfeiçoando, estudando, dentro da própria empresa ou em outra (o que é muito bom, diga-se de passagem); mas cabe a ele, também, a responsabilidade pelo seu fracasso caso não atinja os seus objetivos, e assim, as drogas, o álcool, a depressão etc., vão fazer parte do caminho escolhido livremente pelo indivíduo que se sentiu fracassado. Isenta-se a sociedade de classes de qualquer responsabilidade; isenta-se uma sociedade que produz bilionários que não tem nem onde gastar suas fortunas. E, talvez tão grave quanto a desresponsabilização dos determinantes e limitações sociais de uma sociedade de classes, é o discurso hegemônico radicalizado que faz alguns indivíduos caírem no ridículo de se filmarem ingerindo detergente de uma determinada marca.
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