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EUA admitem ter armas em órbita — e China e Rússia não gostaram nada disso

há 7 horas
3 min de leitura

Washington quebra décadas de silêncio e confirma pela primeira vez que possui "armas de controle espacial" girando ao redor da Terra agora mesmo. Pequim fala em "campo de batalha" e Moscou pede desmilitarização — mas a desconfiança entre as potências é uma velha conhecida.


Por Marcio Nolasco - Analista de Políticas Públicas


Foi uma frase só, dita em meio a um discurso mais longo, mas bastou para virar manchete no mundo inteiro. Na segunda-feira, 14 de setembro, o secretário da Força Aérea dos Estados Unidos, Troy Meink, subiu ao palco da conferência Air, Space & Cyber, em National Harbor, Maryland, e soltou a bomba: os Estados Unidos "agora têm armas de controle espacial em órbita, capazes de defender a força conjunta contra ações hostis de adversários".



Não foi um vacilo. Questionado depois, em uma sessão de perguntas e respostas, Meink confirmou que a frase foi pensada com cuidado — nas suas palavras, "muito bem pensada". Ou seja: pela primeira vez na história, um alto funcionário do Pentágono admitiu, sem rodeios, que os EUA têm armas operando no espaço.


O que são essas armas? Ninguém sabe (ou ninguém conta)


Se você está esperando detalhes técnicos, prepare-se para a decepção. Meink não disse que tipo de arma é, quantas existem, nem quando foram lançadas. Nem à imprensa especializada que insistiu numa coletiva posterior o Pentágono deu qualquer pista concreta.


O que se sabe, oficialmente, é pouco: um porta-voz da Força Espacial explicou que o "controle espacial" pode envolver meios cinéticos e não cinéticos — ou seja, desde bloqueio de sinal (jamming) e ataques eletrônicos até, em tese, atingir fisicamente outra espaçonave. Especialistas ouvidos pela imprensa apostam que os sistemas revelados servem principalmente para interromper temporariamente satélites inimigos, provavelmente usando interferência de sinal ou lasers.


Quando pressionado sobre por que revelar algo tão sensível agora, Meink devolveu a pergunta com outra: existe alguma dúvida, perguntou ele à plateia, de que chineses e russos vêm desenvolvendo esse tipo de arma há anos?


Pequim: "não vamos ficar parados"


A resposta da China veio rápido e dura. O Ministério das Relações Exteriores classificou a postura americana como uma tentativa de transformar o espaço em "campo de batalha" e alertou contra uma corrida armamentista fora da Terra. Em coletiva, o porta-voz Guo Jiakun disparou: "instamos o lado americano a parar de expandir suas capacidades militares e de se preparar para a guerra no espaço sideral".


Ele fez ainda uma observação afiada: segundo Guo, a diferença é que os americanos sempre mantiveram essas capacidades em segredo — e agora resolveram assumir publicamente, o que mostra que Washington não está mais escondendo o jogo.


A China avisou que "não vai ficar parada sem fazer nada" e lembrou que já mantém sua própria estação espacial em órbita. A mensagem nas entrelinhas foi clara: se os EUA armarem o espaço, Pequim considera-se livre para fazer o mesmo.


Moscou pede espaço livre de armas — mas a memória recente conta outra história


Já o Kremlin preferiu o tom clássico da diplomacia de desarmamento. O porta-voz Dmitri Peskov declarou que a Rússia está "contando com uma ampla consolidação internacional para continuar trabalhando rumo à desmilitarização completa do espaço" e defendeu que a órbita terrestre precisa ficar "livre de quaisquer armas".


O discurso soa bem, mas tem um detalhe incômodo: a própria Rússia já foi acusada pelos Estados Unidos, em mais de uma ocasião, de colocar em órbita satélites com capacidade de atacar outras espaçonaves — inclusive um suposto satélite "inspetor" batizado de Cosmos 2576, lançado em 2024, que Washington classificou como arma antissatélite. Moscou negou tudo, chamando as acusações de "fake news". Autoridades militares americanas também já alegaram, em outras ocasiões, que a Rússia estaria desenvolvendo uma arma antissatélite com propulsão nuclear — outra acusação rejeitada pelos russos.


Por que isso importa


O episódio marca o fim de décadas de "ambiguidade estratégica" americana sobre armas espaciais — uma postura em que Washington nem confirmava, nem negava. Analistas dizem que a existência dessas armas já era, na prática, um segredo de Polichinelo. O que muda agora é a forma: ao admitir publicamente a capacidade, os EUA sinalizam a China e Rússia que estão prontos para agir — mas também abrem a porta para que os rivais façam o mesmo, sem mais disfarces.


Outro problema é jurídico: o Tratado do Espaço Exterior, de 1967, só proíbe armas de destruição em massa em órbita. Armas convencionais — como as que aparentemente os EUA confirmaram ter — não são proibidas por nenhum acordo internacional. Ou seja, a corrida espacial militar está, hoje, praticamente sem regras.


Vale lembrar que a militarização do espaço não é assunto novo: começou ainda na Guerra Fria, logo depois do lançamento do satélite soviético Sputnik, em 1957. O que mudou foi a tecnologia — e agora, pela primeira vez, também a discrição.


Com informações de agências internacionais e cobertura especializada em defesa.

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