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Entre o silêncio oficial e a desconfiança histórica: como Buenos Aires observa a crise interna no STF

há 7 horas
5 min de leitura

Uma análise da cobertura feita pela imprensa argentina sobre o confronto entre os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça


Por Marcio Nolasco | Buenos Aires | 09 de setembro de 2026


Um pano de fundo já desgastado


Para entender a leitura que o governo de Javier Milei faz da atual crise no Supremo Tribunal Federal, é preciso lembrar que a relação entre Casa Rosada e Palácio do Planalto já vinha de um trimestre turbulento antes mesmo de o embate entre os ministros Moraes e Mendonça vir à tona. Em julho, durante um ato de campanha em São Paulo em apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro, Milei classificou publicamente Alexandre de Moraes como "basura calva" (algo como "lixo careca"), além de dirigir insultos ao presidente Lula. O episódio, descrito pela imprensa regional como um estopim inédito entre os dois maiores países da América do Sul, levou o Itamaraty a chamar o embaixador brasileiro em Buenos Aires para consultas e, semanas depois, a rebaixar formalmente o nível da representação diplomática bilateral para a categoria de encarregado de negócios.

A resposta oficial argentina, à época, evitou validar as ofensas do próprio presidente. A Chancelaria do país, sob o comando do ministro Pablo Quirno, publicou um comunicado lamentando a decisão brasileira e afirmando que a Argentina nunca havia respondido a diferenças políticas com medidas institucionais — uma forma de reduzir o episódio a uma disputa ideológica pontual, sem colocar em xeque a relação bilateral como um todo. Quirno chegou a dizer publicamente que não havia "nenhuma chance" de ruptura das relações, e o chefe de Gabinete Diego Santilli pediu, em tom informal, que ninguém "rasgasse as vestes" por causa do episódio.



A nova fase: uma crise que já não é sobre Milei


O que muda no capítulo mais recente é justamente o protagonismo. Desde o início de setembro, a crise no STF deixou de girar em torno de ataques externos ao tribunal e passou a ser uma disputa interna, entre dois de seus próprios ministros. Segundo a cobertura de veículos como La Nación e Correio Braziliense, o estopim foi a decisão do ministro André Mendonça de retirar o sigilo de um relatório da Polícia Federal que apontava trocas de mensagens e encontros entre Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master — investigado por fraude. Dias depois, Moraes reagiu pedindo formalmente ao presidente da Corte, Edson Fachin, que Mendonça fosse investigado por suposto abuso de autoridade e produção irregular de provas contra um colega de toga.


A imprensa argentina tratou o episódio como algo sem precedentes mesmo para os padrões de um país já habituado a turbulências institucionais. O La Nación, por exemplo, publicou uma reportagem com o título "A crise no Supremo Tribunal Federal se agrava, e Lula pede uma investigação transparente", destacando que o presidente brasileiro defendia uma apuração isenta das acusações, sem proteger nenhum dos envolvidos. Já o Clarín, jornal de maior circulação do país, descreveu o pedido de Moraes contra Mendonça como um novo capítulo da crise, motivado por supostos indícios de conduta imprópria, abuso de autoridade e favorecimento a determinados grupos políticos.


O que o governo argentino diz — e o que prefere não dizer


Aqui está o ponto mais revelador para quem acompanha a posição oficial de Buenos Aires: ao contrário da crise diplomática de julho e agosto, quando a Casa Rosada precisou se pronunciar quase diariamente sobre as falas do próprio presidente, a disputa interna entre Moraes e Mendonça não gerou, até o momento, um posicionamento formal do governo argentino. Não houve nota oficial da Chancelaria nem declarações de Milei especificamente sobre o novo capítulo da crise judicial brasileira.


Esse silêncio, no entanto, não deve ser lido como neutralidade. A imprensa argentina vem tratando o episódio muito mais como um tema de cobertura jornalística — um sintoma da fragilidade institucional que atinge o Judiciário brasileiro às vésperas das eleições de outubro — do que como um assunto que exija reação diplomática, já que, desta vez, nenhum representante estrangeiro está diretamente na mira dos ministros da Corte. A avaliação implícita em boa parte dos analistas citados por veículos como La Nación é a de que a crise interna do STF fragiliza ainda mais a imagem do tribunal que, segundo a própria imprensa brasileira consultada por esses veículos, passou a ser mais reconhecido por sua atuação política do que pela análise técnica de questões constitucionais.


Ainda assim, é possível reconstruir a leitura política que setores próximos ao governo argentino fazem do episódio a partir do histórico recente. Para o entorno de Milei — que tem em Moraes um alvo declarado desde a condenação de Jair Bolsonaro por tentativa de golpe — a disputa entre os ministros tende a ser interpretada como confirmação de uma tese já defendida publicamente pelo presidente argentino: a de que o STF atua de forma politizada e que Moraes, em particular, concentra poder de forma que o próprio establishment jurídico brasileiro começa a questionar. Não por acaso, a Casa Rosada já havia demonstrado publicamente apoio a figuras em conflito com decisões de Moraes no passado, como no episódio em que o governo argentino manifestou solidariedade a Elon Musk após o empresário ser incluído em inquérito conduzido pelo ministro.


Uma crise que se soma a outra


Analistas ouvidos pela imprensa da região apontam que os dois episódios — a crise diplomática de meados de 2026 e a atual disputa interna no STF — não são desconectados, ainda que tenham origens distintas. Ambos alimentam, em Buenos Aires, a narrativa de que o sistema político brasileiro atravessa uma fase de instabilidade institucional profunda, às vésperas de uma eleição presidencial marcada para outubro. A proximidade do pleito é vista como fator que amplia o impacto de qualquer crise dentro do Supremo: uma Corte fragilizada e dividida publicamente, apenas semanas antes da votação, tende a reforçar o discurso de setores bolsonaristas — próximos ideologicamente ao governo argentino — de que o tribunal perdeu legitimidade para arbitrar disputas políticas.


Por outro lado, a cautela oficial da Casa Rosada em não se pronunciar diretamente sobre o novo capítulo sugere um cálculo pragmático: passado o desgaste diplomático de julho e agosto — que chegou a ameaçar a relação comercial entre os dois maiores parceiros econômicos da região —, o governo argentino parece preferir deixar que a crise interna do Judiciário brasileiro seja debatida pela própria opinião pública do país vizinho, evitando reabrir uma frente de atrito institucional às vésperas de eleições que podem redesenhar o mapa político sul-americano.


O que observar daqui para frente


A imprensa argentina continuará sendo um termômetro relevante da forma como o governo de Milei reage — ou deixa de reagir — aos desdobramentos da crise no STF. Um ponto de atenção é justamente o resultado do prazo de cinco dias úteis estabelecido pelo presidente da Corte, Edson Fachin, para que Moraes, Mendonça, o procurador-geral Paulo Gonet e o diretor-geral da Polícia Federal prestem esclarecimentos sobre o caso. Qualquer desdobramento que amplie a crise institucional — ou que volte a colocar líderes estrangeiros na mira das decisões do tribunal — tem potencial de romper o silêncio diplomático que a Casa Rosada vem mantendo desde o início de setembro.



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